A maioria das pessoas conhece alguém com doença de Alzheimer. Enquanto eu crescia, minha avó enfrentou a demência, e vi de perto o quão difícil isso foi para a nossa família.
Essa experiência foi uma das razões pelas quais me tornei um neurotoxicologista que estuda como proteínas com conformação alterada e a inflamação no cérebro podem aumentar com o tempo e causar demência. Embora existam formas de tratar os sintomas da demência, os pesquisadores ainda buscam uma cura.
A doença de Alzheimer e outros tipos de demência são difíceis de estudar, em parte porque o diagnóstico precoce em humanos é um desafio. Essas doenças geralmente começam a se desenvolver duas décadas antes do surgimento da maioria dos sintomas que levariam alguém a procurar um médico.
Envelhecimento cerebral
Como resultado, a maioria dos pesquisadores utiliza modelos de camundongos para testar terapias potenciais para o Alzheimer. No entanto, os efeitos de medicamentos desenvolvidos em camundongos raramente se traduzem em resultados para humanos.
De fato, 99% dos medicamentos desenvolvidos para Alzheimer que se mostraram promissores em laboratório falharam em ensaios clínicos com humanos. O envelhecimento cerebral é difícil de estudar em camundongos, pois eles não apresentam naturalmente o acúmulo de proteínas com conformação alterada observado na demência.
Pesquisadores podem modificar geneticamente camundongos para mimetizar o que ocorre no cérebro humano, mas é difícil reproduzir todos os aspectos da demência em um único animal.
Demência
Assim, cientistas decidiram pesquisar outros animais que apresentam naturalmente alterações cerebrais semelhantes às observadas em pessoas com Alzheimer ou demência. Uma espécie específica que se mostra promissora como modelo para o estudo de doenças neurodegenerativas é o cão idoso.
Em nossa pesquisa recém-publicada na revista npj Dementia, meus colegas e eu demonstramos que o cérebro de cães idosos sofre alterações semelhantes às do cérebro humano com demência.
Destacamos a importância dos cães de companhia como um modelo natural de neurodegeneração que pode auxiliar pesquisadores no desenvolvimento de melhores diagnósticos e tratamentos para essa doença.
Doenças cerebrais em cães e humanos
Nosso trabalho com cães idosos começou com o desejo de desenvolver tratamentos melhores para a demência. Existiria uma maneira melhor de estudar as proteínas tóxicas causadoras da doença do que utilizando camundongos?
Na mesma época, descobri que cães também desenvolvem demência e estabeleci uma parceria com minha colega Stephanie McGrath, uma neurologista veterinária que estuda cães de companhia com doenças cerebrais. Ela se interessava pela síndrome de disfunção cognitiva canina, uma condição semelhante à demência em humanos.
A disfunção cognitiva canina afeta mais de um quarto dos cães com mais de 12 anos. Esse tipo de demência pode ser diagnosticado por meio de questionários sobre sintomas observados pelos tutores em seus cães. No entanto, as proteínas anormais que causam demência em cães ainda não haviam sido estudadas a fundo.
Para estudar a disfunção cognitiva canina — e, potencialmente, a demência em humanos —, precisávamos entender como o cérebro dos cães de companhia envelhece.
Comparação de cérebros
Em parceria com a neuropatologista Caitlin Latimer, minha equipe e eu buscamos comparar os cérebros de cães com disfunção cognitiva canina aos de pessoas com doença de Alzheimer. Os tutores consentiram com a doação de amostras cerebrais de seus cães idosos para este estudo.
Os animais haviam falecido de causas naturais ou sido submetidos à eutanásia por decisão dos tutores — em consulta com a equipe veterinária responsável — para evitar um maior declínio em sua qualidade de vida.
Utilizando os mesmos métodos de análise laboratorial empregados no exame de amostras humanas, identificamos depósitos anormais de proteínas nas mesmas regiões cerebrais observadas em pessoas com estágios iniciais de demência.
Doença cerebral
Investigamos, então, se marcadores sanguíneos comumente associados ao Alzheimer em humanos apresentariam alterações semelhantes nos cães com disfunção cognitiva.
Nos cães que apresentavam altos níveis de depósitos proteicos anormais no cérebro, observamos também concentrações incomumente elevadas de proteína ácida fibrilar glial (GFAP).
Como a GFAP normalmente só é detectada no sangue em casos de lesão ou doença cerebral, ela pode representar um biomarcador promissor, capaz não apenas de auxiliar no diagnóstico de cães com declínio cognitivo, mas também de fornecer informações valiosas sobre a progressão da demência em humanos.
O envelhecimento em cães e humanos
Existem outras iniciativas em andamento para compreender o processo de envelhecimento dos cães.
O *Dog Aging Project* (Projeto de Envelhecimento Canino) é um estudo longitudinal que acompanha mais de 50.000 cães de companhia, buscando entender melhor os fatores biológicos, genéticos e ambientais que influenciam o envelhecimento de todo o organismo, incluindo o cérebro.
Por exemplo, o projeto desenvolveu uma bateria de testes cognitivos caninos que permite aos pesquisadores estudar alterações precoces na cognição e no comportamento, antes mesmo de o animal manifestar sintomas neurológicos.
Alterações patológicas
Com esses dados, é possível estabelecer uma relação entre as alterações patológicas no cérebro e as mudanças comportamentais.
Compreender melhor como o cérebro canino envelhece pode ajudar a esclarecer por que alguns cães ou pessoas desenvolvem demência enquanto outros não.
Por meio desse trabalho, os pesquisadores poderão descobrir novos tratamentos e detectar a demência em estágios mais iniciais.




