Quando a moda muda o mundo

  • Aromas em Palavras
  • Publicado em 13 de março de 2018 às 17:06
  • Modificado em 8 de outubro de 2020 às 18:37
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No último sábado, dia 10 de março, foi morar no céu o último da casta dos couturiers (costureiros ) franceses remanescentes, o estilista Hubert James Marcel Taffin Givenchy, nascido no dia 21 de fevereiro de 1927 na pequena cidade francesa de Bauvais. Carregava o apelido de estilista aristocrático, pois era filho de um marquês e dono de uma enorme herança. Seu avô era dono de oficina de tapetes na cidade e desde muito cedo mostrou interesse pela moda. Aos dez anos, foi visitar uma exposição de figurinos dos mais famosos estilistas franceses da época e se identificou imediatamente com aquele universo luxuoso da alta costura, contrariando o sonho de seus pais de se tornar um advogado. Logo aos 17 anos ele foi para Escola de Belas Artes de Paris e trabalhou com grandes nomes da moda.

Ele abriu sua maison em fevereiro de 1952 a oeste de Paris, e já mudou o mundo da moda com sua tesoura que simplificou a silhueta feminina nos anos 50, cujas golas, medidas e comprimentos levaram mobilidade ao guarda roupa de festa. Grande parte de suas criações eram feitas com tecido de camisaria, como a blusa Bettina em homenagem à modelo Bettina Graziani. Uma camisa de gola alta e aberta, com mangas que terminavam em babados de bordado inglês. Com esse sucesso da primeira coleção, Givenchy se consolidou e abriu lojas em Buenos Aires, Roma e Zurique. Suas criações luxuosas tinham influências do estilista espanhol Balenciaga, que foi um grande amigo seu desde 1953 até a morte do espanhol em 1972. Tinha uma bela cartela de clientes como Grace Kelly,Jacqueline Kennedy e Audrey Hepburn, que aliás tem uma história curiosa com o estilista.

Quando Audrey apareceu em seu ateliê pela primeira vez, ele achava que receberia a também atriz Katharine Hepburn, mas para a sorte de ambos a confusão virou uma parceria que marcou a vida dos dois e fundou as bases do look de mulher independente que usamos até hoje. O primeiro traje a ficar famoso foi para o filme ‘Sabrina’ de 1954, estrelado pela atriz, um lindo visual simples e elegantíssimo. Era a pós revolução de mini saia, e foi o primeiro costureiro de alta-costura a estar mais conectado com os desejos das ruas criando trajes que exibiam a volúpia das pin-ups e o recato exuberante do ‘new look’ de Christian Dior.

Um dos maiores ‘escândalos’ na história de Hollywood aconteceu quando a figurinista Edith Head ganhou um Oscar por melhor figurino no Filme ‘Sabrina’, sendo que o nome de Givenchy nem sequer aparecera nos créditos. Audrey Hepburn se irritou a ponto de vincular o nome do estilista ao seu até o fim de sua vida. Foi em 1961 que Bonequinha de Luxo consagrou essa amizade, o imortal tubinho preto usado pela personagem, e que é copiado até hoje foi criação do estilista.Mas foi com Cinderela em Paris, que ele redefiniu a imagem feminina com o uniforme da era beatnik: calça cigarrete e blusa preta de gola careca que até hoje vestem a juventude parisiense. Audrey dizia que as roupas de Givenchy tinham o poder de tirar sua insegurança e timidez, tornando-a uma melhor versão de si mesma.

Foi dele as primeiras criações de vestidos chemisier em forma de saco, de peças independentes e coordenáveis, pois até então saias (ou calças) e blusas só podiam ser usadas como um conjunto. E foi também o primeiro estilista de alta-costura a apresentar uma coleção pré-à-porter feminino em 1954 intitulada ‘Givenchy Université’.

Como não podia ser diferente, em 1957 também foi um dos primeiros a dar seu nome a uma fragrância, e claro que tinha que ser feminina, chamada Le De. Originalmente vendida a poucos e seletos clientes e amigos pessoais, atualmente você consegue encontrá-la em Paris (nas galerias Lafayette e Printemps), em Nova York (loja Saks) e em Londres (nas lojas Harrods e Selfridges). No mesmo ano, criou o perfume L’Interdit em homenagem a Audrey Hepburn, 1959 o Monsieur Givenchy para o público masculino que aguardava ansiosamente um produto do estilista. Em 1973, entrou para o mundo da moda masculina, com o lançamento da linha ‘Gentleman Givenchy’. Ainda na mesma época a grife iniciou uma enorme diversificação de produto com o lançamento de uma coleção de óculos, móveis, toalhas de mesa, sapatos e jóias. Mas foi na década de 80 que marcou sua grife, utilizando tecidos com estampas inspiradas em artistas como Miró, Matisse e Bérard. Muitos outros perfumes também foram lançados depois disso, mas dois tem de ser destacados pelo sucesso que fazem até hoje, Amarige e o Organza Eau de Parfum.

Apesar de todo o sucesso e glamour envolvendo seu nome e suas criações, a Maison se encontrava com sérios problemas financeiros, o que culminou com sua venda em 1988 para a Loui Vuitton. A coleção de perfumes já havia sido vendida para a Veuve Clicquot em 191, que depois seria comprada pela Louis Vuitton e formaria o poderoso grupo LVHM, atual proprietário da Givenchy. O estilista se despediu oficialmente das passarelas em 1995 com um desfile para poucos e seletos convidados, e finalizou aquele evento sob aplausos de toda a sua equipe e dos mais importantes estilistas do mundo sentados na primeira fila. Entre eles: Valentino, Yves Saint Laurent, Christian Lacroix, paco Rabanne e Oscar de La Renta. De la pra cá os nada convencionais estilistas estiveram a frente da marca: John Galliano, Alexander McQueen, Julien MacDonald e Riccardo Tisci, hoje a etiqueta é dirigida por Clare Waight Keller. A marca que sempre foi sinônimo de elegância e atrevimentro é a favorita de famosos como Kim Kardashian, Rihanna, Beyoncé, Madonna e Julia Roberts.

Seja na moda, na perfumaria ou até mesmo na forma como a vestimenta mudou nosso modo de agir (no universo feminino), Givenchy foi mais que um estilista, ele realmente marcou a história do mundo com suas criações. Se você realmente acha que a moda não tem absolutamente nada a ver com a evolução do mundo, leia mais sobre sua história e vai perceber como ela influencia cada momento da nossa história. E para fechar deixo aqui as palavras do grande estilista Givenchy: “Sucesso não é prestígio. O sucesso é passageiro, o prestígio é outro assunto. Ele persiste depois da gente. É preciso trabalhar para não ter trabalhado em vão.”

*Esta coluna é semanal e atualizada às quintas-feiras.​