Luto persistente afeta a saúde mental e eleva o risco de mortalidade

  • Rosana Ribeiro
  • Publicado em 19 de novembro de 2025 às 21:00
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Sintomas intensos e duradouros de luto podem gerar adoecimento, maior uso de serviços de saúde e durar anos se não for tratado

Os pesquisadores sugerem que o impacto do luto persistente na saúde pode estar ligado a mecanismos biológicos, como o estresse crônico e a inflamação (Foto Freepik)

 

A morte de alguém amado desmonta qualquer um — e, em muitos casos, com o tempo, a dor vai se acomodando.

Mas para uma parte das pessoas, isso não acontece. O sofrimento continua pesado, constante, e acaba se transformando também em um problema de saúde.

Um estudo dinamarquês acompanhou 1.735 familiares enlutados ao longo de dez anos e descobriu que quem apresenta sintomas intensos e persistentes de luto tem risco maior de adoecer e até de morrer até uma década após a perda. A pesquisa saiu no fim de outubro na Frontiers in Public Health.

Cinco trajetórias de luto — e uma delas preocupa mais

Os pesquisadores avaliaram os participantes antes da perda, depois de seis meses e novamente após três anos. A partir desse acompanhamento, identificaram cinco perfis de luto.

O mais crítico, chamado de “trajetória de alto luto”, reuniu 6% das pessoas — um grupo pequeno, mas extremamente vulnerável pela intensidade e persistência do sofrimento.

Os sintomas desse grupo incluíam tristeza profunda, dificuldade em aceitar a morte e sensação constante de vazio.

Já os familiares com “baixo luto” apresentaram reações mais leves e estáveis, sendo usados como referência.

Sofrimento prolongado mexe com o corpo e a mente

Os impactos não ficaram só na parte emocional. O estudo analisou quatro indicadores: consultas na atenção primária, uso de serviços de saúde mental, consumo de medicamentos psicotrópicos e mortalidade. Quanto maior o sofrimento, pior o resultado.

Segundo o psiquiatra Elton Kanomata, do Hospital Israelita Albert Einstein, quadros de luto intenso e prolongado podem abrir caminho para depressão, ansiedade e mudanças de estilo de vida — como sedentarismo, piora do sono, aumento do álcool e tabaco e baixa adesão a tratamentos.

Ele lembra que o transtorno de luto prolongado está oficialmente descrito no DSM-5, com sintomas emocionais e comportamentais que ultrapassam o esperado e exigem acompanhamento profissional.

Luto persistente aumenta buscas por atendimento — e até o risco de morte

Os familiares que se encaixaram na trajetória de alto luto tiveram 17% mais consultas anuais com clínicos gerais, maior uso de antidepressivos e ansiolíticos e mais demanda por psicoterapia e psiquiatria.

A mortalidade também chamou atenção: cerca de 11% dos participantes morreram entre três e dez anos após a perda, e o maior risco estava justamente no grupo de alto luto.

“Pessoas com transtornos mentais usam mais o sistema de saúde porque têm maior risco de adoecimento físico e menor expectativa de vida. É um ciclo que precisa ser interrompido”, reforça Kanomata.

Estresse crônico, inflamação e outros gatilhos

Parte desses efeitos pode estar ligada ao estresse crônico, que altera o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal — responsável por regular nossas respostas ao estresse.

Quando esse sistema fica sobrecarregado, o corpo mantém altos níveis de cortisol, gerando inflamação e aumentando riscos cardiovasculares e imunológicos.

A pesquisa também observou que alguns familiares já usavam mais serviços de saúde antes da perda, indicando uma vulnerabilidade prévia. Situações como a falta de rituais de despedida — algo comum na pandemia — também podem intensificar o luto.

A importância de agir cedo e com apoio contínuo

Para os autores do estudo, identificar esses sinais antes que o luto se torne crônico é essencial. Equipes que acompanham pacientes com doenças graves, por exemplo, deveriam avaliar o sofrimento dos familiares ainda durante o processo.

Nos casos em que o luto se transforma em condição persistente, o cuidado precisa ser contínuo e integrado.

Medicamentos podem ajudar, mas a resposta não é imediata. A psicoterapia, muitas vezes, é o ponto central — e em alguns casos, a primeira escolha.

Fonte: CNN


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