Paisagem da janela

  • Aromas em Palavras
  • Publicado em 22 de setembro de 2016 às 12:06
  • Modificado em 8 de abril de 2021 às 14:11
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Com o passar dos anos as cidades estão ficando cada vez mais verticais, e os prédios sendo transformados em verdadeiros arranha-céus. Meus avós moraram em um prédio que foi um dos primeiros a ser construído na cidade, em pleno centro, uma bela vista defronte ao relógio da igreja matriz. Sim, a sala nem precisava possuir esse adereço, pois era só olhar pela janela que já sabia as horas e ainda poderia admirar o dia. Meu avô tinha um jeito interessante de distrair os netos, a gente sentava no terraço e ficava contando as coisas: quantas árvores, quantas pessoas andando naquele pedaço da praça, quantos pipoqueiros, quantas nuvens, e claro, quantos prédios conseguíamos ver do décimo andar daquele lugar tão lindo.

E para quem, assim como eu, foi criado e ama morar em prédios teve que aprender a dividir espaços, conversas, festas, brigas, e principalmente algo que você sabe que não acaba em um simples apelo: cheiros! Esse é o terceiro prédio em que moro, e já tive vizinhança de todo jeito: recém felizes e barulhentos casados, 3 cocker spaniels em um pequeno espaço que realmente nos impediam de abrir a janela de vez em quando, famílias grandes em espaços pequenos, banho de banheira de madrugada de uma senhora que morava sozinha e trabalhava até tarde… Enfim, infelizmente morar em comunidade, é aprender a dividir momentos, da maneira mais profunda possível. Digamos que a parte mais complexa seria os cheiros, eles invadem sua casa de uma maneira avassaladora, capaz de fazer você sentir fome e não ter nada na geladeira pra comer. Ou até mesmo aquele ovo frito (devo admitir que não sou fã desse prato), que para que não invada a casa dele o vizinho resolve preparar de porta aberta, e acaba invadindo a sua casa.

Ainda bem que hoje vivemos em um século em que tudo é possível (pelo menos de uma forma criativa), e que ao entrar nos lobbys você já pode sentir aromas bem melhores do que repolho recém-cozido ou cigarro recém apagado. E isso explica bem o motivo que uma construtora instalou sete engenhocas de alta tecnologia chamas de ScentWave, em um conjunto de três edifícios chamados de The Blairs em Silver Spring, no estado de Maryland nos EUA. As fragrâncias escolhidas foram três: madressilva (uma trepadeira bem conhecida), geléia de cranberry com laranja e um aroma invernal chamado de show no gelo. São criações de uma empresa chamada Mood Mídia, seus principais clientes são redes hoteleiras como Starwood, Westin e Sheraton.

David Van Epps, o diretor de produção da empresa explica bem o processo de seleção e criação, “Não é uma ciência exata, você vê onde você pode de certa forma entrar e bagunçar. Digamos que você entre em um lobby lindamente decorado com móveis coloniais de 1700, e decide aplicar uma fragrância tropical de manga sobre ele. Dá pra entender que essa mistura não seria congruente. Melhor empregar cheiros terrosos como cedro, baunilha ou sândalo, assim você cria uma experiência de 360 graus, onde tudo se encaixa e você está tocando todos esses sentidos.”

Nesse conjunto de prédios os aromas foram implantados nos lobbies, salas de jogos e media e no centro fitness. Uma dica interessante nesse projeto foi colocar o cheiro de geleia de cranberry com laranja no centro fitness, pois ele elimina o odor de borracha que esses espaços normalmente emitem por ficarem fechados e ainda ajuda dão uma sensação de prazer, bem estar e energia.

Até hoje mantenho esse costumo de ficar contando as coisas da minha sacada, uma maneira divertida de relaxar a cabeça e retornar a infância de alguma forma. Talvez daqui alguns anos esteja contando e tentando adivinhar qual o perfume de cada prédio da cidade. Seria no mínimo, interessante!

Link do The Blairs para quem ficou curioso sobre esse empreendimento: http://www.blairapartments.com

*Esta coluna é semanal e atualizada às quintas-feiras.


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