O médico Rodolfo Moraes diz que o preconceito em torno da especialidade faz muitos pacientes deixarem de viver com mais qualidade
Quando alguém ouve a expressão “cuidados paliativos”, a reação costuma ser imediata: “Então não há mais o que fazer”. Essa é uma das frases que cercam a rotina do médico paliativista Dr. Rodolfo Moraes e também um dos maiores mitos da medicina no Brasil.
Na prática, os cuidados paliativos não representam o fim do tratamento, mas uma forma de ampliar o cuidado. Eles atuam no controle da dor e de outros sintomas físicos, oferecem suporte emocional ao paciente e à família, e ainda ajudam na tomada de decisões ao longo de toda a jornada da doença.
Ao contrário do que muitos imaginam, os cuidados paliativos podem e devem ser iniciados desde o diagnóstico de uma condição grave, caminhando lado a lado com tratamentos como quimioterapia, radioterapia, cirurgias e outras terapias.
Quem é mais importante
“Cuidado paliativo não é fim de vida. Para muitos, aliás, pode ser o começo!” explica Dr. Rodolfo Moraes. É um erro acreditar que cuidados paliativos significam desistência.
Na verdade, eles representam exatamente o oposto, o cuidar da pessoa de forma completa, respeitando seus desejos, sua dignidade e sua qualidade de vida em todas as fases do tratamento. “Em momento algum devemos nos esquecer que a pessoa é mais importante que a doença”, complementa Dr. Rodolfo.
O médico cita um caso recente que aconteceu em Campo Grande (MS), e que ganhou repercussão nacional quando o advogado Tiago Pitthan, 47 anos, após ter diagnosticado câncer de estômago em estágio avançado decidiu realizar um “velório em vida” para reunir familiares e amigos, celebrar sua trajetória e expressar sua gratidão enquanto ainda podia compartilhar esse momento.
“A iniciativa chamou atenção por mostrar que falar sobre a finitude também pode ser uma forma de valorizar a vida, fortalecer vínculos e respeitar os desejos do paciente, princípios esses que norteiam os cuidados paliativos”, afirma Dr. Rodolfo.
Dor final
Segundo a WHPCD (World HospiceandPalliativeCare Day), cerca de 18 milhões de pessoas no mundo sofrem com dor no final da vida desnecessariamente por falta de tratamento adequado.
Falta de acesso a medicamentos, falta de formação profissional adequada, falta de políticas públicas efetivas em cuidados paliativos, entre outras causasjustificam esse triste cenário. A situação evidentemente é mais grave em países em desenvolvimento como o Brasil.
Para o Dr. Rodolfo Moraes ainda há um longo caminho a ser percorrido nesse sentido, passando pela entrada dos cuidados paliativos em todas as graduações de saúde, criação de redes de atenção que incluam os cuidados paliativos na prática e programas de humanização.
“Localmente podemos avançar ampliando e capacitando equipes, exigindo dos gestores de saúde compromisso para com o alívio do sofrimento humano”, comenta.
O Erro é Chamar de Fim
Comprometido em transformar essa realidade, o Dr. Rodolfo Moraes vai além do atendimento aos pacientes.
Atua na formação de médicos paliativistas, compartilhando conhecimentos, difundindo práticas baseadas em evidências e promovendo as abordagens mais inovadoras adotadas pela medicina paliativa no mundo.
Pesquisador e autor de artigos científicos, também reúne sua experiência e reflexões no livro “O Erro é Chamar de Fim”, obra que convida profissionais de saúde e a sociedade a repensarem a forma como os cuidados paliativos são compreendidos e praticados.
Quem é
Dr. Rodolfo Moraes é médico paliativista, mentor e autor do livro “O Erro é Chamar de Fim”. Atua no cuidado integral de pessoas com doenças graves e de suas famílias, com foco no controle de sintomas, na comunicação humanizada, no planejamento compartilhado do cuidado e na promoção da qualidade de vida.
Além da assistência clínica, integra as equipes do Hospital São Joaquim, da Santa Casa e do Hospital do Câncer de Franca.
Também se dedica à formação de médicos paliativistas, à pesquisa científica e à divulgação dos cuidados paliativos no Brasil, contribuindo para ampliar o acesso ao conhecimento e combater os estigmas que ainda cercam a especialidade.