Abuso sexual, físico e emocional em crianças deixa marcas no DNA

  • Cesar Colleti
  • Publicado em 7 de outubro de 2018 às 21:03
  • Modificado em 8 de outubro de 2020 às 19:04
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Estudo revela que marca genética é tão profunda que produz alterações no DNA e pode passar a gerações futuras

Crianças que sofrem abuso sexual,
físico e emocional podem apresentar não apenas cicatrizes físicas e
psicológicas, mas também genéticas.

Estudo feito pelas Universidades de
British Columbia, no Canadá, e Harvard, nos EUA, revela ainda que a marca
genética é tão profunda que produz alteração no DNA e pode, ao menos em tese,
ser transmitida para gerações futuras.


Há tempos especialistas sabem que vítimas de abusos na infância carregam por
toda vida os danos emocionais decorrentes. Mas queriam checar se o dano poderia
chegar aos genes. O trabalho, publicado na Translational Psychiatry, foi
baseado na comparação de marcadores químicos presentes no DNA de 34 homens
adultos que haviam sofrido diferentes tipos de abuso.

As alterações constatadas no DNA são
criadas por um processo chamado metilação. Segundo os autores do estudo, a
melhor metáfora é imaginar que ele funciona como uma espécie de interruptor do
tipo dimmer nos genes, determinando em que grau um gene em particular é ativado
ou não. Os mecanismos de “ligar” e “desligar” genes são
estudados no campo da epigenética. Acredita-se que há uma forte influência de
fatores externos, relacionados ao ambiente e às experiências de vida, na
expressão genética.


De acordo com os especialistas, as pessoas expostas a abusos continuados
apresentam uma liberação acima da média do hormônio cortisol, o chamado
hormônio do estresse.

Originalmente, ele é liberado para
induzir uma resposta imediata do organismo e foi muito útil aos nossos
ancestrais para escapar de predadores. O nível do cortisol cai imediatamente
quando o perigo se dissipa. Porém, em casos de abusos continuados, a liberação
excessiva do hormônio provoca as alterações genéticas – as metilações fora de padrão.

Os cientistas decidiram buscar por
sinais de metilação em espermatozoides, na premissa de que o estresse na
infância deixaria marcas genéticas que poderiam até ser repassadas aos
descendentes, como já havia sido demonstrado em estudo com animais. “Os
resultados encontrados em camundongos foram assustadores”, contou a
coautora do estudo, Nicole Gladish, da British Columbia. “Filhotes de
roedores submetidos a choques herdaram dos pais as marcas genéticas e
apresentavam reações de medo quando achavam que seriam submetidos a uma
descarga elétrica.”


Os cientistas encontraram uma diferença significativa na metilação de vítimas e
não vítimas de abuso em 12 regiões dos genomas. O estudo não demonstra
consequências a longo prazo. O que se sabe até agora, diz Nicole, é que as
alterações afetaram genes ligados à função cerebral e ao sistema imunológico.

Evidências

Para a geneticista Lygia da Veiga
Pereira, da Universidade de São Paulo (USP), os resultados vêm “se somar a
uma série de evidências obtidas nos últimos anos de que experiências que a
gente vive modificam nosso DNA”. “É um trabalho interessante, que
pela primeira vez mostra que há alteração no espermatozoide. Mas tem
limitações, como ter avaliado um número pequeno de indivíduos. É uma primeira
evidência, mas ainda não sabemos o que ela pode representar.”