Franca, Brasil

  • Carlos Brickmann
  • Publicado em 30 de outubro de 2015 às 12:52
  • Modificado em 8 de outubro de 2020 às 17:30
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​Há muitos e muitos anos, no comecinho do século 20, judeus ucranianos pegaram o navio em Odessa para fazer a América (e fizeram). E por que vieram a Franca, que nem porto é? Porque Franca, do alto das três colinas, com clima privilegiado, estava livre da febre amarela. Tinha agricultura, pecuária, um início de indústria. Era, já, um dos motores do país que começava a se desenvolver.

Um século depois, já não temos a febre amarela, substituída pela dengue. E desenvolver o país está difícil. Nossos leitores se dividem entre governistas, oposicionistas, eleitores que querem o impeachment, eleitores que acham que o impeachment é golpe, muita gente que acha que tanto faz, não muda nada mesmo.

Mas muda, sim. Imaginemos que Dilma e Temer sejam afastados, por irregularidades nas contas de campanha. O substituto é Eduardo Cunha. E se Eduardo Cunha, acusado de ter dinheiro não só clandestino como ilegal, cair também? O substituto é Renan Calheiros, que já teve de renunciar para não perder o mandato. E se Renan, por qualquer de inúmeros motivos, cai? Quem sobe é Ricardo Lewandowski, aquele simpático, o presidente do Supremo Tribunal Federal.

Uma antiga peça de teatro tinha um título maravilhoso: Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come. Tirar todo mundo e botar os militares? Já tivemos e não deu certo (e como ficou caro!) Tirar os governistas e botar a oposição? Não é melhor, não. E, para botar a oposição no Governo, é preciso fazer um esforço enorme para encontrá-la. O negócio é tocar a vida. Um dia aparece a saída.

Ler e aprender

Este colunista é do tempo em que se confiava nos livros de História. E em que um diretor de jornal, o lendário Júlio de Mesquita Filho, não se incomodava em usar palavras pouco conhecidas: ao buscá-las no dicionário, o leitor mantinha seu processo de aprendizado, que jamais terminaria. Erros de português eram inaceitáveis: o autor era identificado e instruído para não repeti-los.

Pois um livro de História afirma que as FARC, os traficantes de drogas que se fingem de guerrilheiros na Colômbia, querem apenas construir um país mais justo. E é justamente no jornal do dr. Julinho que, em matéria assinada, encontramos o título Adeus, sauchichas. Tudo bem, há certas salsichas suspeitíssimas. Mas mesmo assim será justo mudar o nome das coitadinhas?

A importância dos fatos

Acredite, papel de jornal é caríssimo. E aumentou muito agora, com o dólar nas alturas. É por isso que só notícias da mais alta importância são divulgadas em nossos jornais. Suzy Rego, em A Fazenda, informa que não teria problemas em dividir o marido com um homem justo ela, que quando namorou o ator Paulo César Grande dizia que os dois não se casariam por compatibilidade de sobrenomes. No mesmo programa, um cavalheiro se proclamou o cara mais corno do Acre. Não o critiquem: se disse, deve ser verdade. O atleta cubano que ganhou o Mundial de Ginástica comemorou a vitória com uma reboladinha básica. Torcedores do São Paulo disseram que o time deu um vareio de bola no Santos na primeira partida entre ambos, e que só tomou de três por acidente. Aí veio o segundo jogo e o São Paulo de novo levou de três. Mas, segundo o técnico, o time agora está mais compactado.

E, veja como mudam os costumes, querem processar Valesca Popozuda porque não quer fazer um filme pornográfico. Lembra quando fazer é que era crime?

A verdade nua e crua

Mas, no meio de tantas informações sem as quais não conseguiríamos sequer dormir à noite, surge de vez em quando alguém que é criticado por falar a verdade. Como o ministro da Saúde, Marcelo Castro (não se surpreendam comigo por lembrar o nome dele: nem a presidente se lembra. Fui ao Google, claro). Ele disse: O que está ruim ainda vai piorar. Nem parece político, não é mesmo?

Pague e não bufe

Divertindo-se com o noticiário? Então vamos acabar com essa alegria. Os negócios estão parados, os juros do cartão de crédito ultrapassam os 400% ao ano, os bancos estão cobrando os olhos da cara (e mesmo assim o dinheiro está curto), até quem comprava e não pagava já deixou de comprar. Mas não é todo o país que está buscando moedinhas no fundo da gaveta para ver se dá para o pão com manteiga: os partidos políticos, que neste ano estão recebendo R$ 867 milhões do Fundo Partidário (ou seja, do Governo; ou seja, do nosso bolso), deve chegar a R$ 1 bilhão no ano que vem. Conta redonda, sabe como é, fica mais fácil.

Para que serve o Fundo Partidário? Para evitar que os dirigentes dos partidos tenham de passar necessidades. Pagam empregados, aluguéis, telefones, essas coisas. Não precisa ter votos: basta estar registrado que o dinheiro, como diria o ex-presidente Lula, pinga. Quanto sobra para cada um? Bom, há uns dois anos, antes que o Fundo Partidário triplicasse, o famoso Levy Fidélix, aquele do Aerotrem, reclamava da merreca que recebia seu PRTB: reles R$ 100 mil por mês.

Pois é, caro leitor. Quem mandou estudar, trabalhar, suar a camisa?


*Carlos Brickmann é jornalista, francano, corinthiano, consultor de Comunicação e Gerenciamento de Crise, diretor da Brickmann&Associados Comunicação (www.brickmann.com.br). Está lançando um novo portal noticioso e de opinião, o Chumbo Gordo ( ​www.chumbogordo.com.br​). Suas colunas são publicadas em duas dezenas de jornais espalhados pelo país. É oposicionista de coração: faz oposição a todos os Governos e a todas as oposições, inclusive a própria.