Por que seu corpo sente calafrios quando a temperatura está baixa?

  • Rosana Ribeiro
  • Publicado em 6 de julho de 2025 às 08:30
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A reação ajuda a manter o calor no corpo de animais muito peludos. Mas uma pesquisa sugere que ela pode desempenhar outras funções nos seres humanos

Os calafrios nada mais são do que contrações dos pequenos músculos nos folículos capilares da pele – foto Arquivo

 

Os calafrios nada mais são do que contrações dos pequenos músculos nos folículos capilares da pele, os chamados “músculos eretores do pelo”, que estimulam os fios de cabelo espalhados pelo corpo a ficarem em posição ereta.

Em espécies de plumagem grossa, como ursos, pinguins e raposas, acredita-se que essa reação sirva para manter o calor do indivíduo diante das baixas temperaturas.

No entanto, por mais que os seres humanos tenham evoluído de forma a apresentar relativamente poucos pelos no corpo, ainda somos capazes de sentir arrepios quando sentimos frio.

Por que isso continua acontecendo mesmo quando não detemos pelos suficientes para que esse fenômeno ajude a reter calor de fato?

Foi a partir dessa dúvida que uma equipe de pesquisadores decidiu testar, por meio de amostras de pele de camundongos, quais outras funções o arrepio pode desempenhar. Os resultados identificados foram publicados em 2020 como um artigo científico dentro da revista Cell.

Experimentos com camundongos

Para conduzir os seus experimentos, os especialistas partiram de descobertas anteriores, que identificaram um trio de tipos de células que trabalham juntas para criar a pele arrepiada. São eles: os músculos eretores do pelo, os nervos simpáticos e os folículos pilosos.

A equipe inicialmente utilizou medicamentos e modelos genéticos para remover os nervos simpáticos da pele. Em resposta, as células-tronco do folículo piloso demoraram a se ativar e a produção de novos fios foi retardada.

Outros experimentos mostraram que a remoção dos nervos simpáticos reduziu a concentração do neurotransmissor norepinefrina na pele.

Quando a equipe produziu camundongos com células-tronco do folículo piloso sem o receptor de norepinefrina, a ativação das células-tronco foi retardada, semelhante à que ocorreu quando os nervos simpáticos foram removidos.

Em seguida, os pesquisadores usaram microscopia eletrônica para gerar imagens de altíssima resolução dos folículos capilares.

Os nervos simpáticos não estavam apenas entrelaçados com os músculos, mas também interagiam com as células-tronco.

Imagens adicionais mostraram que as extremidades dos nervos e as células-tronco formavam sinapses, que permitiam a comunicação química entre as células.

Por fim, a equipe elucidou o papel das células musculares nos folículos. Eles usaram duas técnicas diferentes para destruir o músculo eretor do pelo na pele, deixando os nervos e as células-tronco intactos.

Sem as células musculares, as conexões entre os nervos e as células-tronco foram perdidas, e os camundongos apresentaram um atraso tanto na ativação das células-tronco quanto na produção de novos fios.

Implicações das observações

Com base em seus resultados, os pesquisadores propuseram que as células musculares formam uma ponte entre o nervo e as células-tronco no folículo piloso.

Dessa forma, os arrepios podem desempenhar dois papéis, fazer o cabelo crescer a curto prazo e desencadeiar mais crescimento capilar pelas células-tronco a longo prazo.

Para testar essa ideia, os pesquisadores compararam camundongos expostos a temperaturas ambientes frias e normais.

A exposição ao frio inicialmente causou arrepios, depois aumentou a atividade dos nervos simpáticos e a norepinefrina.

Os camundongos expostos ao ambiente gelado começaram a produzir novos fios de cabelo a partir de suas células-tronco em menos de duas semanas.

“Trata-se uma resposta de duas camadas. Os arrepios são uma maneira rápida de proporcionar algum tipo de alívio a curto prazo”.

“Mas, quando o frio persiste, isso se torna um bom mecanismo para as células-tronco saberem que talvez seja hora de regenerar uma nova camada de pelos” observa Yulia Shwartz, primeira autora do estudo, em comunicado.

Uma vez que as células do músculo eretor do pelo são frequentemente perdidas no couro cabeludo de pessoas com calvície comum, os investigadores sugerem que encontrar uma maneira de reativar os nervos simpáticos nos folículos capilares, apesar dessa perda, pode ser uma maneira de estimular o crescimento capilar.

A equipe também está interessada em estudar se essas interações podem desempenhar um papel em outros processos da pele, como na cicatrização de feridas.

Fonte: Galileu


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