As redes sociais abriram espaço para uma discussão importante sobre saúde masculina, mas também transformaram informações sem comprovação em verdade para milhões de usuários.
Recentemente, um dos conteúdos que viralizaram afirmava que homens estavam deixando de tomar banho e usar desodorante para “ativar” os próprios feromônios antes de encontros.
A prática, batizada nas redes de pheromone-maxxing, parte da ideia de que o cheiro natural do corpo seria capaz de aumentar a atração. Outra tendência que ganhou força envolve o uso de testosterona para melhorar desempenho físico e sexual.
Mas o que realmente é verdade e o que não é? Para o urologista Ruimário Coelho, o primeiro cuidado é justamente desconfiar de soluções fáceis para questões complexas de saúde.
Palavra de especialista
“A gente vê hoje as redes sociais como um excelente espaço para discussão e, principalmente, de incentivo ao cuidado com a saúde e o bem-estar. Mas, antes disso, as redes podem ser grandes armadilhas”, diz Ruimário Coelho.
Segundo o médico, “os homens historicamente cuidam menos da saúde e, claro, a rede traz uma comodidade muito grande, sobretudo quando se ouve o que se quer ouvir. Mas é preciso tomar alguns cuidados, pois há muita informação falsa circulando”.
Para isso, confira alguns pontos que andam circulando por aí com o comentário do urologista comentar.
Feromônios humanos: deixar de tomar banho aumenta a atração?
Mito. A ideia de que o homem pode potencializar a atração sexual simplesmente deixando de usar desodorante ou evitando o banho não tem comprovação científica.
Embora a comunicação química exista em diversas espécies, a existência de um feromônio humano capaz de provocar uma resposta sexual específica ainda não foi demonstrada de forma conclusiva.
Isso não significa que o cheiro corporal seja irrelevante nas relações humanas. O olfato participa da percepção e das interações sociais, mas é muito diferente afirmar que o odor natural do corpo funcione como um “ímã sexual” que possa ser ativado de propósito.
Para Ruimário, esse é um exemplo de como uma informação que parece curiosa pode ganhar proporções de recomendação de saúde ou comportamento sem que exista evidência suficiente para isso.
Testosterona melhora desempenho e aparência?
Depende. O uso sem indicação pode trazer problemas. A testosterona é um hormônio essencial para o organismo masculino, mas isso não significa que níveis maiores sejam necessariamente melhores.
A reposição hormonal pode ter indicação médica em determinados pacientes, mas não deve ser confundida com o uso do hormônio para ganho de massa muscular, performance ou estética.
“O uso indiscriminado de testosterona pode interferir na produção natural do hormônio e na produção de espermatozoides, comprometendo a fertilidade. O risco é especialmente importante para homens que desejam ter filhos”, alerta o urologista.
Além disso, níveis hormonais elevados podem acelerar processos relacionados à queda de cabelo em homens geneticamente predispostos. Por isso, a busca por testosterona como estratégia estética ou de performance precisa ser encarada com cautela.
“A diferença do remédio para o veneno é a dose. É importante diferenciar a reposição de testosterona para quem realmente precisa do uso abusivo do hormônio. Pessoas que querem ter filhos também precisam tomar cuidado com a reposição”, explica Ruimário..
Problemas de ereção significam apenas falta de testosterona?
Mito. A queda no desempenho sexual nem sempre está relacionada aos hormônios. A disfunção erétil pode estar associada a uma série de fatores, incluindo obesidade, diabetes, hipertensão, alterações cardiovasculares, sedentarismo, consumo de álcool, tabagismo e aspectos emocionais.
Por isso, tratar apenas o sintoma, sem investigar a causa, pode fazer com que problemas importantes de saúde passem despercebidos.
“O homem muitas vezes procura o urologista porque está tendo uma dificuldade sexual e acaba descobrindo que precisa cuidar da pressão, do peso, da glicemia ou de outros fatores. A função sexual também pode ser um sinal de como está a saúde como um todo”, explica Ruimário.
A orientação vale especialmente para homens que apresentam uma mudança persistente no desempenho sexual. Em vez de buscar soluções rápidas encontradas na internet, a avaliação médica pode ajudar a identificar se existe uma condição de saúde por trás da queixa.
Canetas para emagrecer são seguras?
Depende. Se prescritas por médicos e com acompanhamento adequado, sim. Caso contrário, não. Os medicamentos agonistas do receptor GLP-1, popularmente conhecidos como “canetas emagrecedoras”, têm indicações médicas específicas e devem ser utilizados com prescrição e acompanhamento profissional.
O problema está na compra de produtos de origem desconhecida, no uso de medicamentos sem registro ou na utilização em doses e situações diferentes das recomendadas.
A própria Anvisa vem adotando medidas contra produtos irregulares comercializados como canetas emagrecedoras.
Riscos associados
Em setembro de 2026, por exemplo, a Agência proibiu a comercialização e o uso de um produto denominado T36, que não possuía registro sanitário no Brasil e não havia passado por avaliação de segurança e eficácia no país.
A Agência também já alertou para riscos associados ao uso indevido de medicamentos dessa classe, incluindo casos de pancreatite aguda, reforçando que esses produtos devem ser utilizados conforme as indicações aprovadas e sob acompanhamento de profissional habilitado.
“Não é porque um medicamento ficou popular nas redes sociais que ele pode ser usado por qualquer pessoa. É preciso saber qual é o produto, sua procedência, a indicação, a dose e como fazer o acompanhamento”, alerta o urologista.
Informação de saúde nas redes sociais pode substituir uma consulta?
Nunca. Vídeos curtos, relatos pessoais e conteúdos de influenciadores podem ajudar a despertar o interesse pelo cuidado com a saúde, mas não substituem a avaliação individualizada.
Para o especialista, o principal risco está em transformar a experiência de uma pessoa em uma regra geral. Um sintoma pode ter diferentes causas e um tratamento que funciona para determinado paciente pode não ser adequado para outro.
“Não dá para acreditar em tudo que vê. Informação pode ser o primeiro passo para procurar ajuda, mas não pode ser o último. Quando existe uma dúvida ou um sintoma persistente, é preciso investigar”, finaliza Ruimário.




