Relação professor de música x aluno

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Recentemente pude dar consultoria para uma professora de piano de Goiás, ela me contava um caso que muitos dos professores já comentaram em relatos e eu mesma já senti na pele como aluna e depois como professora.

Tenho percebido que o estudo de piano mexe tanto com a pessoa em vários níveis psicológicos , tanto como autoconhecimento, como questionamento interior, como descoberta de potencialidades, e isso vai se tornando tão intenso, que os relatos são que com anos e anos de terapia alguns alunos não conseguiram atingir o nível de observação pessoal que é proporcionado com o estudo de piano.

O relato da professora de Goiás resumidamente é assim:

- “Tenho uma aluna de 17 anos de idade, que começou a estudar piano comigo faz 2 anos. Como todo adolescente ou toda pessoa neste mundo, ela tem problemas de convivência familiar com um irmão e com uma tia. Então se apegou ao estudo de piano proporcionado pelo tio, pois o pai dela não mora mais com eles. Conforme ela foi descobrindo que poderia realizar o sonho que não lhe foi permitido quando criança pois não tinham condições financeiras, ela foi se apegando mais e mais às aulas e consequentemente a mim, sua professora. E começou a me contar suas angústias, seus medos, os problemas familiares, e me disse que eu estava salvando a vida dela. Uma menina muito bonita e disposta a conquistar o mundo, foi chamada para ser modelo de uma grande loja que estava chegando na cidade. Aceitou, pegou todo o dinheiro que ganhou e comprou um piano. Isso criou uma certa animosidade em família porque a mãe dela sentiu ciúmes do piano , das aulas e demonstrava isso claramente. E além disso não se conformava que a filha tivesse pego seu primeiro ganho monetário e investisse tudo num piano. Com isso, a mãe começou a fazer restrições ,deixar que a filha se tornasse cada vez mais dependente dela e impedindo-a de fazer mais fotos, desestimulando-a como podia. A menina chegava nas aulas de piano e algumas vezes chorava, não conseguia tocar, porque não tinha estudado porque teve outros afazeres determinados pela mãe, não conseguia estudar porque o cansaço lhe tomava conta e assim, tentava mas a luta era desigual. Ela fará 18 anos em breve e almeja a sua liberdade e independência. Como professora, dei-lhe força e coragem para seguir seus sonhos, conquistar o mundo que ela queria, principalmente porque ela chegava na aula e me contava fatos que me colocavam em xeque como se eu mesma me perguntasse: - como posso ajuda-la? Tenho que fazer alguma coisa...”

E assim o relato continuou, conversamos por telefone mais de duas horas.

Isso me remeteu a meus estudos de piano e posteriormente à minha relação com meus alunos e hoje, após ter feito Constelação Sistêmica, à minha análise totalmente diferente, um tanto quanto fria, a respeito de tudo.

Com relação a mim, perdi meu pai quando estava no último ano do estudo de piano. A paixão dele era me ver tocar e sonhava em me dar um carro de formatura. Ele faleceu em Fevereiro daquele ano. Era o 11º ano que eu cursava piano. Antigamente tínhamos 2 preliminares e depois 9 anos obrigatórios.Minha professora de piano na época tomou conta de mim, pois minha tristeza era tanta que em Agosto daquele ano eu abandonei o curso de piano. Minha mãe não suportava o som do piano em casa, estava deprimida, e eu não tinha como estudar. Foi quando me deram uma chave de uma sala no conservatório que seria só minha, para que eu pudesse estudar aquele restinho de ano e participar da formatura.Minha professora era uma deusa pra mim, eu fazia tudo por ela, comprei um carro e eu a levava para todos os lugares, encapei todos os armários do apartamento novo dela com contact. Era ela pedir e eu estava pronta para fazer. Minha mãe ficava com ciúmes e me dizia que dali alguns dias só faltava levar o colchão pra casa da professora.De minha parte, houve mesmo uma transferência de sentimentos. Ela passou a ser meu pai que me incentivava e minha mãe que deveria fazê-lo. Ela se tornou pai e mãe, tanto, que quando me casei ela foi minha madrinha no civil e no religioso. O marido dela entrou comigo na igreja, substituindo meu pai.


Hoje, mais madura, eu compreendo várias coisas, principalmente depois que conheci o lado oriental de encarar a vida, depois que conheci o Reiki da Claudia Paim (e isso só faz 6 meses), depois que vi que não existem coitados no mundo, que cada pessoa está no lugar certo, com as pessoas certas. Também fiz Constelação Sistêmica para entender que cada pessoa tem sua história com seus antepassados e aquilo ali é exclusivo e até kármico. E por fim fiz o treinamento de lideranças chamado D.L (Desenvolvimento de Lideranças) que me atentou para o fato de que nascemos com nosso esforço, viemos ao mundo com uma missão e que esta missão tem como eixo a nossa melhora interior e o que devemos fazer é impulsionar as pessoas para que elas mesmas saiam sozinhas dos seus casulos e procurem ser melhores a cada dia.

Compreendo também que é FATO COMPROVADO que o estudo do piano aciona o interior da pessoa de uma forma que nada pode fazê-lo tão intensamente. Tanto é que pessoas que tem traumas relacionados ao piano demoram muito para curá-los. E eu tenho visto isso muito de perto com pessoas e suas histórias que me aparecem.

Também percebi que não adianta querermos como professores, abraçar a vida do aluno como um todo e nos compadecermos de seus problemas e de suas angústias e querermos ajudar com conselhos porque a nossa tarefa é APENAS E TÃO SOMENTE ATRAVÉS DO ESTUDO DE PIANO FAZER COM QUE ESTE ALUNO ENTRE EM CONTATO CONSIGO MESMO e TOQUE PIANO. As soluções cada um precisa buscar com as ferramentas que tem na vida, na família onde está comprometido, com as pessoas a seu redor e o professor de piano não pode e nem deve opinar, apenas ouvir. Aprendi isso com muita dor.Mas graças a Deus aprendi.

Hoje, me estranho, me pego numa certa ‘ frieza’ não querendo me envolver porque todas as vezes que nos envolvemos além da conta querendo ajudar, acabamos atrapalhando porque se a pessoa PRECISA passar por determinadas dificuldades, é como a lagarta virando borboleta e não podemos amenizar o sofrimento.

Com isso, vamos conhecendo as realidades dos professores de piano espalhados pelo Brasil e também fora dele e vemos que o SER HUMANO é o mesmo em qualquer lugar, ele se apega a quem lhe dê oportunidade de crescimento e isso muitas vezes é confundido com terapia.

Em meu livro “O PIANO UM ESCULTOR DA ALMA – Autoconhecimento através do piano numa didática para a vida” – tem vários tópicos sobre o que acontece no estudo de piano e hoje, vejo que existe uma linha tênue que separa o terapeuta do professor de piano. Mas a linha existe, não deve ser ultrapassada, digamos que cada qual no seu quadrado. A função do professor de piano, além de ensinar a tocar o instrumento, alfabetizar o aluno, etc, é promover este autoconhecimento, apontar o que o aluno não consegue ver ( se o professor conseguir enxergar) e apenas isso. O segundo passo que é elaborar o que foi descoberto já é responsabilidade do aluno, ou das providências que ele vai tomar com o que foi descoberto. É um gatilho. Um dia recebi uma carta linda de uma professora de violão que teve algumas aulas de piano comigo, acredito que para se conhecer melhor. E nesta carta ela escreveu uma frase que me divertiu e ao mesmo tempo me fez pensar:

“- Ainda não sei ao certo qual o“paranauê” que acontece quando a gente senta no seu piano! Rs... mas sei que me salvou.”

Hoje eu sei que quem se salvou foi ela mesma, porque olhou para si mesma, se descobriu, se viu enquanto profissional maravilhosa, viu seu talento, enxergou o que pode fazer e que não precisa saber de tudo, mas já é boa no que faz, a única coisa que tem que fazer é agradecer a Deus o que JÁ TEM, ir se aprimorando cada vez mais e ser feliz. Ela descobriu tocando piano.

Neste ponto preciso dizer que o programa, o repertório, os exercícios, tudo o que se vai pedir para a pessoa é FUNDAMENTAL para que ela se descubra. Aí entra a consultoria – ‘ o que dar para cada aluno para que ele se descubra’ .

E certa vez ‘ provoquei ‘ uma aluna com programação de estudo de piano para que ela enxergasse que não estava dando a devida importância para o piano porque não era o momento para isso, tinha acabado de se formar, não tinha tempo, o seu foco era 100% em ganhar dinheiro e não estava preocupada com autoconhecimento ou em descobrir ou desenvolver potencialidades. Enfim, ela conseguiu ver o que ela estava querendo da vida, para onde olhava, onde estava focada, e então o piano deixou de ser um compromisso a mais para realizar um sonho de infância. Para tudo isso serve o estudo de piano, até mesmo para ver que não é o momento de estar ali, não se tem tempo nem foco naquilo.

Fiquem com o grande Francisco Mignoni falando sobre o mundo da composição:

 

Esta coluna é semanal e atualizada aos domingos.​


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