Estudo com 2.473 adolescentes relaciona alimentação à miopia e aponta menor risco entre jovens com maior adesão à dieta mediterrânea
Uma alimentação equilibrada pode ter relação também com a saúde dos olhos. É o que sugere um estudo publicado no British Journal of Nutrition, que analisou dados de 2.473 adolescentes entre 12 e 18 anos e encontrou uma associação entre a qualidade da alimentação e a ocorrência de miopia.
A pesquisa avaliou a adesão dos participantes a um padrão alimentar semelhante à dieta mediterrânea, caracterizado pela maior presença de alimentos como frutas, verduras, legumes, cereais integrais, peixes e gorduras consideradas saudáveis.
Entre os adolescentes que apresentaram maior adesão a esse padrão alimentar, a chance de miopia foi cerca de 41% menor do que entre aqueles com menor adesão.
O estudo, porém, é observacional e não permite afirmar que a alimentação, isoladamente, seja responsável pela prevenção da doença.
O que a alimentação tem a ver com a visão
A relação entre dieta e miopia vem sendo investigada porque a alimentação influencia diversos processos do organismo, incluindo metabolismo, circulação e disponibilidade de nutrientes.
O oftalmologista Leôncio Queiroz Neto, diretor executivo do Instituto Penido Burnier e membro fundador da Academia Brasileira de Controle da Miopia e Ortoceratologia (ABRACMO), explica que a esclera — a parte branca do olho — funciona como uma espécie de estrutura de sustentação do globo ocular.
Segundo o especialista, alterações metabólicas podem interferir em mecanismos envolvidos na saúde ocular. Ele ressalta, porém, que alimentação e suplementação não devem ser consideradas tratamentos isolados para uma miopia já estabelecida.
A própria pesquisa publicada no British Journal of Nutrition aponta uma associação entre qualidade da dieta e menor probabilidade de miopia, mas não demonstra uma relação direta de causa e efeito.
Tempo ao ar livre também merece atenção
Outro fator que vem sendo estudado na prevenção da miopia é o tempo que crianças e adolescentes passam ao ar livre.
Uma revisão de estudos envolvendo mais de 12 mil participantes de 6 a 16 anos encontrou associação entre maior exposição a atividades externas e menor risco de desenvolver miopia.
Os pesquisadores observaram que o efeito é mais consistente na prevenção do surgimento da miopia do que no controle da progressão em quem já apresenta o problema.
Por isso, atividades ao ar livre podem fazer parte de uma rotina saudável para crianças e adolescentes. A recomendação, entretanto, não significa expor os olhos diretamente ao sol ou abandonar outros cuidados de saúde.
Quais sinais podem indicar miopia
A dificuldade para enxergar objetos distantes pode passar despercebida pela criança, principalmente quando ela ainda não sabe identificar que sua visão está diferente.
Alguns sinais que merecem atenção dos pais são apertar os olhos para enxergar de longe, aproximar-se excessivamente da televisão ou de telas, apresentar dificuldade para acompanhar atividades escolares ou evitar brincadeiras que dependam de enxergar objetos à distância.
Dor de cabeça frequente e queda no rendimento escolar também podem aparecer, embora tenham diversas outras causas.
Por isso, o acompanhamento oftalmológico é importante, principalmente quando há histórico familiar de miopia ou quando os responsáveis percebem alguma alteração na visão.
Telas e esforço visual
O aumento do tempo diante de celulares, tablets, computadores e outros dispositivos também é considerado um dos fatores ambientais relacionados à saúde visual infantil.
O especialista ouvido para a reportagem chama atenção para o esforço visual prolongado em atividades de perto e recomenda a chamada regra 20-20-20: depois de aproximadamente 20 minutos de atividade próxima, fazer uma pausa e olhar por cerca de 20 segundos para um ponto distante, a aproximadamente 20 pés — cerca de seis metros.
A medida pode ajudar a reduzir o cansaço visual, embora não deva ser apresentada como tratamento capaz de reverter uma miopia estrutural.
Tratamentos podem controlar a progressão
Quando a criança já apresenta miopia, existem estratégias específicas para controlar sua progressão. Entre elas estão determinados tipos de lentes de contato, ortoceratologia e colírios à base de atropina em baixas concentrações, sempre com indicação e acompanhamento de oftalmologista.
Revisões sistemáticas recentes encontraram evidências de que algumas dessas abordagens podem reduzir a progressão da miopia em crianças. A escolha depende da idade, do grau, da evolução do quadro e das características de cada paciente.
A alimentação equilibrada, o tempo adequado ao ar livre, o controle do uso de telas e o acompanhamento oftalmológico, portanto, fazem parte de um conjunto de cuidados que pode contribuir para a saúde visual durante a infância e a adolescência.
Mais do que buscar um único alimento ou hábito capaz de “curar” ou impedir a miopia, a orientação é olhar para a saúde ocular de forma ampla e procurar avaliação profissional diante de qualquer alteração na visão.
Fonte: Notícias ao Minuto




