Pesquisa com remédio contra asma é grande passo no combate à covid-19

Corticoide reduz em um terço a mortalidade em pacientes com complicações graves da doença

Postado em: em Ciência

​Um medicamento barato e já prescrito para doenças comuns, como a asma, tem efeito comprovado na redução de mortes em decorrência da covid-19. 

Em testes com mais de 6 mil voluntários, a dexametasona reduziu em um terço a taxa de mortalidade entre pacientes que  enfrentam estágios críticos da doença. 

O resultado inédito foi anunciado por pesquisadores da Universidade de Oxford, no Reino Unido, e é tratado por cientistas como um passo significativo no enfrentamento ao novo coronavírus. Para a Organização Mundial da Saúde (OMS), trata-se de um “avanço científico” na atual crise sanitária.


Para chegar à conclusão, a equipe avaliou o efeito da dexametasona, corticoide conhecido pelo efeito anti-inflamatório e imunossupressor, em um grupo de 6.425 pessoas. 

Os pacientes apresentavam complicações graves em decorrência da covid-19 e foram divididos em dois grupos: 2.104 receberam o tratamento experimental e 4.321 foram submetidos a cuidados habituais — ventilação artificial, oxigenação por meio de máscara (sem intubação) ou tratamento sem assistência respiratória.

Os pacientes tratados com dexametasona receberam 6mg diárias da droga diariamente, durante 10 dias, e foram divididos, de forma aleatória, para receber o medicamento via oral ou intravenosa. 

Ao analisar os dados, a equipe constatou que o corticoide reduziu em um terço a mortalidade nos pacientes submetidos à ventilação artificial e em um quinto a taxa de óbitos entre aqueles que receberam oxigênio por meio de máscara.

A hipótese é de que a droga atue sobre a tempestade inflamatória causada pelo coronavírus.

Segundo os autores, com os resultados, é possível estimar que a dexametasona pode evitar uma morte a cada grupo de oito pessoas com covid-19 que precisam de ventilação artificial e uma morte a cada 25 pacientes que demandam tratamento apenas de oxigênio, ou seja, em situação menos grave. 

“É o primeiro medicamento observado que melhora a sobrevida em casos da covid-19 (…) Esse é um grande passo na busca de novas maneiras de tratamento”, destaca Stephen Powis, diretor médico do NHS, o serviço público de saúde britânico.

Presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), Clóvis Arns da Cunha avalia os resultados preliminares do estudo britânico com o mesmo tom otimista. 

“Temos o primeiro tratamento farmacológico para a covid-19 que mostrou impacto em reduzir a mortalidade. Finalmente temos uma boa nova”, afirma, em nota.

O especialista brasileiro destaca que a conclusão prática do estudo é que todos os pacientes em ventilação mecânica e os que precisam de oxigênio fora das unidades de terapia intensiva (UTIs) devem receber a dexametasona. 

“É uma medicação barata e de acesso universal. É um dia histórico no tratamento da covid-19”, ressalta.

Novas práticas

A busca por abordagens médicas que aumentem a sobrevida de pacientes infectados pelo coronavírus foi iniciada assim que o Sars-CoV-2 se configurou como uma ameaça global, há seis meses. 

Segundo Martin Landray, professor de medicina e epidemiologia da universidade britânica e também participante do estudo, o antiviral remdesivir tem demonstrado alguma eficácia em acelerar a recuperação de pacientes hospitalizados, mas ainda não há constatação de que esse medicamento pode evitar mortes.

Por isso, avalia Martin Landray, esses resultados obtidos com o corticoide, um dos braços do estudo clínico Recovery, são considerados pelo grupo como “fantásticos”. 

“Eles são muito claros — a dexametasona reduz o risco de morte em pacientes com complicações respiratórias graves. A covid-19 é uma doença global. É fantástico que o primeiro tratamento demonstrado para reduzir a mortalidade esteja instantaneamente disponível em todo o mundo”, justifica, em nota.

Segundo Eliana Bicudo, infectologista e assessora da SBI, o uso desse medicamento em pacientes que não estão entubados, mas demandam assistência respiratória é uma novidade trazida pelo estudo britânico e ajuda a dar mais segurança às práticas de enfrentamento à covid-19. 

“A gente já usava em paciente graves, na UTI. Então, esse estudo veio uniformizar. Foi um desenho bem feito, um estudo que traz a luz de que precisávamos. Temos usado corticoide, mas há dúvidas sobre se a dose tem que ser maior ou menor. Esse estudo veio para clarear as informações, deixar a gente um pouco mais seguro para seguir em frente”, avalia.

O uso da dexametasona para tratar a covid-19 também tem sido estudado por brasileiros, que preveem a divulgação dos primeiros resultados da pesquisa em agosto. 

Eliana Bicudo ressalta que, apesar dos resultados promissores, as investigações em torno da eficácia do medicamento devem seguir. 

Ela diz, por exemplo, que falta consenso sobre como deve ocorrer a retirada da medicação após 10 dias de tratamento. “São dúvidas que vamos tirar no futuro”, afirma.

Algumas certezas de agora, ressalta a médica, é que o uso da dexametasona foi estudado para pacientes com covid-19 em estado grave e que a droga demanda monitoramento especializado. 

“O corticoide é uma faca de dois gumes. É um excelente anti-inflamatório, mas, por sua vez, sabemos que aumenta a glicose e pode dar sinais de euforia, por exemplo. Ela tem efeitos adversos, como qualquer medicamento. Por isso, temos que saber conduzir bem essas questões.”

Em 40 hospitais

O uso da dexametasona para tratar pacientes graves com covid-19 é estudado desde abril no projeto intitulado Coalizão Covid Brasil, que é coordenado pelo Hospital Sírio-Libanês, em parceria com o Aché Laboratórios. 

Até o momento, foram recrutados cerca de 230 voluntários, dos 350 previstos, submetidos a tratamento de ventilação mecânica em unidades de terapia intensiva (UTIs) de 40 hospitais em todas as regiões do país.


*Correio Braziliense​


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