Ondas de calor, alterações no sono, mudanças de humor e ganho de peso costumam estar entre os efeitos mais conhecidos da menopausa. Menos comentadas são as transformações que também podem ocorrer na região íntima.
Com a redução dos níveis de estrogênio, os tecidos da vulva e da vagina passam por mudanças. Ressecamento, afinamento da mucosa, perda de elasticidade e alterações no volume e no contorno da região genital podem aparecer nessa fase da vida.
Algumas mulheres percebem apenas uma mudança na aparência. Outras passam a sentir ardência, irritação, desconforto durante as relações sexuais ou incômodo provocado pelo atrito com roupas e durante atividades físicas.
Segundo a médica Dra. Mirelle Ossipi Ruivo, especialista em medicina estética e regenerativa e fundadora da Mulherez, clínica especializada em saúde, estética e bem-estar feminino, com atuação também em tratamentos e cirurgias íntimas, falar sobre essas transformações ainda é difícil para muitas pacientes.
Palavra de quem entende
“A mulher sabe que a pele muda, que o cabelo pode mudar e que o corpo passa por transformações com a menopausa. Mas poucas chegam preparadas para as mudanças que também podem acontecer na vulva e na vagina. Muitas percebem algo diferente e simplesmente não sabem se aquilo faz parte do envelhecimento”, explica.
O estrogênio tem papel importante na manutenção das características dos tecidos genitais e urinários. Com sua redução, principalmente durante e após a menopausa, podem ocorrer alterações na espessura, hidratação e elasticidade desses tecidos.
Parte dessas manifestações integra a chamada síndrome geniturinária da menopausa, que pode envolver sintomas vaginais, vulvares, sexuais e urinários.
Além das alterações hormonais, o envelhecimento natural, gestações, partos, oscilações importantes de peso e características individuais também influenciam a anatomia da região íntima ao longo da vida.
“Não existe uma única causa e também não existe uma transformação igual para todas. Algumas mulheres apresentam mais ressecamento, outras percebem perda de volume nos grandes lábios, flacidez ou mudanças que já existiam e passam a incomodar mais nessa fase”, afirma Mirelle.
Quando a mudança deixa de ser apenas estética
A aparência da vulva apresenta grande variação entre as mulheres e não existe um padrão anatômico que determine sozinho a necessidade de tratamento. Em alguns casos, porém, determinadas alterações podem vir acompanhadas de queixas funcionais.
Excesso ou projeção dos pequenos lábios, por exemplo, pode provocar atrito, desconforto com roupas justas, incômodo durante exercícios ou relações sexuais.
É nesse contexto que algumas mulheres chegam ao consultório interessadas em procedimentos conhecidos como cirurgias íntimas.
Entre eles está a ninfoplastia, cirurgia que pode reduzir ou remodelar os pequenos lábios em pacientes que apresentam indicação.
“A cirurgia íntima não deve ser apresentada como uma forma de adequar a mulher a um padrão estético. Existem pacientes que procuram o procedimento porque têm uma queixa funcional, outras apresentam também um incômodo com a aparência. Precisamos entender a motivação e avaliar individualmente”, explica Mirelle. A menopausa, por si só, não representa indicação de cirurgia.
Nem toda alteração é tratada da mesma maneira
Essa diferenciação é especialmente importante porque sintomas que parecem semelhantes podem ter origens diferentes.
Uma mulher que apresenta principalmente ressecamento e dor durante as relações, por exemplo, pode precisar de uma abordagem diferente daquela que apresenta excesso de tecido causando atrito ou desconforto mecânico.
Dependendo da avaliação, as possibilidades podem envolver hidratantes e lubrificantes vaginais, terapias hormonais quando indicadas e acompanhadas pelo profissional responsável, além de outras abordagens médicas. Quando há uma questão anatômica específica, procedimentos cirúrgicos podem ser discutidos.
“Antes de falar em procedimento, precisamos identificar o que está provocando o incômodo. Não faz sentido indicar cirurgia para uma alteração cuja origem é predominantemente hormonal, assim como determinadas queixas anatômicas não serão resolvidas apenas tratando o ressecamento”, afirma Mirelle.
Um assunto que muitas mulheres ainda evitam no consultório
O silêncio em torno das mudanças íntimas pode fazer com que algumas mulheres convivam durante anos com sintomas que interferem na vida sexual, na prática de exercícios ou simplesmente na maneira como se sentem em relação ao próprio corpo.
E há um componente geracional importante. Mulheres que chegam atualmente à menopausa atravessam essa fase com expectativa de vida, atividade profissional, prática esportiva e vida sexual muito diferentes das gerações anteriores.
Para Mirelle, isso também ajuda a explicar por que questões antes pouco discutidas começaram a chegar com maior frequência aos consultórios.
Desconforto
“Não significa que as mulheres de hoje tenham mais problemas íntimos. Elas estão mais dispostas a falar sobre situações que antes eram silenciadas. Dor na relação, ressecamento ou desconforto com a própria anatomia não precisam ser tratados como assuntos proibidos simplesmente porque fazem parte de uma região íntima”, afirma.
A especialista ressalta que mudanças decorrentes do envelhecimento não representam automaticamente doença ou necessidade de intervenção.
“O objetivo não é transformar uma mudança natural do corpo em problema. É permitir que a mulher saiba o que está acontecendo e entenda que, se aquilo estiver interferindo no conforto, na sexualidade ou na qualidade de vida, existem formas de avaliar e tratar cada situação”, conclui.




