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Meu pai…

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Meu pai era aquela espécie de pessoa a quem chamam de boa prosa. Falante, espirituoso, alegre, extrovertido, pândego. Nasceu no tempo em que o fogão era de lenha, as estradas eram de terra e os carros eram de boi e que a palavra dada valia mais que qualquer assinatura.

Que eu me lembre sempre foi careca, mesmo nas raras fotos mais moço. Gostava de usar um bigode, que não devia crescer nunca, pois mesmo estando com a barba por fazer o bigode permanecia sempre igual. Usava uns óculos quadrados e grandes, com as lentes grossas, de quem enxerga pouco. Tão pouco que muitas vezes não via como o vidro estava sujo e embaçado, dificultando ainda mais a visão.  Quando alguém se oferecia pra lavar, enquanto aguardava a limpeza ficava fazendo um barulho característico com a boca, que nem era assovio e nem era assopro.

Pensando nele agora, posso dizer que papai, apesar de simples, tinha um “estilo” próprio e bom gosto nas escolhas.

Usava um chapéu de palha na cabeça, que punha cedo e só tirava de noite ou por educação. Não entendia de grifes mas gostava dos Panamá. Mais pro fim da vida trocou o chapéu por uma boina de veludo cotelê, isso, nem eu sei porque.

A camisa, sempre de cor clara, gostava que fosse fresca e de algodão, com bolso, para guardar as palhas e o cigarro. Quando parou de fumar arrumou outra serventia, punha os papeis da loteria do Silvio Santos. Era fã. Usava sempre enfiada pra dentro da calça deixando o cinto aparecer. Ficava bom, pois era magro, nunca teve barriga e nunca foi gordo. Engraçado, porque vivia de arroz. E ovo.

As calças, de casimira inglesa, nunca comprou pronta, minha mãe mandava fazer num alfaiate conhecido. E meu pai nem lá ia pra experimentar. Era o costume. Mamãe levava uma de modelo pra tirar o molde e a casimira também levava ou comprava lá. Alguém pode pensar que papai era chic, porque só gostava da tal casimira inglesa, mas num era. Ele era comerciante e entendido de pano e dizia que esse era o melhor. Parece que é, até hoje…  

Suas calças tinham sempre 5 bolsos – 2 atrás, onde punha o lenço, 2 na frente, onde guardava dinheiro, o canivete, algum documento; e a gibeira, onde se usava pôr antigamente o relógio de bolso. Papai tinha um, ômega de bolso, que gostava de dar corda e colocar no ouvido dos netos. Era o som do avô. 

O sapato, preto, usava só de amarrar, mas o cadarço ficava solto. Eu implicava com aquilo, achando que ele poderia levar um tombo. Nunca levou. Gostava de um modelo bem clássico, que me parecia duro, com corte e costura transversal no peito do pé e furos no couro formando uma espécie de arabesco – hoje se chama brogue. Lembro de uma vez que comprou 3 pares do mesmo. Não variava nem a cor.

O canivete e o relógio de bolso eram para papai mais que objetos de utilidade. Acho que eram uma espécie de companheiros um do outro, pois mesmo velho, com a lâmina estreita e gasta pelo uso, meu pai nunca pegou um canivete novo. E ganhava muitos de presente. Olhava, achava bonito, agradecia e esquecia na gaveta do criado. Cortando fumo, descascando frutas ou salvando meu pai em alguma hora de necessidade, lå estava sempre o mesmo e velho companheiro. Sobre o relógio, a mesma coisa… herdou um Ômega ferradura de bolso, de ouro, do meu avô, mas nunca usou. Preferia o seu! Questão de amizade!

Como tudo mudou! Hoje as coisas estão tão descartáveis. Evolução? Desapego? Creio que não; pra mim tem muito de desvalorização.

Papai ja se foi ha tanto tempo… Gostaria muito que estivesse aqui. Fizemos muita coisa na sua ausência, ele haveria de gostar. Restou a saudade, as lembranças, a história… e os objetos! Um chapéu, um reløgio e um canivete. Objetos sem muito valor financeiro, mas de extremo valor afetivo.

Pequenos objetos inanimados, que mesmo depois de tantos anos ainda conservam odores e o poder de desencadear lembranças e emoções que nos trazem papai de volta. 

Autor

Bernardo Teixeira

Redação · Jornal da Franca

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Atualizado 23/09/2026 22h30
Notas de falecimento
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  • CLEVER LOURENCO PIRES Falecimento 23/09/2026
  • JOSE ANTONIO REZENDE Falecimento 23/09/2026

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