Especialistas explicam como o paladar e o olfato se conectam às nossas lembranças e mostram como essa relação pode ajudar no cuidado emocional
A ciência explica: o olfato e o paladar estão diretamente ligados às áreas do cérebro que processam memória e emoção (Foto Freepik)
Sentir um cheiro de alho dourando ou o aroma de um bolo no forno pode ser o gatilho para uma lembrança antiga — um almoço em família, um abraço da avó, um domingo preguiçoso.
A ciência explica: o olfato e o paladar estão diretamente ligados às áreas do cérebro que processam memória e emoção, o que faz da comida uma poderosa ponte afetiva.
Entre o cérebro e o coração
Segundo a nutricionista Aline Quissak, o bulbo olfatório — responsável pelo processamento dos cheiros — tem ligação direta com o sistema límbico, onde estão o hipocampo e a amígdala, regiões que armazenam memórias emocionais.
Por isso, um simples aroma pode “abrir” a caixinha das lembranças mais marcantes.
Mas essa ligação não é sempre doce. A psicóloga Cristiane Pertusi, presidente da Associação Brasileira de Terapia Familiar (ABRATEF), lembra que o olfato também pode despertar traumas.
“Um ex-soldado pode reviver momentos de guerra com o cheiro de pólvora; uma mulher pode ter gatilhos ao sentir um perfume que remete a uma situação ruim”, explica.
O primeiro afeto da vida
Para Pertusi, o vínculo emocional com a comida nasce cedo. “O alimento é o primeiro prazer do bebê, muito antes de ele entender o que é fome”, afirma.
Essa associação entre alimento e conforto acompanha a vida adulta: em momentos de estresse, o corpo busca o mesmo acolhimento que encontrou lá atrás.
A nutricionista Aline Quissak complementa: “Comidas afetivas ativam serotonina e dopamina, os hormônios do bem-estar. É como se o prato dissesse: você está seguro, está em casa”. É daí que vem o conceito de comfort food — o prato que alimenta a alma antes do estômago.
Quando a comida cura
A psicóloga Cristiane Pertusi destaca que cozinhar ou compartilhar refeições pode ser terapêutico. “Casais podem fortalecer vínculos ao cozinhar juntos; preparar o prato preferido de alguém que já se foi ajuda no luto”, explica.
Em muitos casos, a terapia busca ressignificar o ato de comer, transformando a refeição em um momento leve e de conexão emocional.
Ela reforça, porém, que a comida é um apoio, não uma solução isolada: “O equilíbrio é essencial para que o alimento seja uma ponte de bem-estar, não um refúgio de ansiedade”.
A cozinha como palco da emoção
Na prática, os sabores também contam histórias. A chef Giovanna Grossi, do restaurante Animus, diz que um de seus pratos mais emocionais é a canjica das festas juninas de sua infância em Alagoas. “Quando provo algo parecido, volto direto para as fogueiras na praia e a família reunida”, conta.
Segundo a chef, o poder da comida está na soma de elementos — o molho, a textura, a temperatura — que, juntos, despertam algo íntimo em quem prova. “Já ouvi clientes dizerem que a comida do Animus tem alma. Acho que é isso: quando ela toca alguém de forma profunda”, afirma.
Memórias e descobertas no mesmo prato
Experimentar algo novo também pode ativar no cérebro a curiosidade. Quissak explica que sabores inéditos estimulam o córtex orbitofrontal, área ligada à recompensa e criatividade. “Um novo gosto pode se tornar uma nova memória afetiva”, diz.
Pertusi complementa: “Quem tem uma mente mais aberta tende a viver essas experiências de forma mais intensa. O sabor pode, literalmente, fazer a pessoa viajar”.
A herança na panela
Para a chef Grossi, a cozinha regional é o maior símbolo de memória coletiva. “Um prato como a moqueca fala de origem, de Brasil, de mesa cheia. É o sabor das minhas raízes e da minha trajetória”, resume.
Assim, a comida cumpre seu papel mais humano: alimentar o corpo, despertar lembranças e aquecer a alma.