Conheça a história do Relógio do Sol de Franca, construído por iniciativa de Frei Germano de Annecy, e descubra curiosidades sobre o monumento inaugurado em 1887
Quem passa pela Praça Nossa Senhora da Conceição, no Centro de Franca, encontra um monumento que já faz parte da paisagem e da identidade da cidade. O Relógio do Sol, porém, guarda uma história muito mais complexa do que sua aparência pode sugerir.
Inaugurado em 11 de abril de 1887, ele é resultado de cálculos astronômicos, conhecimentos matemáticos, mobilização popular e do trabalho de um religioso francês que teve uma trajetória científica de destaque no Brasil do século XIX.
O responsável pelo projeto foi Frei Germano de Annecy, um frade capuchinho que chegou a Franca por volta de 1881 e encontrou na cidade um ambiente no qual pôde continuar seus estudos, ensinar e desenvolver pesquisas.
Antes de se estabelecer no interior paulista, ele já havia construído uma reputação como professor, astrônomo e observador meteorológico. Sua passagem por Franca deixou uma das marcas mais singulares do patrimônio histórico local.
O relógio começou a ser planejado em 1885 e foi inaugurado dois anos depois. A obra coincidiu com um momento importante para o município: em abril de 1887, a Companhia Mogiana também inaugurava o trecho ferroviário que chegava a Franca.
Ciência, modernização e desenvolvimento urbano se encontravam naquele período, e o monumento passou a representar uma cidade que buscava acompanhar as transformações do século XIX.
Um religioso francês que também era cientista


Frei Germano de Annecy (Foto Brazil Imperial – Facebook)
Frei Germano nasceu na cidade de Annecy, na região da Alta Saboia, na França, e recebeu o nome de Claude Charles Marion. Ingressou na Ordem dos Capuchinhos ainda jovem e foi ordenado sacerdote em 1845, adotando o nome religioso pelo qual ficaria conhecido.
Sua formação e atuação estavam longe de se limitar às atividades religiosas. Ele estudou e ensinou matemática, física, astronomia, botânica e mineralogia, áreas nas quais desenvolveu trabalhos que chamaram a atenção de instituições e autoridades brasileiras.
Depois de atuar como missionário no Chile, chegou ao Brasil em 1858, convidado para integrar o corpo docente do Seminário Episcopal de São Paulo. Permaneceu na instituição até 1878, período em que também realizou observações astronômicas e meteorológicas.
Observações astronômicas e meteorológicas de Frei Germano
Frei Germano utilizava telescópios para acompanhar os astros e registrava fenômenos relacionados ao clima. Suas observações chegaram a colaborar com o jornal A Província de S. Paulo, publicação que posteriormente passou a se chamar O Estado de S. Paulo.
O religioso fornecia informações meteorológicas e observações astronômicas, uma atividade de grande importância em uma época na qual a previsão do tempo ainda dependia de observações diretas e registros científicos.
Outro aspecto pouco conhecido de sua trajetória foi a relação com o imperador Dom Pedro II, conhecido pelo interesse em ciência, tecnologia e educação. Segundo o histórico do patrimônio municipal, Frei Germano recebeu convite do imperador para assumir a vice-direção do Imperial Observatório do Rio de Janeiro.
Por questões de saúde, não aceitou a mudança para a capital imperial e foi nomeado membro correspondente não residente da instituição.
A relação entre os dois também teria sido marcada por um presente especial: um cronômetro de qualidade, identificado como John Pool, com uma dedicatória de Dom Pedro II. O episódio ajuda a dimensionar o reconhecimento que o religioso havia conquistado nos círculos científicos brasileiros.
Antes de Franca, ele já havia ajudado a marcar as horas de São Paulo
A história do Relógio do Sol francano não começou com a chegada de Frei Germano ao município. Anos antes, ainda durante sua atuação no Seminário Episcopal de São Paulo, ele já havia calculado e coordenado a construção de outro relógio solar.
Em 1859, o religioso desenvolveu um relógio de sol mural, do tipo vertical declinante, instalado na instituição de ensino. O equipamento teve uma função que hoje pode surpreender: serviu como referência para o acerto dos relógios da cidade de São Paulo, inclusive o da torre da Estação da Luz.
Em uma época anterior à padronização dos horários e à ampla disponibilidade de equipamentos de precisão, instrumentos como esse tinham importância prática. A observação do movimento aparente do Sol permitia estabelecer referências para a marcação das horas.
Frei Germano também projetou outro relógio solar de coluna, feito em mármore, cuja execução ficou a cargo do artista francês Jules-Victor André Martin. O profissional viria a participar de projetos importantes na capital paulista, entre eles o Viaduto do Chá.
Essa experiência anterior ajuda a compreender por que o frade tinha condições de desenvolver um projeto tão elaborado em Franca. O monumento da cidade não foi uma experiência isolada, mas parte de uma trajetória dedicada ao estudo e à aplicação dos conhecimentos científicos.
Como o Relógio do Sol foi construído
Quando chegou a Franca, por volta de 1881, Frei Germano foi recebido a convite do padre Cândido Martins da Silveira Rosa, também conhecido como Monsenhor Cândido Rosa.
Ele passou a residir em uma chácara pertencente ao religioso, onde utilizou seus conhecimentos de botânica para cuidar dos jardins.
Foi nesse período que também organizou o primeiro observatório astronômico e meteorológico de Franca, além de lecionar no Colégio Culto às Letras.
A ideia de construir um relógio solar começou a ganhar forma em 1885. O local escolhido foi o espaço em frente à Igreja Matriz, na área que corresponde à atual Praça Nossa Senhora da Conceição. Na época, o lugar era conhecido como Largo da Alegria.
O projeto exigia muito mais do que a construção de uma estrutura bonita. Para que o instrumento funcionasse corretamente, era necessário calcular a posição geográfica do local, determinar referências de orientação e estudar o movimento aparente do Sol ao longo do ano.
Frei Germano precisou trabalhar com conceitos de latitude, meridianos, geometria, trigonometria e astronomia. A posição de cada mostrador e o desenho das linhas que indicariam as horas dependiam desses cálculos. Um pequeno erro poderia comprometer a leitura do instrumento.
Tudo isso foi desenvolvido em uma época sem computadores, programas de simulação ou equipamentos modernos de medição. O trabalho exigia conhecimento teórico, observação cuidadosa e cálculos feitos manualmente.
A construção também mobilizou a população
Um dos detalhes mais interessantes da história está na forma como o dinheiro para a obra foi arrecadado.
Frei Germano não contou apenas com recursos institucionais. A construção foi viabilizada com a participação da comunidade francana, por meio de doações e iniciativas para levantar fundos.
Registros publicados em 1885 pelo jornal O Nono Distrito, considerado o primeiro jornal de Franca, mostram que a campanha envolveu a organização de um bazar beneficente. Mulheres da cidade foram convidadas a contribuir com prendas que seriam comercializadas ou leiloadas, e os valores arrecadados seriam destinados ao monumento.
As páginas do jornal também registravam nomes de pessoas que colaboravam com dinheiro ou produtos. A iniciativa envolveu Frei Germano, o vigário Cândido Rosa e o jornalista César Augusto Ribeiro.
O episódio revela algo importante sobre a história da cidade: o Relógio do Sol não foi apenas uma obra concebida por um estudioso. Sua construção também dependeu da participação de moradores que entenderam a importância do projeto e ajudaram a torná-lo realidade.
A mobilização demonstra, ainda, como a imprensa local já desempenhava um papel na articulação de iniciativas comunitárias no século XIX.
Quatro faces e muito mais do que a marcação das horas
O Relógio do Sol de Franca tem uma característica que o diferencia de instrumentos solares mais simples: sua estrutura apresenta quatro mostradores, voltados para os pontos cardeais Norte, Sul, Leste e Oeste.
Cada face tem uma função relacionada à posição do Sol e ao período do dia.
O mostrador Leste, voltado para a rua Major Claudiano, permite acompanhar as primeiras horas da manhã durante todo o ano. O Oeste, direcionado para a Praça Barão, registra as últimas horas da tarde.
A face Norte, voltada para a região da Fonte Luminosa, marca as últimas horas da manhã e as primeiras da tarde durante praticamente o ano inteiro. Já a face Sul, voltada para a Igreja Nossa Senhora da Conceição, tem funcionamento mais restrito, sendo utilizada para essa leitura nos últimos dias do ano.
Mas a estrutura não foi pensada apenas para indicar as horas. O monumento também apresenta um mostrador relacionado à passagem do Sol pelas constelações zodiacais, permitindo identificar o período do ano associado a cada signo. Na parte superior, uma esfera complementa o conjunto e representa a posição da cidade no espaço.
É justamente essa combinação de funções que transforma o monumento em um instrumento científico. Ele reúne informações sobre o tempo, o movimento solar e a posição geográfica, traduzidas em uma estrutura arquitetônica que pode ser observada por qualquer pessoa.
Por que o relógio nem sempre marca a mesma hora do celular?
Uma curiosidade que ajuda a entender o funcionamento do monumento é a diferença entre a hora solar e a hora indicada pelos relógios convencionais.
O Relógio do Sol utiliza a sombra projetada pela luz solar para indicar o tempo. Sua leitura está relacionada à posição aparente do Sol no céu, enquanto os relógios atuais seguem o horário oficial estabelecido para cada fuso.
Por isso, não se deve esperar que a indicação do monumento coincida exatamente com a hora exibida em um celular ou relógio de pulso.
A diferença também pode variar ao longo do ano. Isso acontece porque a órbita da Terra ao redor do Sol não é um círculo perfeito e porque o eixo terrestre apresenta inclinação. Esses fatores fazem com que o tempo solar aparente não tenha uma correspondência constante com o tempo médio utilizado nos relógios modernos.
Em outras palavras, o instrumento não está necessariamente errado quando apresenta uma indicação diferente do horário oficial. Ele está mostrando o tempo a partir de outra referência: a relação entre o Sol e a posição geográfica de Franca.
A polêmica histórica sobre a origem do mármore
Outro capítulo curioso envolve o material utilizado na construção.
O histórico oficial do patrimônio municipal registra que o monumento foi feito em mármore de Carrara, pedra italiana reconhecida mundialmente pela qualidade e utilizada em esculturas e obras arquitetônicas importantes.
Uma reportagem publicada em 2019 pelo portal Sampi, dedicada à história da construção, levantou uma discussão sobre a procedência e a execução da peça. O jornal recuperou a informação publicada em O Nono Distrito de que o relógio seria produzido em mármore de Carrara, na Itália.
No entanto, o levantamento também apresentou questionamentos sobre essa versão. Considerando as dificuldades de transporte e comunicação da época, o jornalista responsável pela pesquisa levantou a hipótese de que a execução da peça pudesse ter ocorrido em São Paulo, com participação de profissionais ligados a Frei Germano.
Um dos elementos mencionados foi a inscrição “Martinelli sp”, identificada no monumento, que poderia indicar a participação de alguém na capital paulista.
A reportagem relacionou essa possibilidade à experiência anterior de Frei Germano com o artista Jules-Victor André Martin, responsável pela execução de outro relógio solar projetado pelo religioso.
É importante destacar que se trata de uma hipótese levantada a partir de pesquisa histórica, e não de uma conclusão documental definitiva.
O registro oficial municipal mantém a referência ao mármore de Carrara, mas a discussão mostra que ainda existem aspectos da construção que merecem investigação.
Um monumento que atravessou guerras, mudanças e o crescimento da cidade
O Relógio do Sol foi inaugurado em 11 de abril de 1887, na Praça Nossa Senhora da Conceição. Sua história está diretamente ligada ao período de modernização vivido por Franca no final do século XIX.
Na mesma data, a chegada da ferrovia Mogiana ao município representava uma mudança importante na ligação da cidade com outras regiões. A ferrovia ampliava as possibilidades de transporte de pessoas e mercadorias e contribuía para o desenvolvimento econômico.
O monumento permaneceu no espaço público enquanto Franca crescia, mudava sua arquitetura e ampliava sua população. A praça também passou por transformações, mas o relógio continuou como uma referência histórica e visual do Centro.
Em 8 de março de 1972, o Relógio do Sol recebeu tombamento estadual, por resolução do Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo, o Condephaat. Em 1999, também foi protegido pelo município, por meio do Decreto nº 7.688, de 15 de setembro.
O reconhecimento oficial reforçou a importância de preservar não apenas a estrutura física, mas também o significado histórico, científico e cultural do monumento.
A restauração depois dos danos de 2017

Trabalhos de restauração do Relógio do Sol de Franca após tempestade em 2017 – foto Revista Restauro
A preservação do Relógio do Sol também enfrentou desafios. Em dezembro de 2017, um temporal provocou danos no monumento e chamou a atenção para a necessidade de uma intervenção especializada.
A recuperação exigiu cuidados próprios de um bem histórico. Não se tratava de uma simples reforma ou de uma substituição de peças, mas de um trabalho de conservação que precisava respeitar os materiais e as características originais da obra.
A restauração foi concluída em 2019, depois de um processo que envolveu contratação de profissionais especializados e etapas de recuperação. O trabalho devolveu ao monumento condições de conservação e permitiu que ele continuasse integrado à paisagem da praça.
A experiência também reforçou uma questão importante: patrimônio histórico não se preserva apenas com o tombamento. É necessário acompanhamento, manutenção e conhecimento técnico para evitar que a ação do tempo e as condições climáticas comprometam estruturas que atravessaram mais de um século.
O legado de Frei Germano para Franca
Frei Germano permaneceu na cidade até 1890, quando deixou Franca com a intenção de retornar à Europa.
Sua contribuição, entretanto, permaneceu. Além do Relógio do Sol, sua atuação como professor e pesquisador ajudou a ampliar a presença da ciência e da educação na Franca do século XIX.
O monumento também se tornou uma ferramenta de aprendizado. Ao longo dos anos, professores e estudantes utilizaram sua estrutura para abordar temas de matemática, física, geografia e astronomia, aproximando conteúdos escolares de um objeto que faz parte do cotidiano da cidade.
Em 2025, o histórico dos patrimônios tombados de Franca, organizado pela Prefeitura, pela Secretaria Municipal de Esporte e Cultura, pelo Condephat e pelo Arquivo Histórico Municipal Capitão Hipólito Antônio Pinheiro, voltou a registrar a trajetória do monumento e de seu idealizador.
Mais de 130 anos depois da inauguração, o Relógio do Sol continua no mesmo espaço escolhido por Frei Germano. Para quem passa apressado pela praça, pode ser apenas uma construção antiga.
Para quem conhece sua história, é o testemunho de uma época em que um religioso francês ajudou a aproximar Franca da ciência e do conhecimento que movimentavam o mundo.
A cidade, que completa 202 anos no dia 28 de novembro, tem no monumento uma lembrança de que seu patrimônio não é formado apenas por edifícios e datas. Também é feito de ideias, iniciativas coletivas e pessoas que enxergaram possibilidades muito além de seu próprio tempo.

