Estudo publicado em 2026 relaciona alterações no relógio biológico a um possível subtipo de depressão
Dormir em horários muito tardios, acordar cansado mesmo depois de várias horas de sono e sentir sonolência durante o dia podem ser mais do que sinais de uma rotina desregulada.
Uma pesquisa australiana identificou um perfil de depressão associado a alterações no relógio biológico, chamado pelos pesquisadores de depressão circadiana.
Publicado em outubro de 2026 no British Journal of Psychiatry, o estudo analisou dados de 11.380 pessoas com histórico de depressão. Desse grupo, 2.604 participantes, aproximadamente 23%, apresentaram pelo menos três características relacionadas à desregulação do ritmo circadiano.
Os resultados ajudam a aprofundar a compreensão da relação entre sono e saúde mental. No entanto, os próprios pesquisadores ressaltam que são necessárias novas investigações para confirmar a classificação e entender como ela poderá contribuir para o diagnóstico e o tratamento da depressão.
Quais hábitos de sono foram associados à depressão?
O ritmo circadiano é o sistema interno que organiza diferentes funções do organismo ao longo de aproximadamente 24 horas. Ele influencia o ciclo de sono e vigília e é regulado, entre outros fatores, pela exposição à luz.
Quando esse ritmo não está sincronizado com a rotina diária, a pessoa pode ter dificuldade para dormir e acordar nos horários necessários, além de sentir cansaço durante o dia.
Na pesquisa, os cientistas consideraram seis características para identificar o perfil denominado depressão circadiana:
Cansaço ao acordar: sensação de fadiga mesmo depois de dormir.
Preferência por dormir tarde: tendência a adormecer e despertar em horários mais tardios.
Sono atrasado: horário habitual de sono deslocado para mais tarde.
Diferença entre dias úteis e folgas: mudanças expressivas na rotina de sono, fenômeno conhecido como jet lag social.
Variações sazonais: mudanças no humor, na energia ou no sono associadas às estações do ano.
Aumento do tempo de sono: dormir mais durante os períodos em que os sintomas depressivos estão mais intensos.
Para integrar o grupo identificado pelos pesquisadores, os participantes precisavam apresentar pelo menos três desses critérios. Isso não significa, porém, que qualquer pessoa que durma tarde ou tenha dificuldade para despertar apresente depressão.
Grupo apresentou sintomas mais intensos
A análise identificou diferenças entre os participantes classificados no perfil circadiano e aqueles que não atenderam aos critérios propostos.
O grupo apresentou associação com início mais precoce da depressão, manifestações clínicas mais intensas e maior relato de sofrimento psicológico. Os pesquisadores também observaram diferenças na resposta relatada a antidepressivos de uso comum e na ocorrência de efeitos colaterais.
Esses resultados podem ajudar a orientar futuras pesquisas sobre tratamentos mais individualizados, considerando não apenas os sintomas emocionais, mas também os padrões de sono e o funcionamento do relógio biológico.
Entretanto, o estudo não testou tratamentos específicos para esse perfil. Portanto, ainda não é possível afirmar que pessoas com essas características responderão melhor a uma determinada abordagem terapêutica.
O que o estudo ainda não consegue comprovar?
Apesar dos resultados, a pesquisa tem limitações importantes. Os dados foram obtidos de participantes com histórico de depressão, predominantemente com quadros graves ou recorrentes, e a análise considerou pessoas de ascendência europeia.
Além disso, parte das informações foi fornecida pelos próprios participantes. O estudo identificou associações entre características do sono e manifestações da depressão, mas não comprovou que a desregulação do relógio biológico seja a causa do transtorno.
Os pesquisadores defendem novas análises com grupos diferentes e estudos capazes de verificar se essa classificação pode, de fato, ajudar a prever a evolução da doença ou a escolha de tratamentos.
Por isso, a expressão “depressão circadiana” deve ser entendida como um perfil em investigação científica, e não como um diagnóstico que possa ser estabelecido apenas pela observação dos hábitos de sono.
Quando procurar ajuda?
Alterações persistentes no sono, cansaço frequente, perda de interesse por atividades habituais e mudanças importantes no humor merecem atenção, principalmente quando começam a prejudicar a rotina, os estudos, o trabalho ou os relacionamentos.
Nesses casos, a avaliação de um profissional de saúde pode ajudar a identificar as causas e indicar o acompanhamento adequado.
Problemas de sono podem estar associados a diferentes condições físicas e emocionais, e não devem ser interpretados isoladamente como sinal de depressão.
Manter horários regulares para dormir e acordar e buscar exposição à luz natural durante o dia são medidas que podem favorecer a organização do ritmo biológico. Elas, porém, não substituem a avaliação e o tratamento profissional quando há sintomas persistentes.
A principal contribuição da pesquisa é reforçar que compreender os padrões de sono pode ser relevante na avaliação da saúde mental. A confirmação desse possível subtipo e suas implicações clínicas, contudo, ainda dependem de novas evidências.
Fonte: O Globo




