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Cientistas apostam em pílulas de efeito rápido para tratar depressão

  • Cesar Colleti
  • Publicado em 25 de junho de 2018 às 00:05
  • Modificado em 8 de outubro de 2020 às 18:49
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Especialistas apostam em inovação, com substâncias de efeito rápido e efeitos em diferentes áreas cerebrais

Desde 1986, com o surgimento do
cloridrato de fluoxetina, mais conhecido como Prozac, o tratamento psiquiátrico
passou por uma revolução.

O famoso medicamento faz parte do
grupo de inibidores seletivos de recaptura da serotonina (ISRS), que aumentam a
produção do neurotransmissor no cérebro, aliviando os sintomas depressivos. 

Esses remédios se tornaram o carro-chefe no tratamento da depressão, mas nem
todos os pacientes respondem como esperado. Por isso, investigadores se
empenham na busca por novas opções terapêuticas, no que se tornou um dos
grandes desafios da pesquisa neurocientífica moderna.

Sarah Bailey, professora do
Departamento de Farmácia e Farmacologia da Universidade de Bath, no Reino
Unido, e sua equipe trabalham com o BU10119, que bloqueia receptores cerebrais
chamados opioides kappa.

Em uma série de testes de laboratório,
camundongos que receberam a substância demonstraram efeitos semelhantes aos
causados pelos antidepressivos ISRS. “Em 20 anos de pesquisa, é o mais próximo
que cheguei de um novo composto que pode se traduzir para a clínica. É
promissor, mas ainda estamos em um estágio inicial. Mais pesquisas são
necessárias, por exemplo, para estabelecer segurança”, diz a cientista, que
detalhou os resultados do trabalho em um artigo publicado na revista
 British Journal of Pharmacology.

Um trabalho em andamento de cientistas
da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, chama a atenção pela rapidez
dos efeitos provocados. A equipe descobriu que a inibição da enzima Glyoxalase
1 (GLO1) extinguiu sinais do transtorno psiquiátrico em camundongos em apenas
cinco dias —  o Prozac levou 14 dias. “Estamos felizes com o resultado e
acreditamos que uma melhor compreensão dos fundamentos moleculares e celulares
da depressão nos ajudará a encontrar novas maneiras de inibir ou neutralizar
seu início e sua gravidade”, comemorou Abraham Palmer, professor de psiquiatria
na universidade e um dos autores do estudo, publicado na revista Molecular
Psychiatry.

Segundo Rafael Vinhal, psiquiatra e
membro da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), considerando a incidência
da depressão no mundo, pesquisas como a britânica e a americana são
extremamente necessárias. “Sabemos que uma em cada seis pessoas vai ter essa
doença ao longo da vida, o que a transforma em um problema de saúde pública.
Com o risco relacionado, principalmente, ao comportamento suicida, é
extremamente importante o investimento em outras estratégias de tratamento”,
destacou. “Mesmo que essas pesquisas ainda sejam iniciais, elas são esperanças
para terapias mais completas e que atinjam um número maior de pacientes.”

Anestésico

Outra aposta no manejo da depressão
refratária — que não responde aos tratamentos usuais — é baseada no uso de um
medicamento de propriedades anestésicas, inicialmente usado em medicina
veterinária: a cetamina. Estudos com ratos revelaram que essa substância atua
no cérebro bloqueando receptores excitatórios do tipo NMDA, que controlam
inúmeras funções inerentes à plasticidade sináptica, como aprendizagem e
memória, e promovem a neurogênese (criação de neurônios). “Hoje, estão sendo
feitos grandes esforços para levar a cetamina ao mercado, padronizar seu uso e
determinar sua eficácia no mundo real”, explicou Carlos A. Zarate Jr.,
pesquisador do Instituto Nacional de Saúde Mental (NIMH, em inglês), dos EUA.

Zarate Jr. e seus colaboradores de
pesquisa analisaram estudos de neuroimagem sobre os efeitos da droga no cérebro
humano e no comportamento de pacientes. A equipe detectou alterações induzidas
pela cetamina em áreas cerebrais envolvidas no desenvolvimento da depressão.
Também descobriu que a droga produziu reduções iniciais nos sintomas
depressivos em duas horas, com efeitos de pico em 24 horas. “Ela ainda pode
reduzir rapidamente os pensamentos suicidas. Combinada com outros medicamentos,
produziu efeitos antidepressivos rápidos em pacientes com depressão bipolar
resistente ao tratamento”, detalhou o cientista, em um estudo publicado na
revista Harvard Review of Psychiatry.

Psicodélicos

Ricardo Sachser, psicólogo e
neurocientista mestre em memória pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul
(UFRGS), destaca que, além do crescente interesse pela cetamina, drogas
psicodélicas, como LSD, DMT e DOI, emergem como  promissoras no tratamento
da depressão e de outros transtornos do humor. “Segundo um estudo publicado, na
semana passada, na revista Cell Reports, liderado por David Olson, da
Universidade da Califórnia, assim como a cetamina, drogas psicodélicas promovem
alterações essenciais na arquitetura (forma) e na fisiologia (função) dos
neurônios”, explicou.

Apesar de as investigações serem
iniciais, Sachser é otimista quanto ao futuro das pesquisas. “Evidentemente que
ainda são ensaios pré-clínicos em roedores, porém, com base nos recentes
avanços da pesquisa translacional (da bancada à clínica), certamente, muito em breve,
teremos novos tratamentos disponíveis para humanos, e de ação mais rápida.”

Foco em terapias auxiliares

O combate à depressão tem contado com outras opções
terapêuticas. Um desses recursos é o exercício físico, que pode servir como
terapia complementar e uma estratégia preventiva.

É o que mostra Felipe Barreto Schuch, professor da
Universidade La Salle, no Rio Grande do Sul. O brasileiro é um dos autores de
uma revisão científica que analisou dados de 267 mil pessoas na América do
Norte, Europa e Oceania sobre níveis de atividade física e risco de depressão. “Encontramos
evidências claras de que as pessoas que são mais ativas têm menor risco de
desenvolver a doença, e isso ocorre independentemente da idade e de onde elas
moravam. A atividade física pode reduzir o risco de ter depressão mais tarde na
vida”, destacou Schuch.

Os participantes dos 49 estudos analisados não
tinham doença mental no começo das investigações e foram acompanhados por pelo
menos sete anos. Os resultados do trabalho foram divulgados na revista
especializada Jama.

Segundo Schuch, outros exercícios, como a ioga, têm
se mostrado eficazes no tratamento da depressão. “Uma das nossas hipóteses é de
que a atividade física aumenta a regulação neuronal, a quantidade e a
velocidade de neurônios que vão maturando no cérebro. Nós também sabemos que a
doença está ligada à diminuição dessas células”, detalhou o especialista.

O pesquisador brasileiro ressalta que os
medicamentos são extremamente importantes, mas as atividades extras podem
aumentar as chances de melhora. “Essas terapias, com certeza, podem auxiliar,
até porque, agora, sabemos que a doença é mais complicada do que parece, com
várias causas. Não podemos apenas regular a dopamina e a serotonina, por
exemplo. Por isso, o controle da depressão pede várias frentes de combate”,
completou.


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