Uso de melatonina não é inofensivo e pode ser arriscado em longo prazo; entenda

  • Rosana Ribeiro
  • Publicado em 28 de janeiro de 2026 às 19:30
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Embora tenha autorização da Anvisa para ser comercializada sem prescrição, a falta de orientação médica pode causar uma série de prejuízos à saúde

Estudo sugere que uso prolongado de melatonina pode aumentar risco cardíaco. Especialistas alertam para uso sem orientação médica (Foto Freepik)

 

Disponível em comprimidos, gotas e até balas de goma, a melatonina tem ganhado cada vez mais espaço nas prateleiras das farmácias, impulsionada pela busca por soluções rápidas para noites mal dormidas.

Apesar da imagem de produto natural e inofensivo, o suplemento não é recomendado para todas as pessoas. Especialistas alertam que o uso sem indicação e acompanhamento médico pode trazer consequências à saúde.

Estudo associa melatonina a maior risco cardiovascular

Um estudo apresentado em novembro de 2025 nas Sessões Científicas da Associação Americana do Coração (AHA), nos Estados Unidos, sugere que o uso prolongado de melatonina pode estar associado a um risco maior de doenças cardiovasculares em adultos com insônia crônica.

A pesquisa analisou mais de 130 mil prontuários, comparando indivíduos que utilizaram melatonina por pelo menos um ano com um grupo que nunca fez uso da substância.

Os resultados indicaram que os usuários apresentaram cerca de 90% mais risco de desenvolver insuficiência cardíaca, além de 250% mais chances de hospitalização pela condição. O risco de morte por qualquer causa também foi aproximadamente duas vezes maior nesse grupo.

Apesar do alerta, os dados ainda são preliminares e não passaram por revisão por pares. “Não podemos afirmar que a melatonina foi a causa direta das complicações, mas há uma associação forte que merece atenção da população e dos profissionais de saúde”, avalia a neurologista Giuliana Macedo Mendes, do Hospital Israelita Albert Einstein, em Goiânia.

Suplemento alimentar ou hormônio?

No Brasil, a melatonina é classificada como suplemento alimentar, autorização concedida pela Anvisa em outubro de 2021, o que permite sua venda sem prescrição médica.

Em nota, a agência informou que a decisão considerou o fato de a substância ser naturalmente presente em alimentos e segura dentro dos limites estabelecidos. No entanto, especialistas destacam que essa classificação não reflete sua real natureza biológica.

“A melatonina é um neuro-hormônio, não um suplemento nutricional”, explica o médico José Cipolla-Neto, professor do Instituto de Ciências Biomédicas da USP. “Hormônios interferem diretamente na fisiologia humana, e o uso indiscriminado pode causar uma série de problemas.”

Muito além do sono

Produzida pela glândula pineal, no cérebro, a melatonina começa a ser liberada com a chegada da escuridão e tem papel fundamental na regulação do ritmo circadiano, o chamado “relógio biológico”.

Durante a noite, o hormônio atua desligando mecanismos ligados à atividade diurna e ativando processos essenciais ao repouso, como a redução da temperatura corporal, da pressão arterial e o aumento da sensação de sonolência.

Além disso, a melatonina funciona como um marcador biológico da duração da noite, ajudando o organismo a se adaptar às variações sazonais.

Indicações restritas e riscos do uso prolongado

A melatonina sintética disponível nas farmácias possui as mesmas características do hormônio produzido pelo corpo humano, o que exige uso criterioso e monitoramento médico.

Segundo especialistas, muitas pessoas utilizam o suplemento por meses ou anos sem acompanhamento e ainda aumentam as doses diárias, ultrapassando o limite de segurança de 0,21 mg, definido pela Anvisa.

Os efeitos colaterais imediatos incluem sonolência diurna, tontura, dor de cabeça e desorientação. Já as consequências a longo prazo, como o possível risco cardiovascular apontado pelo estudo, ainda estão sendo investigadas.

Quando a melatonina pode ser indicada

São poucos os casos em que a suplementação é realmente indicada. Entre eles estão pessoas com lesões nas regiões cerebrais responsáveis pela percepção de luminosidade, como indivíduos cegos, que podem ter produção insuficiente do hormônio.

Outro grupo inclui pacientes com distúrbios do ritmo circadiano, em que o organismo produz melatonina em horários inadequados, dificultando o sono. Nesses casos, a substância pode ajudar a ajustar o horário do adormecer, sempre com orientação médica.

Dormir melhor sem depender de medicamentos

Especialistas reforçam que a melatonina não é uma solução universal para a insônia. Quadros de ansiedade, depressão e dor crônica, por exemplo, frequentemente estão associados ao problema e exigem tratamento específico.

A terapia cognitivo-comportamental para insônia (TCC-I) é considerada o tratamento padrão-ouro, ajudando a modificar hábitos e crenças que prejudicam o sono.

Mudanças no estilo de vida também fazem diferença: evitar telas e luzes intensas à noite, praticar atividade física regularmente (preferencialmente durante o dia), manter alimentação leve no período noturno e controlar o estresse são medidas eficazes.

“Diante de dificuldades recorrentes para dormir, o ideal é procurar um médico do sono para investigar a causa e definir o melhor tratamento”, orienta Cipolla-Neto.

Fonte: Agência Einstein


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