LSD pode ter uma segunda vida e ser usado como medicamento psiquiátrico

  • Cesar Colleti
  • Publicado em 12 de outubro de 2018 às 22:20
  • Modificado em 8 de outubro de 2020 às 19:05
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Antes do Festival de Woodstock, substância foi medicamento experimental psiquiátrico em 1943

O LSD, uma droga que ainda é
ligada ao movimento hippie, volta pouco a pouco ao âmbito da pesquisa médica,
75 anos após sua descoberta em um grande laboratório farmacêutico suíço.

Antes de se tornar a droga
recreativa associada ao Festival de Woodstock, aos artistas dos anos 1960 e a
suas inúmeras criações psicodélicas, a substância alucinógena criada em 1943
foi um medicamento experimental, muito utilizado na psiquiatria.

Mas seu uso foi interrompido
depois que a Organização Mundial da Saúde (OMS) alertou sobre seu consumo
abusivo e pediu para os governos tomarem medidas a respeito.

O ácido, que a ONU considera um
psicotrópico ilícito desde 1971, ficou à margem da pesquisa médica durante
cerca de 40 anos, para desagrado do doutor Albert Hofmann (1906-2008), um dos
pais do LSD, que sempre defendeu as virtudes terapêuticas de sua descoberta.

Mas, anos depois, a droga está a caminho da
reabilitação. “Em 2006, foi organizada uma grande conferência em Basileia sobre
o doutor Hofmann por ocasião do centenário de seu nascimento”, explica Hannes
Mangold, comissário de uma exposição na biblioteca nacional suíça, em Berna,
dedicada ao livro deste químico suíço intitulado “LSD: meu filho monstro”.

Cientistas do mundo inteiro escreveram, então, a
seus governos para lhes solicitar permissão para retomar suas pesquisas,
especialmente para estudar os efeitos da droga no tratamento de depressões
profundas ou no acompanhamento de pacientes com doenças incuráveis.

Segunda fase

Entre os poucos estudos autorizados desde então, se
destaca um realizado por Peter Gasser, psiquiatra e psicoterapeuta da pequena
cidade suíça de Soleure.

O objetivo dessa pesquisa, executada com 12
pacientes, é entender como o LSD pode ajudar os pacientes a superar sua
ansiedade depois de terem sido diagnosticados com câncer em estado avançado.

O estudo, financiado por uma organização
californiana, a Associação Multidisciplinar de Estudos Psicodélicos (MAPS, na
sigla em inglês), está na segunda fase – na qual comprova a eficácia das
substâncias usadas nos testes clínicos. “Tudo isso acaba de começar, mas é
possível que o LSD possa voltar na forma de um medicamento”, considera Mangold.

O LSD, acrônimo do termo alemão
Lysergsäurediethylamid (dietilamida de ácido lisérgico), nasceu durante
experiências com o esporão-do-centeio, um fungo que ataca espigas de centeio e
que o laboratório suíço Sandoz utilizava à época para fabricar um fármaco
contra a enxaqueca.

Enquanto manipulava um dos alcaloides presentes no
esporão-do-centeio para descobrir suas propriedades, o doutor Hofman
experimentou uma sensação estranha. Para eliminar as dúvidas, ele ingeriu uma
grande dose da substância e teve fortes alucinações.

Arthur Stoll, chefe de pesquisa da Sandoz, propôs
então a seu filho, psiquiatra em Zurique, testar a substância com seus
pacientes, antes que o laboratório decidisse distribuí-la em maior escala com
fins experimentais.

Como em um aquário

O folheto entregue na década de 1950 aos médicos
que queriam ingerir o LSD explicava que a substância causava uma espécie de
psicose artificial e temporária, que lhes permitiria entender melhor os
pensamentos de seus pacientes. Em relação aos pacientes, esse tratamento
milagroso permitiria reduzir a ansiedade e as neuroses obsessivas.

Mas o LSD deixou o campo da medicina e se espalhou
nos círculos artísticos e literários, sob a influência de personalidades como o
professor de psicologia Timothy Leary, demitido de sua cadeira em Harvard por
compartilhar a droga com estudantes, e o escritor americano Ken Kesey, o autor
de “Um estranho no ninho”.

Em seus arquivos, a rádio-televisão suíça RTS
encontrou um relatório de 1966 no qual três voluntários testaram o LSD diante
da câmera para mostrar os efeitos da substância.

“Não tem gosto de nada”, disse o primeiro
voluntário, um pouco desapontado, ao tomar uma grande dose da droga, antes de
começar a descrever suas alucinações.

Ele se sentia “como em um aquário”, disse ao médico
e à equipe de televisão. “Eu olhei para você como se vocês fossem algas”,
acrescentou, explicando que a droga liberou sua criatividade.

Filho problemático
ou prodígio

No fim da década de 1960, as autoridades começaram
a proibir o LSD, inclusive na Suíça, em 1968. Hofmann decidiu então escrever um
livro para defender sua invenção.

“LSD: Meu filho monstro” é “um um documento
absolutamente fascinante, a meio caminho entre um livro de química e um tratado
metafísico”, diz Mangold, que encontrou várias edições da obra para a exposição
em Berna.

O curador da exposição sobre Hofmann reconhece, no
entanto, que o livro é bastante enviesado.

O médico “escreveu este trabalho a fim de trazer
novos argumentos no debate sobre LSD” e ao longo de sua vida tentou dar uma
visão positiva sobre a substância – mesmo que para isso tivesse que esconder
alguns aspectos questionáveis. “Se conseguirmos usar melhor, em uma prática
médica relacionada com a meditação, as capacidades do LSD de induzir
experiências visionárias, sob certas condições, então eu acho que eu poderia
parar de ser uma criança monstro e tornar-se uma criança prodígio”, escreveu o
químico em seu livro.