Vírus do resfriado se “esconde” nas amígdalas mesmo sem sintomas

  • Rosana Ribeiro
  • Publicado em 23 de fevereiro de 2026 às 19:30
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Estudo foi conduzido com amostras de 293 crianças que passaram por cirurgia para a retirada desses tecidos

Pesquisa da USP aponta que vírus do resfriado pode permanecer em amígdalas e adenoides sem sintomas e favorecer transmissão silenciosa, especialmente entre crianças (Foto Arquivo)

 

Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) revelou que tecidos como amígdalas e adenoides podem funcionar como “esconderijo” para o rinovírus, principal causador do resfriado comum e responsável pela maioria das infecções respiratórias no mundo.

Segundo a pesquisa, o vírus consegue infectar células de defesa do organismo e permanecer nelas por longos períodos sem provocar sintomas, o que pode favorecer a transmissão silenciosa para outras pessoas.

Crianças podem espalhar o vírus sem sintomas

De acordo com o rinovirologista Eurico de Arruda Neto, professor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP e coordenador do estudo, o fenômeno ajuda a explicar surtos frequentes em ambientes escolares.

“O vírus tem um encontro marcado com a população infantil. Algumas crianças podem carregar o vírus na garganta sem sintomas e iniciar surtos nas escolas, especialmente após o início das aulas”, explica o pesquisador.

Antes, já se sabia que o rinovírus infecta a superfície do nariz e da garganta e costuma ser eliminado pelo sistema imunológico em até sete dias.

A novidade do trabalho foi demonstrar que ele também pode atingir camadas mais profundas desses tecidos e permanecer em células de defesa por mais tempo.

Presença detectada em quase metade das crianças

A pesquisa analisou amostras de crianças que passaram por cirurgia de amígdalas e adenoides. Mesmo sem sintomas no momento da operação, o rinovírus foi detectado em grande parte dos participantes.

Dados publicados no Journal of Medical Virology indicam que o vírus estava presente em pelo menos um dos locais analisados — amígdala, adenoide ou secreção nasal — em 46% dos voluntários.

Os pesquisadores também identificaram sinais de que o vírus ainda estava ativo e poderia infectar outras pessoas.

Possível relação com asma e infecções de ouvido

Os cientistas avaliam que a persistência do vírus nesses tecidos pode ter implicações clínicas. Em crianças com asma, por exemplo, a presença do rinovírus em células de defesa pode estimular reações inflamatórias capazes de desencadear crises.

Outro ponto investigado é a relação com infecções de ouvido. O vírus pode migrar da adenoide para o ouvido médio e causar inflamações, mesmo sem sintomas respiratórios evidentes.

“Horta” de vírus no organismo

Em pesquisas anteriores, a equipe já havia identificado outros vírus respiratórios nesses mesmos tecidos. A hipótese é que regiões do sistema linfático funcionem como uma espécie de “horta” de vírus, onde eles permanecem por mais tempo e interagem com o sistema imunológico.

Para os pesquisadores, os resultados reforçam a importância de atenção no diagnóstico de infecções respiratórias, já que a presença do vírus na garganta nem sempre indica que ele é o responsável direto pelos sintomas no pulmão.

O estudo contou com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e colaboração de pesquisadores da USP de Ribeirão Preto.

Fonte: CNN


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