Com o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) se aproximando, candidatos de todo o país intensificam os estudos e um dos conteúdos que pode fazer a diferença na prova é o repertório utilizado na redação.
Para além do domínio das disciplinas, a prova valoriza a capacidade de análise crítica, argumentação e conexão com o mundo real.
Segundo o professor Ademar Celedônio, diretor de ensino e inovação da Arco Educação, acompanhar as principais notícias do país pode contribuir tanto para as questões objetivas quanto para a redação, que tradicionalmente aborda problemas sociais de grande relevância.
“O Enem busca avaliar o pensamento crítico do estudante, ou seja, como a pessoa se posiciona diante de questões atuais e estruturais do país. Ter bagagem sobre os acontecimentos recentes ajuda muito na construção de argumentos sólidos e coerentes”, afirma.
Já deve estar definido
Celedônio ressalta ainda que o tema da redação costuma ser definido entre os meses de junho e julho.
“O objetivo não é tentar adivinhar o tema da redação, mas identificar assuntos atuais que dialogam com características recorrentes da prova, como problemas sociais brasileiros, garantia de direitos, invisibilidade de determinados grupos e necessidade de construção de propostas de intervenção.”
A partir das discussões que ganharam força no país ao longo dos últimos meses, Ademar Celedônio selecionou sete temas que dialogam com questões recorrentes da redação do Enem e que merecem atenção dos estudantes durante a preparação:
Desafios para a proteção de crianças e adolescentes nos ambientes digitais brasileiros:
O uso crescente das tecnologias expõe crianças e adolescentes a conteúdos inadequados, publicidade direcionada, coleta indevida de dados, cyberbullying e outras formas de violência. O tema envolve a responsabilidade compartilhada entre família, escola, Estado e empresas de tecnologia.
Por que é relevante? Novas leis e discussões sobre responsabilidade das plataformas e educação digital tornam o tema urgente e bastante atual.
Possíveis abordagens
educação digital e letramento midiático nas escolas;
responsabilidade das plataformas pelos conteúdos e mecanismos de recomendação;
proteção de dados pessoais e verificação de idade;
cyberbullying, assédio e exploração sexual on-line – criação de canais acessíveis de denúncia e acolhimento;
impactos do uso excessivo de telas na saúde mental;
formação das famílias para a mediação do uso da tecnologia;
Desafios para garantir o direito à vida e ao futuro da juventude brasileira:
A violência letal, a evasão escolar, o crime organizado e a falta de oportunidades atingem especialmente jovens negros e moradores das periferias. Discutir o futuro da juventude significa articular segurança pública, educação, trabalho, cultura e redução das desigualdades.
Por que é relevante? O tema reúne discussões sobre direitos humanos, segurança pública, educação, trabalho, cultura e desigualdade social.
Possíveis abordagens
desigualdade racial e territorial na distribuição da violência;
prevenção da violência e atuação integrada das políticas públicas voltadas à juventude;
acesso ao ensino, técnico e ao primeiro emprego;
aliciamento de jovens pelo crime organizado;
ausência de espaços culturais, esportivos e de lazer;
saúde mental e perspectivas de futuro;
valorização da participação juvenil nas decisões públicas.
Desafios para promover a alfabetização plena como condição para o exercício da cidadania no Brasil:
A redução do analfabetismo não significa que todos os brasileiros consigam interpretar textos, informações públicas, dados científicos ou conteúdos digitais. A alfabetização plena envolve leitura, escrita, compreensão e autonomia para participar da vida social.
Por que é relevante?
Alfabetizar é garantir autonomia, acesso ao trabalho, à informação e participação social de forma plena.
Possíveis abordagens
ampliação e valorização da Educação de Jovens e Adultos;
desigualdades regionais, raciais e socioeconômicas;
combate à evasão e ao abandono escolar;
formação e valorização dos professores alfabetizadores;
alfabetização funcional e compreensão de textos;
alfabetização digital e acesso às tecnologias;
alfabetização científica para interpretar evidências;
letramento midiático para enfrentar a desinformação;
busca ativa de jovens, adultos e idosos fora da escola.
Caminhos para fortalecer a confiança da população brasileira na ciência e nas instituições de saúde:
A desinformação, notícias falsas e interpretações equivocadas comprometem decisões individuais e políticas públicas essenciais.
Por que é relevante? A pandemia mostrou a importância da ciência. O tema permite discutir comunicação científica, educação, transparência e combate à desinformação.
Possíveis abordagens
educação científica desde a Educação Básica;
combate à desinformação sobre vacinas e tratamentos;
transparência na divulgação de riscos e eventos adversos;
comunicação pública em linguagem clara e acessível;
responsabilidade das plataformas na circulação de conteúdos falsos;
valorização das universidades e instituições de pesquisa;
formação de profissionais de saúde para a comunicação com a população;
aproximação entre ciência, imprensa e sociedade;
recuperação da confiança por meio de dados abertos e prestação de contas.
Desafios para identificar e incluir estudantes com altas habilidades ou superdotação na educação brasileira:
Muitos estudantes com altas habilidades permanecem invisíveis porque as escolas não possuem instrumentos de identificação, profissionais preparados ou propostas pedagógicas adequadas. A inclusão também exige atender quem aprende em ritmo ou profundidade diferentes.
Por que é relevante? A nova lei sobre o tema em 2026 prevê mapeamento, atendimento especializado e valorização das potencialidades, inclusive da dupla excepcionalidade.
Possíveis abordagens
identificação precoce de diferentes tipos de altas habilidades;
formação docente para reconhecer potencialidades;
atendimento educacional especializado;
enriquecimento e flexibilização curricular;
aceleração dos estudos quando pedagogicamente recomendada;
criação de centros e programas de referência;
desigualdade de acesso ao diagnóstico e ao acompanhamento;
apoio socioemocional aos estudantes;
combate ao estereótipo de que todo estudante superdotado tem desempenho elevado em todas as áreas;
reconhecimento da dupla excepcionalidade, como altas habilidades associadas a autismo, TDAH ou dislexia.
Perspectivas para a inclusão das pessoas neurodivergentes na sociedade brasileira:
Pessoas com autismo, TDAH, dislexia e outras condições ainda enfrentam barreiras educacionais, profissionais, comunicacionais, sensoriais e culturais. A inclusão depende não apenas do diagnóstico, mas da adaptação dos ambientes e da superação do capacitismo.
Por que é relevante? Avanços legislativos recentes indicam novos caminhos, mas a inclusão real depende de mudanças culturais, formação profissional e eliminação de preconceitos.
Possíveis abordagens
formação de professores para práticas pedagógicas inclusivas;
adaptação de avaliações, metodologias e espaços escolares;
acesso ao diagnóstico e ao acompanhamento multidisciplinar;
inclusão no ensino superior e nos processos seletivos;
empregabilidade e adaptação dos ambientes de trabalho;
criação de espaços com menor sobrecarga sensorial;
combate ao preconceito, à infantilização e ao capacitismo;
valorização da autonomia das próprias pessoas neurodivergentes;
apoio às famílias e aos cuidadores;
garantia de acessibilidade em serviços públicos, eventos e espaços culturais.
Perspectivas para o enfrentamento das calamidades climáticas e da degradação ambiental no Brasil:
Enchentes como as do Rio Grande do Sul e o desmatamento da Amazônia mostram como eventos extremos e degradação ambiental atingem, sobretudo, as populações mais vulneráveis.
Por que é relevante? O assunto permite discutir prevenção, planejamento, justiça climática e a responsabilidade compartilhada entre governos, empresas e sociedade.
Possíveis abordagens
prevenção de desastres e sistemas de alerta;
planejamento urbano e fiscalização de áreas de risco;
adaptação das cidades aos eventos climáticos extremos;
combate ao desmatamento e às queimadas;
proteção da Amazônia e de outros biomas;
recuperação de matas ciliares e áreas degradadas;
justiça climática e proteção das populações vulneráveis;
responsabilização de governos e agentes econômicos;
educação ambiental e consumo sustentável;
reassentamento digno das famílias atingidas;
integração entre ciência, Defesa Civil e gestão pública;
continuidade das políticas ambientais, independentemente das mudanças de governo.
Como se preparar para qualquer tema?
Para o professor, o mais importante não é tentar prever o tema da prova, mas desenvolver repertório, capacidade de interpretação e argumentação.
“Para atingir a nota 1000 é importante saber interpretar o problema, argumentar e propor soluções viáveis. Recomendo que os candidatos pratiquem redações com temas atuais para construir argumentos consistentes e propostas de intervenção.”376150-2