FRANCA, 196 anos de História. O que podemos pensar para o futuro?

  • Rosana Ribeiro
  • Publicado em 28 de novembro de 2020 às 00:44
  • Modificado em 11 de janeiro de 2021 às 09:47
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Franca comemora neste sábado, 28 de novembro, 196 anos de sua emancipação política

O servidor Wanderlei Donizete Pereira, graduado em História (UNESP – Franca, integrante da equipe do Museu Histórico ‘Capitão Hipólito Antônio Pinheiro’, oferece sua contribuição neste 28 de novembro, em que Franca completa 196 anos de emancipação política. 

Ele fez uma reflexão de seus aspectos históricos e sua trajetória de desenvolvimento, material que vale a pena ser lido, servindo de referência para que pretende se aprofundar um pouco mais sobre as origens do município.

Wanderlei possui Especialização em Gestão Pública Municipal (UNIRIO), sendo também Mestre em Planejamento e Análise de Políticas Públicas (UNESP – Franca). 

O servidor Wanderlei Donizete Pereira e seus estudos sobre Franca

A seguir o texto de sua autoria, tratando da Franca desde seus os idos de Arraial:

“Neste dia 28 de novembro de 2020 Franca chega aos seus 196 anos.  

Muito embora o surgimento do arraial tenha ocorrido em 1805, foi somente em 1824, graças ao empenho do Capitão Hipólito Antônio Pinheiro, fazendeiro de grande influência na região, junto as lideranças provinciais, que a cidade conquistou sua autonomia político-administrativa, desligando-se de Mogi-Mirim, despontando como a pujante “Franca do Imperador”. 

Denominação que prevaleceria até 1889, quando, com o advento da república, teve seu nome simplificado para Franca.

Ao realizarmos uma breve análise referente aos aspectos, econômico e desenvolvimento urbano do município, verificamos que Franca ao longo desses quase dois séculos foi se adaptando às novas realidades e necessidades originárias das transformações e rupturas decorrentes tanto no contexto nacional, quanto internacional, como as duas guerras mundiais, regimes ditatoriais, crises econômicas e por fim, as grandes mudanças tecnológicas.

Da pecuária e pequenas lavouras predominantes nas primeiras décadas do século XIX, perpassando pela exploração diamantária e pelo comércio do sal trazido em carros de bois de Campinas e distribuídos para Goiás e o Triângulo Mineiro, foi na cafeicultura que Franca encontraria seu principal pilar de desenvolvimento econômico a partir dos anos 1850. 

Cafeicultura que seria responsável pela vinda dos trilhos da Mogiana em 1887, a qual, embora tivesse como objetivo principal o escoamento da produção cafeeira local gerando divisas para o município, tornou-se símbolo da transformação urbana a ser vivenciada pela cidade nas décadas seguintes.

Foi por meio de seus vagões que ferragens, cimento, telhas, tijolos, pisos cerâmicos e uma gama de outros produtos até então inacessíveis à nossa população, passaram a fazer parte do cotidiano local, possibilitando a inserção de novas técnicas de construção civil, modificando radicalmente a paisagem marcada pela presença das casas de pau a pique, pelo surgimento dos grandes casarões particulares e de algumas construções que permanecem ainda hoje na paisagem urbana local, como a Catedral de Nossa Senhora da Conceição, Colégio Champagnat, antigo Colégio Nossa Senhora de Lourdes, entre outros. 

Já no século XX, se a crise de 1929, ocasionada pela quebra da Bolsa de Nova Iorque afetaria consideravelmente a cultura cafeeira local, assim como ocorreu no âmbito nacional, a mesma contribuiu para que a economia francana encontrasse no ramo produtivo calçadista, uma nova perspectiva de desenvolvimento, minimizando as perdas sofridas com o declínio da cafeicultura.

O conhecimento utilizado na fabricação de materiais rústicos derivados do couro, como selas, equipamentos para os carros de bois e os tradicionais botinões usados por boiadeiros e agricultores foi aperfeiçoado com a chegada dos imigrantes europeus, sobretudo italianos e espanhóis, dos quais, muito embora a maioria tenha vindo para o trabalho na agricultura, muitos deles optaram pela atuação nesse ramo, que juntamente com outros grandes empreendedores do setor, foram pioneiros no surgimento de grandes indústrias, como Samello, Spessoto, Peixe, Agabê, Sândalo, Amazonas (na área de componentes), entre outras, levando Franca ao título de “Capital do Calçado”. 

Todas estas, sucessoras da “Calçados Jaguar”, de Carlos Pacheco de Macedo, que, embora tendo vida curta, caracterizou-se pelo pioneirismo de implementar a primeira indústria de calçados mecanizada de Franca, em 1921.

Escritório da Calçados Jaguar - foto G1

Prédio do curtume Spessoto

A partir do final da década de 1990 e início dos anos 2000, a economia francana passou por um novo rearranjo. 

Em razão das constantes crises econômicas internacionais que prejudicaram consideravelmente as exportações e o próprio mercado interno, o fechamento ou reestruturação da maioria das grandes indústrias que encabeçavam o domínio do setor, tanto em produção, quanto na geração de empregos, foi dando espaço para um novo cenário, marcado pela presença de pequenas e médias empresas que se colocaram como protagonistas do setor. 

Por outro lado, o setor de serviços até então incipiente, encontrou seu espaço, tornando-se o principal gerador de empregos e de riquezas do município, absorvendo inclusive, grande parte da mão de obra que não conseguiu se realocar no setor calçadista local. 

Em 2017 (último registro disponível), o Produto Interno Bruto de Franca medido pelo IBGE, foi de aproximadamente 9,5 bilhões de reais. 

Analisando somente os itens serviços, indústria e agropecuária, desse montante, o setor de serviços foi responsável pela geração de 5,6 bilhões de reais. 

A indústria gerou cerca de 1,6 bilhão de reais e a agropecuária, em torno de 49,5 milhões de reais. 

Nesse momento atual de grave crise econômica mundial, decorrente da recessão iniciada em 2016 e agravada em razão da pandemia do Novo Coronavírus, percebemos que a economia francana, assim como a história tem nos mostrado, vem conseguindo se rearranjar, utilizando-se de novas tecnologias e modelos de logística e vendas. 

Aspectos Urbanos​

De acordo com o censo de 1824, ano de sua emancipação político-administrativa, a população de Franca era de 5.827 habitantes. 196 anos depois, de acordo com o IBGE, a população estimada é de 355.901 pessoas.

Contudo, embora acostumados a analisar o contexto histórico local direcionado como ao passado, percebemos que é extremamente necessário projetar a cidade para as próximas décadas. 

O que as gerações passadas construíram até aqui foi extremamente importante para que tivéssemos uma cidade bem estruturada sob vários aspectos, sendo referência em saneamento básico, educação, desde o ensino básico ao ensino superior, graças aos equipamentos que garantem esta excelência, bem como na área da saúde, a qual, embora apresente sérios problemas, ainda se encontra em um nível razoável, em relação à grande parte das cidades brasileiras.

No entanto, a cidade continuará crescendo e a estrutura urbana precisará ser constantemente avaliada e ampliada proporcionalmente ao crescimento da sua população.

Saneamento Básico​

No que se refere às questões referentes ao saneamento básico de Franca, a história nos mostra que a cidade sempre se caracterizou como pioneira em busca de se adaptar às necessidades reivindicadas pela sua população. 

Do abastecimento de água por meio de cisternas e o lançamento de esgotos, águas servidas e lixo a céu aberto que permaneceram até o início do século XX, após inúmeras tentativas frustradas ou de pouco alcance do atendimento da população.

Em 1939, Franca passou a contar com um dos melhores sistemas de captação e distribuição de água e coleta de esgoto do Estado de São Paulo, localizados respectivamente, no atual bairro de MIramontes e Dr. Ismael Alonso Y Alonso, próxima ao Jardim Consolação.

Quatro décadas depois, nos anos 1970, a vinda da Sabesp proporcionaria a colocação de Franca na vanguarda em relação ao tratamento de esgotos e captação de água, permanecendo por muito anos na primeira colocação, se situando ainda em posição de destaque neste quesito. 

Contudo, é preciso manter um planejamento que garanta a ampliação desses serviços para as próximas décadas. 

Sabe-se que o novo sistema de captação no rio Sapucaí se encontra em fase avançada de construção. 

Porém é necessário também que se invista na reestruturação da rede de canalização, substituindo a malha antiga por novas redes, evitando o desperdício e garantindo o abastecimento.

De acordo com o Instituto Trata Brasil, de cada 100 litros de água tratada no país, 38,5 litros são desperdiçados em algum momento do processo.  

É necessário, portanto, investir na diminuição dessas perdas, além da proteção aos mananciais, propiciando assim, a conservação dos mesmos, garantindo água tratada para as próximas gerações que virão.

Além disso, questões ambientais, como a colocação em prática do Plano Municipal de Gerenciamento de Resíduos Sólidos Urbanos do Município, aprovado em 2013 é de extrema importância para que se possa oferecer condições para que Franca se torne uma cidade melhor, dando destinação correta aos resíduos produzidos por uma população em constante crescimento, seja por meio de reciclagem, reuso e aterros de qualidade para os resíduos orgânicos.

Transporte, malha viária​

Em 1977, conforme pesquisa nos jornais da época, a frota de veículos de Franca era de 16.352 veículos. Em 1984, chegava a 25 mil. Em 2018, incluindo as motos, esse número chegou a 272 mil e 440 veículos. 

Números que tendem a crescer nas próximas décadas e exigirão projetos arrojados e inteligentes para que se possa evitar o colapso no sistema de mobilidade urbana local. 

O investimento na melhoria da qualidade do transporte coletivo, e em ciclovias e calçadas seguras pode ser uma solução eficiente e de custo relativamente baixo a curto e médio prazo, no sentido de diminuir o fluxo de veículos nas ruas. 

As grandes cidades do mundo têm estimulado o uso de bicicletas como meio eficiente e limpo de transporte. Franca necessita urgentemente de projetos na área.

Expansão urbana​

No que se refere ao modelo de crescimento urbano adotado por Franca, até o início dos anos 2000, a cidade cresceu quase que somente no sentido horizontal. 

Tal modelo de crescimento já se aproxima dos limites estabelecidos pelo Plano Diretor Municipal, o que tem levado a uma mudança significativa nessa forma de crescimento.

Atualmente vemos uma verticalização acentuada da cidade, com grandes torres especificamente nas regiões mais próximas do centro, e de pequenos prédios de quatro a seis apartamentos nos bairros periféricos. 

São formas encontradas para se manter o crescimento, diminuindo a ocupação de novas áreas de terras. 

Ademais, a possibilidade de criação de lotes de tamanhos menores de 200 metros também tem segurado a expansão geográfica urbana nos moldes anteriores e, assim como no caso dos prédios de poucos apartamentos, se traduzem em construções de valores menores, facilitando o acesso pela população de menor renda. 

Esta tendência é algo que deve prevalecer pelas próximas décadas, fazendo com que a cidade trace o caminho já percorrido por outras cidades, como Ribeirão Preto, que seguiu este modelo de verticalização há várias décadas.

Preservação do patrimônio Histórico​

Franca conta atualmente com cerca de 80 patrimônios tombados, entre públicos, privados e imateriais. 

Entre eles, o Relógio do Sol, Colégio Champagnat, antigo Colégio Nossa Senhora de Lourdes, prédio das Lojas Xavier, entre outros. 

Contudo, muitos prédios de valor arquitetônico incalculável se perderam ao longo da sua história, como o Hotel Francano, onde se encontra a agência central do Banco Itaú, e o “Sobrado Verde”, pertencente a Benjamin Steimberg, que deu lugar ao edifício Franca do Imperador, no centro, entre outros.

Infelizmente, na nossa visão, muitos desses prédios tombados pelo Comdephat (Conselho Municipal de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico e Turístico) local, sejam eles públicos ou privados, se encontram em condições inadequadas de conservação. 

Não adianta somente realizar o tombamento se não houver mecanismos de incentivo à conservação dos mesmos. 

A redução ou isenção de IPTU a quem proporcionar tais melhorias pode ser um caminho interessante no caso das propriedades particulares. 

Em se tratando dos próprios públicos a inserção de reservas de verbas orçamentarias para a manutenção desses bens na LDO do município, bem como a elaboração de projetos de captação de recursos junto aos órgãos estaduais e federais podem ser alternativas interessantes para a garantia da conservação desses espaços.

Além disso, a elaboração de um Plano de Gestão Municipal do Patrimônio Histórico e Cultural e a atualização das leis do Comdephat, cuja legislação atual o caracteriza apenas como um órgão consultivo, cuja decisão final em tombar ou não está nas mãos do poder executivo, ainda engessa muito a possibilidade de tombamento de muitos prédios que também possuem potencial para serem preservados.

Estrutura de equipamentos​

Franca possui condições geográficas e estruturais bastante privilegiadas. Malha viária que liga a cidade às principais cidades do país. 

Contudo o investimento no transporte aéreo, buscando voos regulares para os principais destinos do país ainda é um gargalo a ser eliminado. 

Questões como ampliação de projetos que garantam acessibilidade a pessoas com necessidades especiais e idosos, recapeamento de ruas, ampliação de equipamentos de saúde e contratação de profissionais da área, bem como a valorização de profissionais da educação no sentido de garantir a melhoria nessas áreas, além do que já expomos até aqui, com certeza permitirá que a Franca de amanhã continue a ser uma das melhores cidades do país sendo orgulho pra todos que aqui nasceram ou que a escolheram como local pra se viver. 

Franca possui bons equipamentos de cultura e educação, como Escolas Públicas de qualidade, Universidades, Bibliotecas, Museus, Arquivo, Centro de Esportes, Ginásios e estádio municipal. 

Garantir a manutenção e conservação desses instrumentos e seu acesso à população, com certeza será também um fator de grande importância no sentido de se manter Franca como excelência na área educacional, além de manter vivas sua história para as futuras gerações.