FLUÊNCIA NA MÚSICA E NA VIDA

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Esta semana tenho conversado com várias pessoas com dificuldade de terem fluência na vida... ACEITAÇÃO.

O primeiro passo para adquirirmos fluência na música é ACEITAR o que é proposto pela música, pelo compositor, pela partitura, enfim, a música está ali para ser tocada e que possamos aceita-la, entende-la , interpretá-la, decodifica-la e enfim podermos transmitir o que ela nos pede.

Assim, na vida. Estamos numa pandemia, e muitas pessoas teimam em querer viver como antigamente, agirem como antigamente, terem a vida ‘ normal’ de antigamente. Mas o normal mudou.

Para quem conhece uma partitura, pode perceber, por exemplo, que de repente no meio da música a tonalidade muda, os acidentes da armadura de clave são outros, o dedilhado mudou, pede-se que cruzem uma mão por cima da outra e assim vários indicativos de que é assim para aquela melodia. Foi assim que o compositor a fez. 

Ano passado tive uma aluna que já formada em piano veio fazer um resgate do piano pois estava com saudades de tocar. Mas ainda arraigada ao modo antigo, queria tocar peças virtuosísticas, porque aprendeu que isso era que trazia aplausos e tinha valor enquanto estudante. Quando lhe ofereci uma melodia linda de Chopin, pequena, profunda, reflexiva, ela estranhou e disse: agora estou velha e tenho que tocar essas coisinhas? Chopin! Então, abri o youtube e mostrei a ela um grande pianista tocando aquela música num concerto, curtinha, fácil, porém profunda. Um momento de Chopin.

O que temos para hoje? É a pandemia, é ficar em casa quem puder, é cuidar do outro e de si mesmo com todos os cuidados aconselhados, mas alguns ainda teimam em desobedecer, em invadir, em contaminar outras pessoas e correr riscos porque querem a todo custo viverem no passado.

É difícil aceitar o presente imposto assim a toque de caixa como foi este vírus. Mas é o que temos: lidar com o desafio. 

Quando minha mãe com 83 anos foi internada no hospital para operar um câncer de intestino descoberto tardiamente e já avançado, abriram e fecharam porque não havia mais solução. Com isso, orei. Pedi a Deus que nos desse a compreensão sobre o destino dela e o nosso e fiquei mentalizando um hospital com um atendimento caloroso, que tivesse um jardim, muitas flores, que tivessem cores nas paredes, que todos fossem alegres e acolhedores, os tratamentos fossem naturais, com plantas... E um amigo me disse na época: “mesmo em momento de tamanho sofrimento você cria outra situação”. Acho que aprendi com Tich Nhat Hahn em seu livro Meditação andando, quando ele pede para que façamos caminhadas sobre o asfalto mentalizando que pisamos em gramas e flores ao redor. Isso pode transformar o mundo.

A RESISTÊNCIA ao novo, ao que é proposto, nos faz sofrer mais ainda, traz ansiedade, conflitos, endurecimento, e pedimos a todo instante: ‘ quero minha vida de antigamente’ e este antigamente pode ter sido há 3 meses apenas.

No canal que abri no youtube com o projeto Alfabetizando na Quarentena, sugiro atividades para as crianças  ‘ em casa ‘ utilizando os materiais que possuem à mão. É o que temos para o momento e precisamos aprender a lidar com isso. Sucatas, materiais simples, pode-se alfabetizar em música brincando, fazendo jogos e nos divertindo.

Mas há uma enorme resistência familiar e percebo isso quando recebo e-mails dizendo: - não tenho tempo pra essas coisinhas que tem que fazer para as crianças. Estas ‘ cosinhas ‘ são conhecimentos através de brincadeiras e jogos tão prazerosos para se brincar e aprender em família!

Quando um aluno pede para estudar determinada música ( e sempre peço que escolham algo do seu gosto) e se deparam com dificuldades a serem transpostas, logo querem fazer acontecer da noite para o dia, pular indicações que são pedidas na partitura, enfim, dar um jeitinho de fazer um som ali sem respeitar a composição. É uma resistência enorme em descobrir, entender, compreender, aceitar e depois interpretar.

Como estamos deficientes em interpretação!!! 

Como estamos deficientes em aceitação!!!

Como estamos deficientes em paciência!!!

Como estamos deficientes em compreensão!!!

E por aí vamos percebemos no que nos tornamos enquanto seres humanos: máquinas. E já dizia Chaplin: “Não sois máquinas, homens é o que sois”.

Quando a Pandemia se instalou também fiquei resistente, pois passei a vida sonhando em montar uma Sala de Aula de música, que pudesse inspirar os alunos, gastei o que eu não tinha para construir este local acolhedor, construí um lavabo tirando uma parte do meu quarto, com porta externa, comprei materiais incessantemente, livros e mais livros, partituras e mais partituras, fiz a sala mais acolhedora para se aprender música clássica, remetendo ao clima do século XIX. Numa das paredes fiz uma plotagem de uma janela de um museu de música da Alemanha, ficou lindo e inspirador.

De repente, a pandemia me tirou o chão. Comecei a elaborar soluções para trazer os alunos de volta para esta sala, mudei posição do piano, para que mantivesse distância ideal, pensei numa parede de vidro entre os pianos, enfim fiquei dias perdendo tempo em querer trazer de volta o que era antes. Mas tudo mudou. 

Fui para o piano e comecei a tocar, ler NOVAS partituras e como que se o recado viesse instantaneamente em meu cérebro: o novo está aí. Agora será assim. Foi então que comecei a ACEITAR. Depois que aceitei, planejei aulas online, vi as imensas oportunidades de desenvolvimento com este contato online, tanto para mim como para os alunos, elenquei os pontos positivos que vou deixar aqui para vocês, e consegui enxergar o novo jeito, a proposta de mudança. Quando aceitamos, enxergamos o lado bom. E quando enxergamos o lado bom, conseguimos avançar e deixar a resistência de lado.

Veja acima: temos cruzamento de mãos, 3 pautas para duas mãos, tem o pianíssimo que diga-se de passagem é muito difícil fazer, tem uma indicação de ‘ a tempo ‘  , ou seja- voltando ao andamento, e tantas mas tantas outras observações para se interpretar uma partitura, que forçosamente transferimos isso para a vida, pois o recado é subliminar, mas eficiente: ADAPTE-SE !  TENHA FLUÊNCIA! Não resista. Saiba interpretar. 

É isso amigos.

E viva o estudo através de uma partitura! Que bênção que foi para mim!

O piano faz isso comigo: ajuda-me a transpor, transcender, aceitar, acalmar, decodificar, interpretar e seguir em frente. Hoje, percebo que o estudo de piano traz os recados subliminares para a vida. Lendo a partitura, aceitando suas mudanças repentinas, decodificando símbolos sem cessar, transfiro isso para a vida. E assim, chega a FLUÊNCIA, na música e na vida!

Pontos positivos das aulas online:

- ganha-se o tempo de trânsito ou preparar-se para a aula que para alguns chega a quase uma hora entre preparar-se e chegar ao local.

-o aluno está no seu instrumento e estudou a semana inteira nele, tem maior domínio e não estranha o piano da professora

- a professora analisa vários detalhes corporais como: postura, posição da banqueta, altura, posição das mãos, e auxilia o aluno a estudar melhor em casa. Este ponto é sensacional ! Conserta-se muita coisa observando isso.

- Observa-se a iluminação que tem na partitura, se está ideal, se as condições do ambiente estão favoráveis ao estudo ( pouca movimentação, temperatura, etc)

- O aluno já tendo o domínio do peso das teclas, pois cada piano responde de uma forma, mostra uma interpretação melhor pois está ' em casa ' com seu instrumento.

- A família pode observar as orientações dadas pelo professor(a) e entender como funciona uma aula de piano, porque até então, o aluno entrava na aula e o processo de aprendizagem ficava solitário. Agora a família pode acompanhar.

- O aluno está à vontade em casa, confortável, às vezes descalço, de pijama, tendo aula... isso lhe dá uma liberdade maior de expressão.

- O aluno precisa estudar mais, pesquisar mais, se envolver mais com seu instrumento, gravar-se tocando ... e isso é outro avanço na maturidade dos estudos...

- e por aí vão, para cada um algo de positivo diferente...

Vamos em frente ! ABRAÇAR O NOVO ! ELE ESTÁ SENDO MUITO POSITIVO , EM ASPECTOS ANTES NUNCA VISTOS.


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