Chegada do verão pode interferir nas cólicas menstruais e até no sistema imunológico
O calor afeta o corpo humano de diversas formas, inclusive causando desequilíbrio hormonal nas mulheres (Foto Arquivo)
Quando pensamos nos efeitos do calor sobre o nosso corpo, geralmente vêm à mente as espinhas e as noites mal dormidas. Mas você sabia que os hormônios também podem sair do eixo quando as temperaturas sobem?
De acordo com Hannah Alderson, nutricionista especializada em hormônios, “podemos ficar desidratadas, o que afeta a capacidade do fígado de metabolizar e desintoxicar hormônios como o estrogênio. O calor impacta o equilíbrio hormonal porque o corpo precisa trabalhar mais para regular a própria temperatura”.
E um desequilíbrio hormonal pode afetar desde os níveis de estresse e o ciclo menstrual até o inchaço.
Além de encostar a testa na porta do freezer, a recomendação geral é beber pelo menos dois litros de água por dia (mais se você for ativa) e consumir alimentos ricos em água para combater essa tempestade perfeita.
“Basicamente, o fígado precisa de água suficiente para funcionar corretamente”, acrescenta Hannah.
A seguir, veja com mais detalhes as principais formas pelas quais uma onda de calor pode afetar seus hormônios — e algumas estratégias práticas para aliviar os efeitos colaterais.
1. Aumento dos níveis de cortisol
As altas temperaturas podem provocar um pico de cortisol. Conhecido como o hormônio do estresse, ele faz parte da resposta de luta ou fuga do corpo.
Precisamos do cortisol para regular a glicemia, controlar o ciclo sono-vigília e estimular a reparação dos tecidos, mas existe um limite — e o excesso pode levar ao estresse físico e emocional.
“Quando exposto a altas temperaturas, o corpo pode vivenciar uma forma de estresse físico”, afirma a Dra. Jennifer Singh, clínica geral da The Marion Gluck Clinic, uma das principais clínicas de equilíbrio hormonal do Reino Unido. Esse “estresse térmico” e a tentativa do corpo de regular a temperatura interna se enquadram nessa categoria.
“O calor ativa o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HPA), resultando na liberação de cortisol”, explica a Dra. Singh.
“O corpo precisa trabalhar mais para se resfriar, aumentando a frequência cardíaca, o fluxo sanguíneo para a pele e a transpiração, e essas mudanças fisiológicas desencadeiam respostas de estresse que levam à liberação de cortisol.”
Com o tempo, níveis elevados de cortisol e o corpo sempre em estado de alerta podem ter efeitos prejudiciais à mente e ao corpo. “O cortisol elevado de forma crônica pode levar a problemas como ansiedade, fadiga e desequilíbrios hormonais”, diz Hannah.
Estratégia para lidar: Manter-se fresca e bem hidratada é fundamental para ajudar o corpo a manter a temperatura ideal, afirma a Dra. Singh.
“Quando o corpo está bem hidratado, consegue gerenciar melhor o estresse, o que ajuda a evitar picos de cortisol”, acrescenta Hannah. Além de beber bastante líquido, “reduza a temperatura corporal com ventiladores, duchas frias ou ar-condicionado”, diz ela.
“Gerenciar o estresse com técnicas de relaxamento, como respiração profunda ou meditação, também ajuda a manter o cortisol estável.”
A Dra. Singh também recomenda “consumir alimentos ricos em antioxidantes, vitaminas do complexo B e minerais como o magnésio, para ajudar a sustentar as glândulas adrenais e reduzir os picos de cortisol”.
2. Menstruação mais dolorosa
Há um aumento natural da temperatura corporal interna durante a menstruação. Somando isso ao calor externo, não é surpresa que possam surgir dores de cabeça persistentes e cansaço — sem falar no desconforto de usar um absorvente mais volumoso.
“O calor e a desidratação também podem afetar os níveis de estrogênio e progesterona, levando a sintomas de desequilíbrio hormonal”, diz Hannah. “Isso pode significar ciclos irregulares ou piora dos sintomas da TPM, como cólicas.”
Estratégia para lidar: “O fígado desempenha um papel fundamental na regulação do estrogênio e da progesterona e, sem hidratação suficiente, ele pode ter dificuldades, causando inchaço e oscilações de humor”, explica Hannah.
Para aliviar os sintomas, ela recomenda aumentar a ingestão de água e consumir alimentos hidratantes, como pepino, melancia e morango. Outras adições à rotina incluem “chás de ervas, como o chá de hortelã-verde (spearmint), que também é benéfico para quem tem SOP [síndrome dos ovários policísticos]”.
3. Sistema imunológico mais fraco
Normalmente não pensamos nos hormônios como essenciais para um sistema imunológico eficiente. Mas eles desempenham um papel complexo na forma como combatemos infecções.
Acredita-se que o estrogênio ajude a regular o sistema imunológico, mas “o calor e a desidratação podem enfraquecê-lo ao afetar o equilíbrio de hormônios como cortisol e estrogênio, tornando você mais vulnerável a doenças”, afirma Hannah.
Da mesma forma, os hormônios da tireoide — que desempenham um papel crucial na função imunológica — podem ser reduzidos pelo calor, observa a Dra. Singh. O calor também pode influenciar a liberação de moléculas chamadas citocinas, que podem causar inflamação.
No início, “o corpo produz proteínas de choque térmico, que ajudam a proteger as células contra danos”, explica a Dra. Singh. “No entanto, o cortisol elevado devido ao calor pode suprimir a resposta imunológica, reduzindo a capacidade do corpo de combater infecções.”
Estratégia para lidar: “Apoiar a função imunológica em climas quentes significa manter-se hidratada para ajudar a regular o cortisol e apoiar a saúde do fígado”, diz Hannah. Também é importante manter uma alimentação equilibrada e rica em nutrientes, especialmente com uma porção de proteína em cada refeição.
Sem proteína suficiente, o corpo pode ter dificuldade para produzir células imunológicas e anticorpos suficientes para combater doenças, explica a nutricionista Riya Lakhani-Kanji.
Já a Dra. Singh recomenda incluir alimentos ricos em vitaminas C e E, zinco e ômega 3, além de “alimentos probióticos para ajudar a manter a saúde intestinal, que está intimamente ligada ao sistema imunológico”.
4. Cansaço, sensibilidade nos seios e inchaço
“A desidratação durante uma onda de calor pode levar a um mau funcionamento do fígado, o que pode causar o acúmulo de hormônios em excesso, como o estrogênio”, diz Hannah. “Isso pode resultar em sintomas como fadiga, inchaço e dor nos seios.”
Estratégia para lidar: “Chás gelados de ervas, como o chá verde, não apenas ajudam na hidratação, como também oferecem benefícios hormonais específicos, como o suporte ao metabolismo”, afirma Hannah.
5. Sono de má qualidade
Pode parecer óbvio, mas o calor pode atrapalhar o sono. Além de um quarto quente demais, que faz você se revirar na cama, “a exposição ao calor à noite também pode interferir na produção de melatonina, levando a um sono de baixa qualidade”, observa a Dra. Singh.
Isso, por sua vez, “pode impactar os níveis de cortisol e os hormônios do crescimento”, essenciais para a reparação dos tecidos e a regulação do metabolismo.
Estratégia para lidar: Descansar adequadamente é importante para evitar níveis elevados de cortisol, diz a Dra. Singh.
Se você fica estressada porque o calor está atrapalhando uma boa noite de sono, experimente o truque do ventilador com gelo antes de dormir: coloque gelo em uma tigela e posicione-a em frente a um ventilador. À medida que o ar passa sobre o gelo, ele absorve a umidade e circula uma brisa fria pelo ambiente.
6. Você se sente mais feliz
Mas nem tudo é negativo. Um lado positivo é que, no calor, também tendemos a absorver mais vitamina D — a famosa “vitamina do sol”.
Segundo Rhian Stephenson, nutricionista, naturopata e fundadora da Artah, 90% da vitamina D absorvível vem da luz solar, como resultado da interação dos raios UVB com uma proteína da pele, convertendo-a em vitamina D3.
Ela acredita que a vitamina D é tão essencial para o bem-estar e desempenha um papel tão crucial nos processos hormonais do corpo que deveríamos “pensar na vitamina D menos como uma vitamina e mais como um pró-hormônio”.
Além disso, há a melhora no humor que acompanha um dia ensolarado. “Níveis mais altos de vitamina D ajudam o cérebro a produzir substâncias do bem-estar, como a serotonina, o que pode fazer você se sentir mais feliz”, diz Hannah.