Ainda manda ‘bom dia’ no WhatsApp? Veja o que isso revela sobre você!

  • Nina Ribeiro
  • Publicado em 18 de julho de 2025 às 12:00
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Prática comum em grupos de família e trabalho, o ‘bom dia’ com emojis e figurinhas revela afetos, estilo de comunicação e até choques entre gerações

O costume, que poderia passar despercebido, se transformou em símbolo de como diferentes faixas etárias se comunicam – foto Jornal da Franca

 

Mandar “bom dia” no WhatsApp pode parecer um gesto simples, mas carrega muitas camadas de significado.

Para uns, é afeto. Para outros, motivo de risada ou de incômodo. Mas a saudação, geralmente acompanhada de emojis ou figurinhas com frases religiosas, se tornou marca registrada de uma geração que descobriu nos aplicativos de mensagem uma forma de manter a presença e o carinho no cotidiano digital.

Por outro lado, também virou alvo de memes, reações exageradas nas redes sociais e até motivo para silenciar grupos inteiros.

O costume, que poderia passar despercebido, se transformou em símbolo de como diferentes faixas etárias se comunicam e, muitas vezes, colidem no ambiente online.

O envio de “bom dia” em grupos de WhatsApp é especialmente comum entre pessoas mais velhas. Pais, avós e tios, que adotaram os smartphones com mais intensidade nos últimos anos, enxergam nessa rotina uma maneira de demonstrar cuidado.

Em muitos casos, trata-se de um gesto repetido todos os dias, como quem prepara o café da manhã ou dá um beijo de despedida antes de sair de casa.

Portanto, o uso de imagens com mensagens motivacionais, flores ou referências religiosas também reforça esse vínculo emocional, ainda que nem sempre seja interpretado da mesma forma pelos destinatários.

1. O “bom dia” como linguagem afetiva

Nessas interações no WhatsApp, o que está em jogo não é apenas a informação de que a pessoa acordou, mas a intenção simbólica de mostrar que está presente.

Como defendia Aristóteles, “o ser humano é, por natureza, um animal social”. Dessa forma, a saudação se torna uma ferramenta de conexão emocional em grupos familiares e de trabalho, onde o silêncio pode ser interpretado como ausência ou desinteresse.

A experiência revela como o gesto, mesmo limitado tecnicamente, carrega uma carga de afeto e estabelece uma linguagem própria entre gerações. Trata-se de uma comunicação que, apesar da simplicidade, cumpre o papel de manter o vínculo vivo.

2. O tempo e o cotidiano como estrutura

A repetição dessas mensagens segue uma lógica que pode ser explicada a partir do pensamento de Michel de Montaigne. Para o filósofo francês, o hábito é uma segunda natureza.

O “bom dia” enviado sempre no mesmo horário se transforma em um marcador de rotina. Ele organiza o início do dia, funciona como um ponto de partida emocional e ajuda a estruturar o cotidiano de quem o envia.

Esse comportamento, comum entre pessoas mais velhas, oferece segurança e familiaridade, especialmente em contextos de isolamento ou pouca interação presencial.

Nas trocas virtuais, esse tipo de gesto recorrente pode ser tão significativo quanto um café preparado todas as manhãs para a família.

A diferença é que, na era digital, o afeto ganha a forma de uma figurinha, de uma imagem com flores ou de uma oração compartilhada com frequência.

Essa prática, muitas vezes invisível, revela como pequenas ações digitais podem dar forma à experiência diária de milhões de pessoas.

3. A associação com o “usuário idoso”

A estética do “bom dia” também ajuda a explicar por que essa prática se tornou um marcador geracional.

Gifs com glitter, mensagens religiosas, fotos de jardins e frases como “Tenha uma quarta-feira abençoada” compõem um repertório visual que remete ao passado.

São códigos que fazem sentido para quem foi alfabetizado visualmente antes da cultura dos memes. Por isso, é comum que jovens e adolescentes interpretem esse gesto como algo ultrapassado ou digno de piada.

A estética do “bom dia” virou meme, mas continua ativa, reafirmando que cada geração constrói sua própria linguagem dentro das plataformas.

4. Gatilho de conflito ou silêncio digital

Se para uns o “bom dia” é demonstração de afeto, para outros ele é interpretado como ruído. Usuários mais jovens, acostumados com a objetividade e agilidade das trocas digitais, muitas vezes se irritam com saudações que não se desdobram em conversa.

Esse tipo de impaciência evidencia uma mudança no entendimento da comunicação digital. O WhatsApp, que começou como um espaço de sociabilidade informal, passou a concentrar tarefas, demandas e conversas rápidas.

Em meio a tantas notificações, o excesso de saudações repetitivas pode se tornar um motivo legítimo para silenciar grupos. O gesto de silenciar, por sua vez, funciona como uma reação silenciosa a uma presença constante demais.

5. Outras expressões e hábitos que envelheceram

Além do “bom dia”, outras práticas digitais passaram a ser associadas a usuários mais velhos. Figurinhas com flores, vídeos com orações e mensagens motivacionais em imagens ainda são comuns, mas já foram ressignificadas por uma nova geração como algo datado.

Até expressões como “rsrs” ou o uso do emoji de joinha passaram a ter outros sentidos, às vezes mais formais, outras vezes interpretados como falta de intimidade.

6. O paradoxo da conexão

Como já apontava a socióloga Sherry Turkle em seu livro Alone Together, vivemos conectados o tempo todo, mas ainda lidamos com a solidão e a superficialidade nas relações.

O “bom dia”, mesmo em sua forma mais simples, pode ser o único contato que alguém recebe durante o dia. Uma entrevista recente na TV reforça essa percepção.

A frase poderia soar como piada, mas revela uma verdade emocional profunda. Para muitos, o mínimo de contato virtual pode representar estabilidade emocional e pertencimento.

No meio digital, onde tudo é descartável e passageiro, o gesto repetido de dizer “bom dia” todos os dias ganha uma força simbólica. É uma forma de interromper a lógica da pressa e reafirmar que, apesar de tudo, ainda estamos aqui.

7. Conclusão: o valor do gesto que persiste

Essa realidade desafia a lógica da pressa que rege a comunicação contemporânea. Como alertava Zygmunt Bauman, “vivemos tempos marcados por vínculos frágeis, relações imediatistas e afetos voláteis”.

A conectividade constante, que nos promete aproximação, muitas vezes se traduz em isolamento emocional.

Nesse cenário de laços líquidos e interações superficiais, o simples ato de enviar um “bom dia” pode parecer anacrônico, mas carrega uma força simbólica rara.

Ao repetir esse gesto todos os dias, principalmente em grupos familiares, muitos usuários reafirmam sua presença no coletivo.

Mais do que uma saudação, o “bom dia” é um código de convivência, e talvez, uma das últimas formas cotidianas de resistência ao colapso da atenção e da empatia nas interações digitais.

Fonte: TechTudo