Calor, coração e morte súbita: quando o clima se torna fator de risco

  • Rosana Ribeiro
  • Publicado em 17 de janeiro de 2026 às 11:30
compartilhar no whatsapp compartilhar no telegram compartilhar no facebook compartilhar no linkedin

Durante ondas de calor, sintomas como fadiga, tontura e mal-estar são facilmente atribuídos ao clima

O calor não é apenas desconforto ambiental: é um causador de estresse fisiológico potente (Foto Arquivo)

 

Ondas de calor deixaram de ser exceção climática para se tornarem um determinante relevante de saúde.

A literatura científica recente consolidou uma associação clara entre temperaturas extremas e aumento da mortalidade cardiovascular, especialmente por infarto agudo do miocárdio, arritmias malignas, descompensação de insuficiência cardíaca e morte súbita.

O calor não é apenas desconforto ambiental: é um estressor fisiológico potente.

Efeitos do calor no organismo

Do ponto de vista cardiovascular, o calor impõe um duplo desafio. Para dissipar temperatura, o organismo promove vasodilatação periférica, reduzindo a resistência vascular sistêmica.

Em indivíduos saudáveis, esse mecanismo é compensado por aumento da frequência cardíaca e do débito cardíaco.

Em idosos, cardiopatas e pacientes com insuficiência cardíaca ou doença coronariana, essa capacidade adaptativa é limitada. O resultado pode ser hipotensão, isquemia miocárdica silenciosa e instabilidade elétrica.

A desidratação exerce papel central nesse processo. A perda hídrica aumenta a viscosidade sanguínea, favorece hemoconcentração e eleva o risco trombótico.

Associada à ativação neuro-hormonal com liberação de catecolaminas e cortisol, cria-se um ambiente pró-inflamatório e pró-arrítmico.

Distúrbios eletrolíticos, como hiponatremia e hipocalemia, tornam-se mais frequentes, aumentando o risco de fibrilação atrial, taquiarritmias ventriculares e morte súbita.

Grupos mais vulneráveis

Estudos populacionais demonstram aumento consistente de internações e óbitos cardiovasculares durante períodos de calor extremo.

A relação é não linear: a partir de determinados limiares térmicos, pequenas elevações de temperatura resultam em crescimento desproporcional da mortalidade.

Alguns grupos são mais vulneráveis. Idosos apresentam menor sensação de sede e menor eficiência de termorregulação.

Pacientes em uso de diuréticos, betabloqueadores e inibidores do sistema renina-angiotensina podem ter respostas compensatórias prejudicadas. Doentes renais crônicos, diabéticos e portadores de doenças pulmonares também apresentam risco elevado.

Sintomas que atrasam diagnóstico

Há ainda um fator clínico frequentemente negligenciado: o atraso diagnóstico. Durante ondas de calor, sintomas como fadiga, tontura e mal-estar são facilmente atribuídos ao clima.

Infartos podem ocorrer sem dor torácica típica, especialmente em mulheres e idosos, retardando a procura por atendimento e o início do tratamento.

Ondas de calor devem ser tratadas como períodos de alto risco cardiovascular, com estratégias claras de antecipação: orientação ativa a grupos vulneráveis, hidratação, revisão de medicações e preparo dos serviços de emergência.

Ignorar o clima como variável clínica é manter um ponto cego perigoso na prática médica contemporânea.

Em um mundo mais quente, cuidar do clima tornou-se parte indissociável de cuidar do coração. Não se trata de ideologia, mas de medicina baseada em evidências.

Fonte: O Globo


+ Saúde