Relatos nas redes mostram “atalhos” para conseguir emprego, mas especialistas alertam para riscos que vão de constrangimento à demissão
Mentiras no currículo viralizam nas redes, mas especialistas alertam: o risco pode custar a vaga — e até a carreira (Foto Freepik)
“Menti que tinha pós-graduação. Fui contratada e tive que começar uma que odeio.” “Disse que dominava Excel e aprendia escondido no banheiro.” “Coloquei no currículo que era pontual — e cheguei atrasada na entrevista.”
Relatos como esses, que antes seriam constrangedores, viraram entretenimento nas redes sociais. Vídeos com milhares de visualizações no TikTok mostram histórias enviadas por seguidores que misturam humor, improviso e risco no ambiente corporativo.
Em comum, a ideia de que uma “mentirinha” pode ser o empurrão necessário para conquistar uma vaga.
No perfil da influenciadora Taís Pitanga, por exemplo, vídeos incentivando esse tipo de comportamento viralizam com frases como: “Minta no currículo. Minta na entrevista”.
Já o criador Dennis Sloboda levanta a discussão com uma pergunta direta: “Você já foi contratado depois de mentir no currículo?”
Mentiras são comuns — e facilmente descobertas
Apesar do tom leve nas redes, os dados mostram outra realidade. Um levantamento da Robert Half aponta que 58% dos recrutadores já eliminaram candidatos por inconsistências no currículo logo nas primeiras etapas.
As distorções mais comuns incluem:
– Exagero em habilidades técnicas
– Experiência profissional inflada
– Inglês “avançado” que não se sustenta
– Motivos suavizados para demissões
– Resultados supervalorizados
Mesmo assim, o comportamento persiste. Enquanto 74% dizem nunca ter mentido, 15% admitem já ter “ajustado” o currículo.
O preço de sustentar uma versão
Para a headhunter Taís Targa, o problema raramente é uma mentira elaborada — e sim exageros que não se sustentam. “O candidato até acredita que sabe mais do que sabe. Mas isso aparece rápido em testes e entrevistas”, afirma.
E o impacto pode ir além de perder a vaga. “Quem mente pode ficar marcado. O mercado é pequeno, as pessoas conversam.”
Em casos mais graves, como falsificação de diplomas, o resultado pode ser demissão por justa causa.
Nem a IA salva quando falta experiência
Outro ponto de atenção é o uso de inteligência artificial nos processos seletivos.
Segundo a Robert Half, recrutadores já identificam sinais claros de uso inadequado da tecnologia, como:
– Respostas genéricas e “robóticas”
– Contradições entre fala e currículo
– Dificuldade de aprofundar experiências
– Linguagem artificialmente formal
Para especialistas, a IA pode ajudar a organizar ideias — mas não substitui vivência real.
Quando a mentira “dá certo” — mas nem sempre
Há casos em que a aposta funciona. A designer Giovanna de Meo, por exemplo, disse em entrevista que já estava se mudando para outra cidade — mesmo sem ter plano algum. Ela conseguiu a vaga, se mudou às pressas e construiu carreira.
Mas hoje faz um alerta: “Mais cedo ou mais tarde, você será testado naquilo.”
Entre o atalho e o risco
Especialistas reforçam que currículo não é peça publicitária. “Currículo bem feito não é currículo enfeitado. É um documento de credibilidade”, afirma Marcela Zaidem, CEO da CNP.
Ainda assim, processos seletivos superficiais — focados em palavras-chave — acabam incentivando distorções.
O problema é que as histórias que viralizam mostram apenas o lado que deu certo.
Na prática, o desfecho pode ser bem diferente: de promoção… ou de constrangimento.