O OLHAR DO ARTISTA

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Tive a visita de um ex-aluno , atualmente fotógrafo de primeiríssima qualidade, um grande artista e violonista autodidata com uma expressão, técnica, conhecimento e um poder de inventividade sem igual.

Veio fazer umas fotos da Sala Franz Liszt. Então, conversamos sobre a dificuldade das famílias entenderem os artistas e aqui vou pontuar algumas das dificuldades que estes seres celestiais enfrentam:

  • Música não dá dinheiro, fica perdendo tempo com isso... Sabemos que o fator sorte interfere muito nisso, pois quando um grande músico é visto por alguém de visão, logo ele está no ápice.
  • Não tem mais nada pra fazer do que ficar aí tocando? O cidadão ficou ali horas e horas e horas fazendo seus dedos se tornarem ágeis, descobrindo possibilidades, tentando se aprimorar, e as pessoas ao redor não conseguem enxergar isso.
  • Mas me diga pra que serve a música? O que vai fazer de prático com isso?  Aí , ou vi do meu querido ex-aluno o seguinte: - a música é meu bálsamo, ela que me dá condição de fazer todas as outras coisas que faço na vida, ela que me impulsiona, me apaixona, me dá vontade de viver, me torna mais criativo, me inspira, me desenvolve o cognitivo, me faz ser mais paciente, me torna observador, detalhista, me faz saber esperar, controla minha ansiedade, me dá know how para falar em público, preenche minha alma, me faz mais feliz e sendo mais feliz eu desempenho melhor qualquer função que tenha que desempenhar para meu sustento. A música me salva.

E como se não bastasse todo este arsenal de análises que fizemos numa tarde maravilhosa entre fotos e filosofias, ele diz que aprendeu algumas frases na vida: De Baden Powel por exemplo ele citou que “ o bom músico não é aquele tecnicista que toca com rapidez, mas aquele que sabe tocar uma pausa”. E falamos longamente sobre isso também.

Citou seus mestres e o que aprendeu com eles. Demonstrou gratidão à família que o ensinou muitas coisas na vida, citou frases de cada mestre e seus nomes. Como é difícil encontramos pessoas que sintam gratidão! Que tenham reconhecimento pelos ensinamentos que receberam na vida!

Num dado momento eu disse a ele: olha, tem momentos em que a gente não consegue conviver com pessoas que são dissonantes do que pensamos. Ele foi ao piano, fez um intervalo dissonante, para quem entende ele tocou duas notas juntas : do com do#  ou do com re bemol juntinhas. E depois separou-as e tocou com intervalo de nona, ou seja uma distância de nove notas entre uma e outra ( as mesmas notas, só que distanciadas) e soaram lindamente com outras notas compondo o acorde. E finalizou: juntas elas são dissonantes e feias, longe elas brilham cada uma com sua peculiaridade!

O que é um artista não é mesmo?

Uma conversa dessa vale por uma vida!

E continuou em seu olhar de fotógrafo que enxerga mínimos detalhes, pegou uma borracha com formato de tamanco e colocou-a em cima de um fá sustenido no piano. E fez aquela foto que jamais alguém que não tivesse a alma de artista conseguiria ter este olhar.

Falta à sociedade mais artistas, mais pessoas que se voltem a olhar e compreender o mundo e as pessoas. Menos acusativas e mais amorosas.

Falamos de contemplação e o quanto falta disso no mundo.

E falando sobre quem somos e as influências que recebemos na vida, ele me disse sobre o tamanho do Universo e que somos poeira e que isso é lindo.  Somos uma somatória de ‘ eus ‘, pois somos formados por todas as influências que recebemos do mundo e das pessoas, somos vários “eus” dentro de nós coletados a partir de outras pessoas, situações, fatos. E citou o professor da FACEF – Nilton, da área de Comunicação, propaganda e marketing que marcou a vida dele com esta análise.

Também disse do Prof. Clésio, também da FACEF que lhe ensinou que as pessoas são movidas ao benefício que recebem de determinado produto. Um tênis da marca X , para que serve ? Qual o diferencial deste tênis em relação ao outro , que benefícios ele te traz? Uma Ferrari, que benefícios te traz ? Um piano de cauda... e assim fomos analisando por que compramos determinadas coisas e o que elas nos trazem de benefícios que podem ser profissionais, emocionais, as mais variados.

Eu me emocionei tanto com tantas observações sobre a vida, fatos que ele contou sobre como ele é grato à sua avó e como a compreende com seus 80 anos de idade (e não tenta muda-la), que agradeci a Deus por ter no meu convívio uma pessoa de tamanha sensibilidade!

E falando de música, ele discorreu detalhadamente sobre os acordes que descobriu, como descobriu, as escalas que estudou, o que derivou disso, e aí ele suspirou e deu uma grande risada e disse: - descobri os porquês !!!  Assim como Beethoven, um inventor! Quando ele foi embora eu disse a ele : Obrigada pela tarde maravilhosa meu grande Beethoven! E ele riu... Fica minha homenagem a um artista jovem, que está entre nós, que merece reconhecimento tanto pelo seu exímio violão bem tocado como pela sua arte de fotografar!

IGOR DO VALE

LUDWIG VAN BEETHOVEN 

NOMEADA  POR ELE COMO

O íntimo do piano


Pesante em F#

IGOR DO VALE 


*Esta coluna é semanal e atualizada aos domingos.


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