A Teoria de Resposta ao Item (TRI) é o modelo matemático usado para a correção das provas objetivas e a consequente pontuação do estudante
A Teoria de Resposta ao Item (TRI) é o modelo matemático usado para a correção das provas objetivas e a consequente pontuação do estudante (Foto Arquivo)
O Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2025 acontece em 9 e 16 de novembro. O candidato ansioso vai chegar em casa e correr para conferir as questões de múltipla escolha com base no gabarito extraoficial.
Descobrirá, então, seu número de acertos. O resultado pode agradar ou decepcionar, mas, por si só, não diz tudo.
Isso se dá por causa da TRI (Teoria de Resposta ao Item), metodologia de correção utilizada pelo Enem. Ela não considera somente a quantidade bruta de acertos, mas também quais itens o aluno acertou.
Cada item (questão) é classificado de acordo com alguns parâmetros, que serão determinantes para a pontuação final do candidato e as notas máximas e mínimas de cada área do conhecimento cobrada.
O que é TRI e como funciona?
A Teoria de Resposta ao Item (TRI) é o modelo matemático usado para a correção das provas objetivas e a consequente pontuação do estudante.
Ela analisa o padrão de respostas do candidato em relação ao conjunto de questões que formam o exame, e prioriza o desempenho que for mais coerente.
O Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), que organiza e aplica o Enem, detalha esse processo no guia “Entenda sua nota”, divulgado em 2021.
O documento define a TRI da seguinte forma:“A TRI é um conjunto de modelos matemáticos que busca representar a relação entre a probabilidade de o participante responder corretamente a uma questão, seu conhecimento na área em que está sendo avaliado e as características (parâmetros) dos itens”.
“Um aspecto importante da TRI é que ela considera a particularidade de cada item. Assim, as notas não dependem do total de itens da prova, mas de cada item que a compõe.”
A TRI qualifica o item (questão) de acordo com três parâmetros:
Grau de dificuldade: Se a questão é fácil, média ou difícil;
Discriminação: Capacidade de cada questão de diferenciar candidatos que dominam a habilidade requisitada daqueles que não dominam;
Acerto ao acaso (chute): Probabilidade de o candidato acertar uma questão no chute com facilidade, sem dominar a habilidade exigida.
“A natureza específica de cada questão deve ser considerada na metodologia de cálculo, de tal forma que se possa diferenciar alunos com a mesma quantidade de acertos”.
“Por exemplo, certas questões são acertadas consistentemente apenas por participantes com elevada habilidade, enquanto outras são frequentemente acertadas pela maioria”, afirma o Inep.
E como as questões são qualificadas? O grau de dificuldade é medido a partir de pré-testes realizados com alunos do Ensino Médio.
Os exercícios então são posicionados em uma escala, uma régua que vai medir os valores dos parâmetros de milhares de questões. Isso dá origem a um banco de itens, do qual são extraídas 180 questões a cada edição do exame.
Notas diferentes para igual número de acertos?
Essa é uma dúvida comum entre os candidatos, e é verdade: a TRI é o motivo pelo qual duas pessoas com acertos iguais tiram notas diferentes. Ou ainda, porque uma pessoa que acertou algumas questões a menos que outra pode acabar tirando uma nota maior.
Parece contraintuitivo, mas imagine o cenário hipotético: duas amigas comparam o número de acertos no Enem. Ana, inicialmente contente com seu resultado, percebe que Maria acertou algumas questões a mais que ela.
Preocupada, teme não conseguir uma vaga na mesma universidade que a amiga, um sonho delas. Quando as notas finais saem, porém, Ana se surpreende: tirou nota maior que Maria, mesmo com menos acertos, e ainda está no páreo.
Explicando a TRI
A explicação está na TRI: Considere as 45 questões da prova de matemática. Maria errou várias questões fáceis e médias, acertando 10 difíceis ao acaso (ou seja, no “chutômetro”). Ana, por outro lado, pode ter acertado menos itens no total, mas garantiu 30 acertos entre fáceis e médias, e só chutou/errou as difíceis.
Como a TRI valoriza a coerência no padrão de respostas, Ana demonstrou proficiência nos assuntos abordados, conquistando maior nota que Maria, que foi “penalizada” pelos chutes.
“Espera-se que participantes que acertaram as questões difíceis devam também acertar as questões fáceis, pois, entende-se que a aquisição do conhecimento ocorre de forma cumulativa, de modo que habilidades mais complexas requerem o domínio de habilidades mais simples”, justifica o Inep.
Cursinhos e outras instituições de ensino já simularam que a diferença na nota final, nas circunstâncias acima, pode chegar a 100-150 pontos. Quanto mais concorrido o curso e universidade pretendidos pelo candidato, mais valiosos são esses pontos.
A TRI é confiável?
Nos primeiros anos do exame, a metodologia chegou a ter sua eficiência questionada. O Ministério da Educação e o Inep ressaltam que a TRI, na verdade, assegura a igualdade de condições dos concorrentes e permite a elaboração de provas com o mesmo grau de dificuldade.
No Brasil, a TRI é usada desde 1995 nas provas do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica (Saeb). Em resumo, sua adoção pelo Enem visa:
– Garantir a comparação entre notas de diferentes edições, ao assegurar equivalência;
– Evitar distorções causadas por acertos aleatórios (chutes);
– Medir proficiência, ao avaliar a habilidade real do candidato em vez de apenas acertos;
– Detalhar melhor as notas, evitando grande número de empates.
Como cada área de conhecimento possui sua própria escala pedagógica, as notas não são comparáveis. Por isso, você pode acertar mais questões na prova de Ciências Humanas do que em Matemática, mas conquistar nota maior na segunda.
Vale destacar, ainda, que o cálculo das notas pela TRI é feito por equipes independentes formadas por especialistas em estatística, matemática e psicometria, com auxílio de computadores. Múltiplas conferências asseguram a confiabilidade dos resultados.