Marinheiro desempregado vende queijo na rua e muda vida da família na crise

  • Rosana Ribeiro
  • Publicado em 1 de novembro de 2020 às 23:44
  • Modificado em 11 de janeiro de 2021 às 07:10
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Depois de conhecer 20 países a bordo de navios, Fernando teve que ir às ruas vender queijos para sobreviver

A pandemia provocou uma reviravolta positiva na família do marinheiro Fernando Augusto Marques, que tem 25 anos e mora em São José dos Campos, no interior de São Paulo. 

Depois de perder o emprego, ele se descobriu como empreendedor, em plena crise.

Depois de conhecer mais de 20 países e de trabalhar vendendo joias em um shopping a bordo, em fevereiro, Fernando teve que ir para as ruas revender queijos de porta em porta pra conseguir sobreviver porque parte da família estava desempregada.

“As vezes tinha vergonha… talvez de um parente ou amigo me ver vendendo nos pontos de ônibus e lugares. Porém eu tinha uma família pra ajudar e meus sonhos pra conquistar”, disse Fernando Augusto Marques.

Ele contou que fechou acordos com produtores de Minas Gerais e foi à luta: “Comprei mais uma caixa térmica, colocava os queijos dentro e saía para panfletar e oferecer em clínicas, lojas. Batia nas casas para oferecer e aos poucos fui conquistando o carinho e confiança das pessoas”.

E o esforço deu certo. O negócio cresceu e hoje, 7 meses depois, a família toda vive do comércio de queijos em São José dos Campos.

Desempregados​

No começo foi difícil. Por causa da Covid-19, Fernando foi dispensado do navio onde trabalhava. 

A mãe dele, Silvana de Fátima Oliveira Marques, de 53 anos, fazia supervisão de limpeza em um hospital e também perdeu o serviço. 

E a irmã de Fernando, Fabíola, teve que deixar o emprego para cuidar do filho pequeno.

No meio do caos e do medo da doença Fernando, o filho caçula, arregaçou as mangas e voltou a vender queijos na rua, um bico que a família fez entre 2013 e 2015 e havia parado.

“Em 2013 pegávamos de produtores direto de Minas. Vendíamos os tradicionais, nozinho, frescal e meia cura… hoje tenho mais de 30 variedades de queijos, como provolone, parmesão, sem lactose, sem glúten… doces diversos e gourmet, sucos, petiscos…”

Eles ainda vendem de porta em porta, mas com “planejamento já programados de clínicas, lojas, condomínios e entregas avulsas”.

Empreendedorismo​

Fernando contou que começou investindo R$ 700 reais para aumentar o negócio.

“Precisamos comprar um freezer, mais caixas, carrinhos para conduzir, máquina de cartão, panfletos e fizemos uma página no Instagram @jeitinhomineirooo”.

E nada de gastar. Ele usava o dinheiro do lucro para reinvestir no negócio.

“E não gastava o que era lucro. Investia pra comprar mais e mais. Fiz um caixa só pra isso. Sempre assisti muito programa de empresas pra aprender, tipo Shark Tank e passei isso pra minha família”, revelou.

Assim, o negócio foi crescendo mês a mês.

“No início investíamos, por exemplo, 500 reais por semana comprando queijos pra revender. Hoje investimos de 4 a 5 mil por semana”, contou.

Conhecer o mundo​

Fernando trabalha desde cedo. “Comecei com 9 anos de idade vendendo salgados, trufas e frutas na rua para ajudar em casa.. e com o dinheiro fui pagando também um curso de inglês”, disse.

Em 2018, quando trabalhava como vendedor em uma loja de óculos de sol, dentro de um shopping em São José dos Campos, ele foi encorajado por clientes a tentar a oportunidade de trabalhar num navio.

Deu certo. Ele trancou a faculdade de Administração e foi conhecer o mundo, enquanto vendia a bordo produtos de alto valor como joias, diamantes e relógios.

“O meu primeiro embarque foi na França. Já tive a oportunidade de conhecer várias ilhas paradisíacas que nunca imaginei e mais de 20 países, como Grécia, Itália, Inglaterra e outros”.

Aos poucos, além do inglês, ele aprendeu a falar italiano, francês e espanhol, para atender melhor aos turistas.

Em fevereiro deste ano o contrato dele foi encerrado por causa da pandemia e sem encontrar emprego, Fernando foi vender queijos na rua, junto com a irmã, Fabíola.

Ele também ensinou a ela como tocar o negócio porque sabia que mais cedo ou mais tarde seria chamado pra voltar a trabalhar no navio.

Retorno a bordo​

Foi o que aconteceu. Ele voltou a trabalhar no último dia 16 no shopping do navio e deu entrevista falando nas proximidades da Grécia.

De lá ele acompanha o crescimento do negócio da família, que pretende abrir no ano que vem a primeira loja física deles para a venda dos queijos.

“Hoje fico superfeliz de ver que minha família ter algo próprio, que ajuda a manter nossa casa… E mais uma coisa, com o dinheiro das vendas dos queijos, estamos dando inicio a reforma da casa da minha mãe… meu sonho é dar essa casa pra ela arrumada. E estamos começando a viver isso”, comemorou.

Vergonha?​

E pra quem tem vergonha de fazer alguma espécie de trabalho honesto, Fernando disse que aprendeu uma coisa naqueles dias difíceis:

“Não se renda ao vitimismo, ao medo, à vergonha. Nunca desista dos seus sonhos e corra atrás deles. Todos podem conseguir isso”, encorajou.

*Informações Só Notícia Boa