Autismo, TDAH, ansiedade: um diagnóstico pode fazer você se sentir melhor?

  • Rosana Ribeiro
  • Publicado em 5 de outubro de 2025 às 19:30
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À medida que categorias diagnósticas se expandem para incluir versões cada vez mais leves de doenças, pesquisadores propõem que o simples ato de nomear um mal pode, por si só, trazer alívio

Diagnósticos de transtornos como TDAH e autismo trazem alívio e autocompreensão, mas também podem aprisionar pacientes em uma identidade de doença (Foto Arquivo)

 

Nos últimos anos, especialmente após a pandemia, cresceu o número de adultos que receberam diagnósticos de transtornos mentais e neurodivergências, como TDAH, autismo, ansiedade, TEPT e compulsão alimentar.

Para muitos, descobrir “o nome do duende” — expressão usada por especialistas — foi libertador. O diagnóstico trouxe sentido para anos de autocrítica e desconforto, além de facilitar o acesso a tratamento e acolhimento em comunidades de apoio.

Mas, segundo pesquisadores, esse fenômeno tem dois lados. O alívio inicial muitas vezes é seguido de uma sensação de aprisionamento: o rótulo que explica também limita.

Efeito psicológico do diagnóstico

O professor Alan Levinovitz, da James Madison University, observou o crescimento de pedidos de adaptação escolar ligados a TDAH e ansiedade. Intrigado, percebeu que muitos pacientes relatavam o diagnóstico como “existencialmente transformador”, algo que dava significado à própria história de vida.

Em parceria com o psiquiatra Awais Aftab, ele chamou esse efeito de “efeito Rumpelstiltskin” — em alusão ao conto dos irmãos Grimm, no qual adivinhar o nome do duende quebra o feitiço.

O diagnóstico, afirmam os autores, tem um efeito psicológico comparável ao placebo: o simples ato de nomear uma condição oferece sensação de controle e alívio. Pesquisas reforçam essa ideia.

Um estudo da University College Dublin, com 1.848 adultos diagnosticados com autismo, revelou que a maioria descreveu a experiência como uma “revelação”. Muitos disseram que gostariam de ter sido diagnosticados antes, para poupar anos de culpa e sensação de inadequação.

Impacto no convívio social

A validade social do diagnóstico também é forte. Ele serve como um “modelo explicativo” para comportamentos e dificuldades — o que reduz a autocrítica.

Uma mulher diagnosticada com TDAH aos 50 anos comparou a descoberta a perceber que passou a vida tentando subir uma escada sem ter as ferramentas certas. “Ainda prefiro isso a pensar que sou uma pessoa ruim”, afirmou.

Porém, especialistas alertam para o risco de um efeito reverso. A professora Cliodhna O’Connor, também da University College Dublin, analisou grandes grupos com transtornos leves, comparando diagnosticados e não diagnosticados.

O resultado: quem recebeu diagnóstico teve, a longo prazo, pior bem-estar emocional e maior pessimismo quanto à recuperação.

Efeito reverso a longo prazo

Segundo a neurologista Suzanne O’Sullivan, autora de The Age of Diagnosis, o problema é quando o diagnóstico não vem acompanhado de uma narrativa de recuperação.

“Embora traga alívio e comunidade, pode aprisionar a pessoa em uma identidade de doença”, explica. Isso é especialmente delicado entre jovens, que passam a ver suas dificuldades como “anormalidades cerebrais” imutáveis — uma profecia autorrealizável.

Pesquisadores como Isaac Ahuvia, da Stony Brook University, observam que o “efeito Rumpelstiltskin” é real e recorrente: dar nome a algo dá poder.

Mas o psiquiatra Aftab ressalta que o rótulo não é o fim da história. Ele passou a conversar mais com os pacientes antes de comunicar o diagnóstico, explicando que os transtornos são parte de uma teia maior — de história de vida, temperamento e contexto social.

Para ele, o desafio atual da psiquiatria é entender que diagnosticar não é neutro. Cada palavra dita por um profissional pode curar, libertar ou aprisionar. “Os diagnósticos continuam ressoando na vida das pessoas, como um sino que não para de tocar.”

Fonte: O Globo