Conheça a trajetória da indústria calçadista de Franca, das primeiras oficinas familiares às exportações que projetaram o sapato masculino no mercado internacional – Na foto, Calçados Jaguar, primeira fábrica mecanizada de sapatos de Franca
A história da indústria calçadista de Franca é também a história de trabalhadores que transformaram conhecimento artesanal em oportunidade de negócio.
Muito antes de a cidade se tornar conhecida nacional e internacionalmente pela fabricação de sapatos masculinos, a produção acontecia em pequenas oficinas, fundos de residências e espaços improvisados, onde os próprios sapateiros participavam de praticamente todas as etapas do trabalho.
Com ferramentas simples, poucos equipamentos e muita habilidade, esses profissionais produziam os primeiros pares e construíam uma atividade que, ao longo das décadas, ganharia dimensão industrial. O crescimento não aconteceu de uma hora para outra.
Foi resultado de uma combinação de experiência, empreendedorismo, disponibilidade de matéria-prima e formação de uma cadeia produtiva que ajudou a consolidar Franca como um dos principais polos calçadistas do país.
Antes das grandes fábricas, vieram os sapateiros
A tradição do couro na região está relacionada à própria formação econômica de Franca. A circulação de tropeiros, o comércio de animais e a movimentação de mercadorias pelas rotas do interior favoreceram atividades ligadas ao aproveitamento do couro e à fabricação de artigos como selas, arreios e outros equipamentos.
Com o desenvolvimento da cidade, o trabalho artesanal ganhou espaço. A fabricação de calçados passou a reunir profissionais que dominavam diferentes técnicas e transmitiam o conhecimento de uma geração para outra.
A chegada de imigrantes, entre eles italianos e espanhóis, também é apontada nos estudos sobre a formação do setor como parte desse processo de desenvolvimento.
A incorporação de experiências e conhecimentos técnicos contribuiu para o aperfeiçoamento da produção e para a construção de uma cultura profissional ligada ao trabalho com couro.
Um dos nomes que ajudam a contar essa história é Miguel Sábio de Mello. Depois de aprender o ofício como sapateiro, ele abriu sua própria oficina em 1926. O pequeno empreendimento cresceu e deu origem a uma indústria que se tornaria uma referência no setor.
Sua trajetória representa um movimento que se repetiria em Franca: trabalhadores que, depois de adquirir experiência em outras oficinas ou fábricas, decidiram empreender e construir seus próprios negócios.
A especialização que fez a diferença
Um dos fatores que contribuíram para a identidade industrial de Franca foi a especialização no calçado masculino, especialmente nos modelos de couro.
Ao concentrar esforços nesse segmento, as empresas desenvolveram conhecimento técnico em etapas como modelagem, corte, costura, montagem e acabamento. O domínio dessas operações ajudou a construir uma reputação associada à qualidade e à experiência dos profissionais francanos.
Outro diferencial foi a formação de uma cadeia produtiva diversificada. Com o crescimento do setor, fabricantes passaram a contar com fornecedores de couro, solados, saltos, palmilhas, componentes, embalagens e máquinas.
Essa proximidade entre fornecedores e fabricantes favoreceu a integração das atividades, facilitou o acesso a insumos e fortaleceu a economia local. O crescimento de uma fábrica também movimentava outros negócios, ampliando a importância do setor para o município.
A indústria ganha escala e atravessa fronteiras

A passagem da produção artesanal para a industrialização foi marcada pela incorporação de máquinas, pela ampliação das instalações e pela contratação de trabalhadores.
Empresas que começaram pequenas passaram a produzir em maior escala e a disputar espaço em mercados cada vez mais amplos.
A Samello teve papel importante nessa transformação, investindo na modernização de sua estrutura e na ampliação da capacidade produtiva. A partir dos anos 1960, a indústria francana começou a fortalecer sua presença no mercado externo.
Na década seguinte, as exportações ganharam impulso e ajudaram a projetar o nome de Franca para além das fronteiras brasileiras. Um dos episódios marcantes dessa trajetória foi o envio de 17 mil pares de sapatos da Samello para os Estados Unidos, em maio de 1970.
A operação simbolizou a capacidade da indústria local de atender a encomendas internacionais e competir em um mercado exigente.
Para conquistar compradores estrangeiros, as empresas precisaram investir em qualidade, padronização, produtividade e cumprimento de prazos, além de adaptar modelos às características de diferentes consumidores.
O sapato produzido no interior paulista começava, assim, a ocupar espaço em um mercado internacional tradicionalmente disputado por países com forte presença na fabricação de artigos de couro.
Uma identidade que continua em transformação
A indústria calçadista de Franca atravessou diferentes fases econômicas e precisou se adaptar a mudanças tecnológicas, concorrência internacional, custos de produção e novos hábitos de consumo.
Embora o sapato masculino de couro continue sendo uma das marcas mais reconhecidas do polo francano, a produção se diversificou. Empresas passaram a trabalhar também com calçados femininos, infantis, esportivos e outros segmentos, buscando novos públicos e oportunidades comerciais.
Pequenas fábricas, negócios familiares, marcas tradicionais e novos empreendedores continuam fazendo parte desse cenário. A estrutura atual é muito diferente daquela das primeiras oficinas, mas preserva uma característica essencial: o conhecimento técnico acumulado por gerações de trabalhadores.
A história do sapato em Franca não foi construída apenas por grandes empresas ou empresários conhecidos. Ela também pertence aos cortadores, pespontadores, montadores, modelistas, costureiros, vendedores e tantos outros profissionais que fizeram da atividade uma fonte de sustento e uma referência econômica para a cidade.
De uma oficina com poucos equipamentos a uma indústria capaz de alcançar compradores em outros países, Franca construiu uma trajetória em que trabalho, conhecimento e empreendedorismo caminharam juntos.
E é justamente essa história coletiva que ajuda a explicar por que o sapato masculino se tornou uma das marcas mais fortes da identidade francana.




