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O mercado de café no Brasil cresce a uma média de 2% ao ano. No caso de café especiais, o crescimento é de 7%
O cultivo e a produção de cafés especiais podem aumentar o
mercado e agregar valor a um dos produtos mais tradicionais da lavoura
brasileira. A expansão potencial ocorrerá se o país vender mais café
industrializado e reverter a tendência de comoditização das exportações.
Conforme sumário executivo do Ministério da Agricultura,
Pecuária e Abastecimento (Mapa), o Brasil exportou 34,1 milhões de sacas de
café (60 kg) no ano passado. Cerca de nove a cada dez sacas vendidas foram de
café verde (em grãos não torrados). A comercialização de café torrado e solúvel
é pouco superior a 10% do total.
De acordo com Ivan Oliveira, diretor de Estudos e Relações
Econômicas e Políticas Internacionais do Ipea, o país perdeu espaço na venda de
café industrializado. Segundo ele, na década de 1990, 51% das exportações eram
de café solúvel (pronto para consumo). “A gente perdeu muito espaço no café
processado no mundo”, observa. “Deixamos o bonde da industrialização e da
gourmetização do café, muito por conta do fechamento do mercado brasileiro de
grãos”, aponta.
O fechamento do mercado brasileiro para grãos produzidos em
outros países é medida de proteção fitossanitária para evitar a contaminação da
lavoura brasileira com pragas que possam entrar no país por meio de grãos
importados.
Estudo do Ipea contabiliza, no entanto, que a medida tem como
efeito gerar uma barreira não tarifária que aumenta o custo do grão importado
em 13,61%.
Para Oliveira, a medida dificulta o aumento de
produção do café solúvel, que tem maior valor agregado do que o produto em
grãos, e cuja industrialização gera mais empregos. “Ao fechar o mercado, ao não
permitir a entrada de café em grão no Brasil, não se garante ao investidor que
quer montar uma fábrica de processamento de café a matéria-prima fundamental
para que ele possa ter a atividade”, detalha.
Segundo o especialista, se o Brasil não tivesse a
política tão protetiva, o país poderia se dedicar mais a produção de cafés
feitos a partir de misturas (blends) como fazem países como Alemanha,
França, Holanda, Bélgica e Espanha. Em vez disso, o Brasil é nicho de mercado
para esses países, por exemplo, na compra de cápsulas de café que trazem
misturados produtos de diferentes origens (Ásia, África, América Central e América
do Sul). “As grandes empresas não vêm para cá por causa desse tipo de
dificuldade: de precisarem de um tipo de café para produzir blend e o
Brasil proibir importação”, analisa Antônio Guerra, chefe geral da Embrapa
Café.
Nathan Herszkowicz, diretor executivo da Associação
Brasileira da Indústria de Café (Abic), opina que o sucesso das exportações de
café verde desestimulou a venda de mais café processado. “Esse valor foi sempre
tão expressivo que os brasileiros perderam a visão de oportunidade que o
mercado poderia apresentar”. Ele reconhece, no entanto, que “exportar o grão
cru é deixar de ganhar uma parte importante do preço da saca”.
Economia globalizada
Sílvio Farnese, diretor de Comercialização e
Abastecimento do Mapa admite que o café solúvel é um produto estratégico e que
abre porta para o produto brasileiro em mercados sem o hábito de consumir a
bebida, como países da Ásia, pois “tem o mesmo preparo do chá”.
Ele pondera, no entanto, que “a agregação de valor
é um discurso saudável”, mas tem que ser repensado no contexto econômico. “O
mercado globalizado tem dificuldade de aceitar de um só país a produção
integral. Se o país quiser vender o top da agregação de valor, está tirando a
possibilidade de o comprador fazer uma parte do produto e ganhar com isso”,
assinala. “Na economia globalizada temos que dividir a receita. Quem produz
ganha uma parte, quem industrializa ganha outra”, avalia Farnese. Conforme o
diretor do Mapa, o Brasil está buscando agregar valor ao café na melhoria da
qualidade do grão ofertado e especialização. “Na produção de café, há
possibilidade de alteração de sabor, aroma e paladar alteração depende da
mistura dos grãos”.
Cafés especiais
De acordo com os especialistas, o mercado de café no Brasil
cresce a uma média de 2% ao ano. No caso de café especiais, o crescimento é de
7% ao ano. O aumento de produção de café especiais já reflete nas exportações,
que equivalem a duas de cada dez sacas exportadas pelo Brasil.
A Associação Brasileira de Cafés Especiais (BSCA, sigla em
inglês) credenciou 14 empresas exportadoras de Minas Gerais, Paraná e São
Paulo, e descreve 45 variedades de cafés especiais.
A mestre de torras Nathalia Rodrigues, que trabalha em uma
microempresa de torrefação de cafés especiais em Brasília, reclama da
infraestrutura para escoamento da produção e exportação, que também afeta
outros setores do agronegócio. “Vender café especial para o mercado externo
exige uma logística que o Brasil ainda não está preparado”, alerta.
A logística é determinante para agilizar a entrega
do café especial no destino. O imediatismo desse processo favorece o consumo de
um produto com mais qualidade. “Depois do café ser torrado há uma perda
sensorial, com a oxidação do fruto e redução do gás carbônico”, explica.
De acordo com a mestre, conhecimento sobre esses
processos são partilhados hoje e aumentou a visão sobre a importância da
produção de excelência. “Existe reconhecimento nacional de que a gente pode
ocupar uma escala muito maior que temos ocupado. O cenário do café especial
está acontecendo agora”.
Preço e qualidade
A saca de 60 kg de café arábica fechou na última
semana (sexta-feira, 05 de julho) em torno de R$ 440, conforme a
procedência. Segundo Nathalia Rodrigues, a saca com grãos especiais custa o
dobro desse preço no mínimo, e pode atingir a valores bastante superiores em
caso de grãos premiados. “Tem preço de venda maior e agrega valor desde o
começo da cadeia produtiva, desde o produtor no campo até o industrial”, aprova
Nathan Herszkowicz, da Abic.
O representante da indústria cafeeira acredita que
em cinco anos haverá mais produção e diversificação de atividades da indústria,
“não só aquelas que torram o grão, mas indústrias que vendem o pacote inteiro
da máquina de café até as maneiras diferentes de consumi-lo”.
“O consumidor está cada vez mais exigente e, como
consequência, aceita pagar um pouco mais por uma bebida melhor”, acrescenta
Lucas Tadeu Ferreira, analista Embrapa Café.
A pesquisa no campo é chave para o aprimoramento da
qualidade do café e da produtividade. Ferreira descreve que o esforço começa
antes da lavoura. “A melhoria começa com a seleção das cultivares das plantas”.
Depois do plantio, há cuidados por décadas de
manejo de uma cultura que é perene. O regime de irrigação, controle de
nutrientes e uso de defensivos repercutem na florada e no nascimento dos
frutos. Após a colheita, há o beneficiamento dos grãos (seca natural ou
despolpamento) e seleção para a formação das sacas.
A Embrapa trabalha, em sua fazenda em Planaltina no
Distrito Federal, no desenvolvimento da espécie de café robusta, tipo mais
requisitado pela indústria para fazer café solúvel. O produto tem preço mais
baixo que o café arábica e produz o creme apreciado por bebedores de
café-expresso.
Por ora, as investigações da empresa estatal já
descobriram como fazer os arbustos do café robusta serem 80% mais produtivos a
1.050 metros de altitude (relevo de Brasília) do que são em seu habitat mais
próximo de regiões litorâneas, como as lavouras da Bahia e do Espírito Santo
(500 – 600 metros de altitude). Além dessa vantagem, a colheita no cerrado, em
lavouras de relevo plano, pode ser mecanizada e mais rápida.
O Brasil é o maior produtor e exportador de café no
mundo. O país é o segundo maior mercado consumidor da bebida. De cada três
xícaras consumidas no planeta, uma tem café originário do Brasil (geralmente do
tipo arábica). No ano passado, segundo o Ministério da Economia, o café rendeu
US$ 4,36 bilhões com exportação.
Trezentos mil produtores fornecem café para o
mercado externo e interno, e cultivam o café em lavoras de sete hectares em
média. A área total plantada equivale a 1,8 milhão campos de futebol (1,8
milhão de hectares). Há produção de café em cerca de 2 mil municípios
brasileiros.