Fonte Luminosa de Franca: conheça a história do monumento inaugurado em 1958, suas esculturas, a transformação da praça e curiosidades ainda pouco conhecidas
Quem passa pela Praça Nossa Senhora da Conceição, no Centro de Franca, talvez não imagine quantas histórias estão reunidas em torno da Fonte Luminosa. Com seus jatos de água, iluminação colorida e esculturas femininas, o monumento se tornou um dos cartões-postais mais conhecidos da cidade.
Inaugurada em 24 de setembro de 1958, durante a administração do prefeito Onofre Gosuen, a fonte foi concebida pelo engenheiro francano Matheus Gomes do Val. O conjunto reúne cinco esculturas: quatro representam as estações do ano e uma quinta, posicionada no centro, representa o Sol.
Mas a história desse monumento começa muito antes de a água jorrar entre as estátuas. O terreno onde ele foi instalado está ligado aos primeiros capítulos da formação urbana e religiosa de Franca. E, quase sete décadas depois da inauguração, ainda existem perguntas sobre a obra que não encontraram respostas definitivas nos registros históricos disponíveis.
Antes da fonte, uma igreja e o primeiro cemitério
A área ocupada atualmente pela Praça Nossa Senhora da Conceição está entre os espaços mais antigos da cidade. Foi ali que se instalou a primeira Igreja Matriz, cuja construção começou em 1809, em torno da qual se desenvolveu o núcleo urbano de Franca.
O terreno também abrigou o primeiro cemitério. Naquele período, era comum que os sepultamentos fossem realizados nas proximidades das igrejas, antes da consolidação dos cemitérios públicos em áreas separadas dos templos.
Com a construção da nova Matriz, em outro ponto da região central, a antiga igreja deixou de cumprir sua função. O espaço passou por transformações e se tornou uma área pública, acompanhando o crescimento da cidade.
A praça, portanto, não é apenas o endereço de um monumento famoso. É um lugar que atravessou diferentes fases da história francana: da formação do povoado à urbanização do Centro, passando por mudanças religiosas, sociais e paisagísticas.

Praça Central de Franca: o antigo coreto deu lugar à Fonte Luminosa – foto Diocese de Franca
Dos jardins ao coreto: a praça antes da Fonte Luminosa
Antes de receber a fonte, a praça já havia passado por importantes intervenções. Na década de 1930, recebeu um projeto urbano-paisagístico elaborado pelo arquiteto francês J. E. Chauvière, que também trabalhou na remodelação de outros espaços públicos de Franca.
O desenho tinha formas geométricas bem definidas, jardins e caminhos organizados em eixos simétricos. No centro foi construído um coreto de concreto e alvenaria, cuja arquitetura lembrava um chapéu bastante usado pelos rapazes da época, conforme descrição do arquiteto e historiador Paulo Queen, reproduzida no documento municipal de patrimônio.
O coreto não era apenas um elemento decorativo. Esses espaços funcionavam como pontos de encontro e recebiam apresentações musicais, retretas e atividades públicas. Em Franca, a praça era também local de circulação, convivência e encontros entre moradores.
A estrutura acabou dando lugar a uma nova configuração urbana no final dos anos 1950, quando a administração de Onofre Gosuen promoveu intervenções que modificaram a paisagem do Centro.
A modernização de Franca e a chegada do monumento
A Fonte Luminosa foi inaugurada em 24 de setembro de 1958, em um período de transformações urbanas na cidade. A gestão de Onofre Gosuen ficou marcada por obras de remodelação e embelezamento de espaços públicos, dentro de um movimento de modernização que também envolveu outras praças e áreas centrais.
O contexto é importante para compreender a construção do monumento. A fonte não foi uma obra isolada: ela integrou uma fase em que Franca buscava renovar sua paisagem urbana e criar novos espaços de convivência.
O documento municipal de patrimônio registra que, entre 1956 e 1960, a praça recebeu outros monumentos e equipamentos, como o Menino Tirando Estrepé, a Estátua da Criança, a Estátua da República e o serviço de alto-falantes Zig-Zag.
O alto-falante, em particular, é uma lembrança interessante de uma época em que a comunicação pública tinha características bem diferentes das atuais.
Antes da popularização da televisão e muito antes da internet, sistemas de som instalados em espaços públicos podiam transmitir informações, músicas e mensagens, além de servir como ponto de encontro.
A Fonte Luminosa passou a integrar esse cenário de transformação e se tornou o elemento mais marcante da praça.
As quatro estações e uma quinta figura que muita gente não percebe
Embora seja conhecida popularmente como Fonte Luminosa, a composição escultórica é associada ao nome “As Quatro Estações”. O conjunto, entretanto, tem cinco figuras.
As quatro esculturas femininas representam Primavera, Verão, Outono e Inverno. Uma quinta figura ocupa a parte central do monumento e representa o Sol.
As estátuas estão posicionadas de acordo com os pontos cardeais:
– Primavera: ao sul;
– Verão: a oeste;
– Outono: ao norte;
– Inverno: a leste.
A figura central apresenta odaliscas dançando ao redor de uma taça com uvas, composição que a reportagem relaciona ao vinho. É um detalhe que pode passar despercebido para quem observa a fonte apenas de longe.
Outro aspecto curioso é o material das esculturas. Durante a restauração realizada em 2011, o artista plástico Maurício Olímpio da Silva informou que as cinco peças eram feitas de resina composta.
A informação surpreende quem imagina que as figuras sejam de pedra ou bronze, pela aparência e pela permanência do monumento na paisagem urbana. Na ocasião, o trabalho de recuperação incluiu limpeza, reconstituição de partes danificadas e pintura.
O restaurador também chamou a atenção para os danos provocados pela depredação. Segundo ele, algumas partes das esculturas precisaram ser remodeladas depois de sofrerem danos causados por ações de vandalismo.
Quem fabricou as esculturas? Uma pergunta que continua sem resposta
A origem das estátuas é uma das questões mais interessantes da história da fonte.
As esculturas foram adquiridas prontas e que teriam a mesma origem de grande parte das estátuas encontradas no Cemitério da Saudade, em Franca.
Essa informação abre uma linha de investigação importante. O cemitério reúne numerosas obras escultóricas, muitas delas ligadas à tradição de oficinas especializadas em arte funerária. A possível conexão entre as peças da fonte e esse universo artístico merece ser investigada.
Mas quem produziu as figuras? De onde vieram? Foram compradas de uma fundição, de uma marmoraria ou de um ateliê especializado? Existia um catálogo de modelos disponível para prefeituras e compradores particulares?
Até o momento, não foi localizado um documento que identifique o escultor, o fabricante ou o estabelecimento responsável pela venda das cinco peças.
Relatos e referências recentes levantam a possibilidade de que as esculturas tenham sido adquiridas em São Paulo e associam sua produção à tradição de artistas e oficinas de origem italiana que atuavam na capital. Entretanto, essa versão ainda não foi confirmada por registros da época.
Também não há comprovação de que um escultor italiano específico tenha sido contratado pela Prefeitura de Franca. Nomes de artistas e oficinas mencionados em pesquisas informais não podem ser associados à fonte sem documentos que demonstrem essa relação.
A ausência de uma autoria claramente identificada é, por si só, uma curiosidade histórica. Um monumento que há quase 70 anos integra a paisagem francana ainda guarda uma pergunta básica sobre sua produção artística.
Matheus Gomes do Val: o engenheiro por trás da concepção
A concepção da Fonte Luminosa é atribuída ao engenheiro francano Matheus Gomes do Val, informação registrada em publicações históricas sobre o monumento.
Apesar disso, ainda não foram localizados, em acervos digitais de acesso público, os desenhos técnicos originais, as plantas ou o memorial descritivo elaborado por ele.
Esses documentos poderiam revelar detalhes importantes sobre a construção, como a organização da estrutura, o funcionamento do sistema hidráulico, a disposição dos jatos de água e o planejamento da iluminação.
A ausência dos desenhos na internet não significa que eles não existam. Podem estar preservados em processos administrativos, arquivos de obras ou documentos da Prefeitura.
Também é importante distinguir a concepção atribuída ao engenheiro da execução artística das esculturas. São etapas diferentes de uma obra, e não há documentação suficiente para atribuir a Matheus Gomes do Val a autoria das figuras.
As reformas e a preservação do cartão-postal

Fonte Luminosa – foto Tripadvisor
Ao longo das décadas, a Fonte Luminosa passou por intervenções para conservar as esculturas e manter o funcionamento do sistema de água e iluminação.
Em novembro de 2011, as cinco figuras receberam um trabalho de restauração realizado pelo artista plástico Maurício Olímpio da Silva. A intervenção durou seis dias e incluiu limpeza, recuperação de partes danificadas e pintura.
Em fevereiro de 2021, a Prefeitura anunciou melhorias na iluminação da Praça Nossa Senhora da Conceição, com a substituição de 45 luminárias metálicas por equipamentos de LED. A fonte também recebeu novas lâmpadas, em uma intervenção voltada à melhoria da iluminação do espaço e à eficiência energética.
Essas mudanças mostram que o monumento continuou sendo adaptado às necessidades de cada época, sem perder sua posição de destaque na paisagem central.
Fontes consultadas:
– Histórico dos Patrimônios Tombados no Município de Franca — Prefeitura de Franca (2025)
– A Fonte Luminosa de Franca — Portal Franca e Região


