​Rombo

  • Língua Portuguesa
  • Publicado em 8 de dezembro de 2017 às 19:45
  • Modificado em 8 de outubro de 2020 às 18:28
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Suor na cara. Música na cabeça. Bate. Bate. Música batida de coração. O ciúme calça luvas. O ciúme esfrega as mãos. Mãos de moedor. Homem puro. Puro músculo. Outro homem. Trator. Roer as unhas. Saia curta. Umbigo por onde se nasce. Umbigo por onde se morre. Mulher umbigo. Mulher pernas. Mulher de batom. Mulher sem perdão. Mulher talher. Talher onde se come de tudo. Comida pra um. Usada por dois. Banquete pra todos

Ciúme. Corpo contra corpo. Corpo empurra corpo. Um corpo agarra o outro. Garras. Rapina. Um rasga a pele do outro. Até. Até não mais poder. Raiva. Ódio. Guerra. Vozes toscas. Grito. Berros. Grunhidos. Perdigoto. Tapa. Murro. Cara amassada. Clinch. Separação. Momento. Dentes quebrados. Rua ringue. Corpos esfarrapados. Briga. Corpos chiclete. Pancada. Porrada. Na cara. No peito. Porrada. Baba. Cachorro louco. Sangue. O soco esmaga a língua. O dente de cima esmaga o chiclete contra os dentes debaixo. Raiva. Soco no ar. Tapa na boca. Chute no saco. Bêbados. Clinch. Porrada. Mais porrada. Vida ringue. Sangue. Pontapé. Dança das vísceras. O pé do nocaute. A carne dança. Que nem maré.

O tiro. A bala. A baba. Carne moída. Rompida. Osso rompido. Dilacerado. Porta da mente. Fechada. Trancada. O coração bate. Bate fraco. A mente às vezes mente. Mundo cão. Cão louco. Cachorro vira-latas. O cano cospe a morte. Morte apontada. Ponto de lápis. Risca a vida. Balada. Dança da vida. A vida dança. Bala perdida abala a vida. Morte. Sorte bandida. Ser humano. Desumano. Inumano. Rua morta. Silêncio cortado. Abalado. Grito abafado. Olho estatelado. Preso no nada. Nenhuma possibilidade. Respiração cortada. Coração parado. Cérebro destroçado. Gosma. Sarjeta estrada. Morte. Come via. É estrada. Trilho. Trem

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Sujeito indeterminado. Coração sem sujeito. Substantivo concreto. Adjetivo agora abstrato. Nada tem sentido. Nada faz sentido. Bala anônima. Endereço certo. Morte agora com cara. Endereço. Carteira assinada. Cara carimbada. Cara identificada. É estatística. Agora o Alguém virou ninguém. Comida de minhoca. Por quê? Estava onde. Onde não devia. Espera-o silêncio. A cova. Sulco na terra. Raízes. O corpo atônito passa sete palmos da superfície do chão. A morte voçoroca. Não… Choro. Não… Grito abafado. Não. A morte tem cara. Cara pendurada na parede. O filho, a mãe, o amigo, o pai, toda gente vai ver. Morte tem retrato. Pintado. Fotografado. No obituário. Até o prego ceder. Terá futuro amarelecido. Até cair no chão. Futuro. De um jeito ou de outro. Chão. 


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