
Durante muito tempo, o resultado de um exame dependia do olhar de um único profissional diante de uma tela, uma radiografia ou uma sequência de imagens.
Agora, esse processo começa a ganhar um novo participante: sistemas capazes de analisar grandes volumes de dados, reconhecer padrões e apontar alterações que merecem atenção.
A inteligência artificial já entrou em diferentes etapas da saúde e começa a mudar também a forma como exames são interpretados e tratamentos são planejados.
Em 2024, 81% dos médicos entrevistados pela American Medical Association (AMA) afirmaram utilizar ferramentas de inteligência artificial em sua prática profissional.
O levantamento, realizado com quase 1.700 médicos, identificou usos para diferentes tarefas, como síntese de pesquisas, produção de documentos e apoio à tomada de decisões clínicas.
Vigilância de doenças
A Organização Mundial da Saúde (OMS), na publicação Ethics and governance of artificial intelligence for health, aponta que a inteligência artificial já apresenta aplicações potenciais em diagnóstico, tratamento, pesquisa em saúde, desenvolvimento de medicamentos e vigilância de doenças.
O documento, elaborado a partir de discussões com especialistas em saúde, tecnologia, direito e direitos humanos, também chama atenção para a necessidade de avaliar os riscos envolvidos nesse uso.
Em exames de imagem, algoritmos treinados com grandes conjuntos de dados conseguem reconhecer determinados padrões e sinalizar alterações para que sejam avaliadas pelo profissional. É esse tipo de uso que começa a aproximar a inteligência artificial de uma etapa central do atendimento: a interpretação dos exames.
O que a IA já faz na odontologia?
A tecnologia vem ocupando espaço em diferentes etapas do atendimento odontológico. A Federação Dentária Internacional (FDI), entidade que reúne organizações da área em diferentes países, aponta aplicações da inteligência artificial na análise de imagens, na identificação de lesões e no planejamento de tratamentos.
Entre os exemplos citados pela organização estão o reconhecimento de lesões de cárie em radiografias e a análise de dados clínicos para estimar riscos relacionados à saúde bucal.
A adoção dessas ferramentas, no entanto, não significa transferir a decisão clínica para um sistema. Em uma declaração de 2024 sobre inteligência artificial na odontologia, a FDI recomenda que os profissionais avaliem criticamente as evidências por trás dessas tecnologias e utilizem a IA como ferramenta de apoio.
Vieses de dados
A entidade também chama atenção para riscos como vieses nos dados usados para treinar os sistemas e a chamada “automação da decisão”, quando o profissional passa a confiar excessivamente no resultado apresentado pela máquina.
Esse cenário também alcança a formação profissional. A FDI defende que dentistas e estudantes tenham oportunidades de educação e treinamento para utilizar ferramentas digitais, mantendo o julgamento profissional e a responsabilidade pelo atendimento.
Assim, na faculdade de odontologia, o contato com essas tecnologias pode acompanhar a formação clínica necessária para interpretar seus resultados e compreender seus limites.
Até onde a tecnologia pode ajudar?
As aplicações na odontologia mostram que a inteligência artificial já pode participar de diferentes etapas do cuidado em saúde, da análise de imagens ao apoio no planejamento clínico.
Mas, à medida que essas ferramentas passam a ser incorporadas a outros processos, surge uma questão: até onde a tecnologia pode ajudar sem substituir a avaliação de um profissional?
Na medicina clínica, por exemplo, a presença da inteligência artificial vai além da análise de exames. As ferramentas também podem ser usadas para organizar informações do prontuário, resumir o histórico do paciente, auxiliar na elaboração de registros e localizar dados relevantes em grandes volumes de informações.
Em algumas situações, sistemas são desenvolvidos para apoiar a tomada de decisão, reunindo sintomas, resultados de exames e outros dados clínicos para indicar possibilidades que devem ser avaliadas pelo médico.
Casos que demandam mais atenção
A tecnologia também pode atuar antes mesmo da consulta, em processos como a triagem e o direcionamento de pacientes. Em hospitais e serviços de saúde, sistemas podem analisar informações para identificar casos que demandam maior atenção ou ajudar na organização do fluxo de atendimento.
Isso não significa, porém, que a ferramenta passe a conduzir o atendimento. O histórico apresentado no prontuário, os resultados de exames e as sugestões produzidas por um sistema precisam ser interpretados dentro do contexto de cada paciente.
Cabe ao profissional avaliar quais informações são pertinentes, confrontá-las com o exame clínico e decidir quais condutas fazem sentido para aquele caso.
É essa característica que ajuda a definir o papel da inteligência artificial na saúde: uma tecnologia de apoio, e não uma substituta para o cuidado profissional.
Na odontologia, na medicina ou em outras áreas, seu potencial está em ampliar a capacidade de analisar informações, automatizar tarefas e apoiar decisões. A responsabilidade pelo cuidado, entretanto, continua dependendo da avaliação humana e da relação estabelecida com o paciente.




