Será que seremos um remédio contra a burrice?

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Nada me indigna mais que censura. Apanhar na boca me indigna. Proibir me indigna. Impor limites às crianças me indigna. A atitude imbecil de um censor me indigna. Quem proíbe, gosta de ser enganado – Como nossos pais, diria Belchior. Quem um censor pensa(?) que é? Um ser iluminado? Que pode decidir sobre o que eu devo ler, ver, falar, avaliar, ouvir e pensar? A censura e o censor são certamente os maiores incrementos à burrice da história, depois vêm provas as sobre livros e a criação de um programa do Ministério da Justiça e Segurança Pública de usar a literatura como instrumento de tortura. O detento reduz a pena em quatro dias, se ler um livro. Genial. O plano mesmo é desafogar o sistema penitenciário. Genial. As obras mais escolhidas foram “Ensaio sobre a Cegueira” de Saramago” e “Crime e Castigo” de Dostoiévski. Detentos intelectuais, preparados para o mercado. Genial.

A história está cheia de iluminados guardiões da moral e dos bons costumes (seja lá o que isso signifique). São escudeiros de caudilhos que arrastam multidões, berrando verdades absolutas e se escondendo atrás do moralismo. Assim salvarão o mundo da ameaçadora livre manifestação dos direitos democráticos. O estado é laico, o censor não. É nada mais, nada menos que um idiota útil, descartável como papel higiênico, afinal não entende nada de coisa nenhuma. Se entendesse, não seria censor.

E a multidão acéfala engole faike na forma de sabedoria. Direita ou esquerda são partes do mesmo corpo, uma lava a outra. Ah! Desculpe-me. A Revolução Francesa já acabou faz tempo, leitor? A rotulagem é a melhor maneira de desqualificar o adversário, de se mostrar importante, de dizer que defende a família (qual família?). A juventude hitlerista começou a ser ajustada assim, quando o professor se viu amordaçado, escolas públicas viraram campos militares, alunos passaram a usar farda e bater continência, convenceu pais a abdicarem deles. Ninguém vestia azul, nem rosa.

George Orwell vislumbrou essa distopia: o estado opressor-policialesco; “sorria, você está sendo filmado”, as coisas mudam para ficarem iguais. Isabella Allende presenciou a distopia: tortura a céu aberto em estádio de futebol e morte por crimideia. Em uma ditadura, ninguém é inocente, nem que as apoia. A mentira é arma; a censura canaliza o óbvio, transmutando-o. Pais espancam filhos discordantes, filhos entregam pais vacilantes, vizinhos passam a ter comportamentos cambaleantes. O país precisa de uma guerra externa para disfarçar a miséria interna. Falta apenas desancar a velha Constituição, criando uma nova e “revolucionária” (A Polaca de Getúlio Vargas), estrangular as relações de trabalho (A carta dell lavoro de Mussolini), tornar a fé destemperada um apanágio à burrice (Os Index da contra-reforma) e promover a queima inquisitorial de livros, para recontar a história com um novo viés (Stalin e outros ditadores bananeiros da América Latrina). Estamos a caminho célere para nos encarcerarmos em um admirável pesadelo novo: vidas secas e angústias nos esperam, junto com os cassetetes e os porões.

Agora vivemos uma espécie de cegueira verde-amarela escarnecendo da cegueira total: uns poucos se manifestam, muitos viram massa de manobra, indo a passeatas para beber e ver o show. Meu amigo, o poder serve a alguém, não a você. Você já se perguntou a quem? Ninguém nasce usando um terno Armani, mas todo mundo aprende a usá-lo junto com a maior das pragas dessa América Latrina: o populismo. O servilhismo, o ufanismo, o caudilhismo, o corporativismo e o nepotismo são os irmãos siameses dessa praga. Em nome de uma religião se fratura uma Constituição. Em nome de uma Constituição, institui-se a manipulação do pensamento. Por que será que, quando os alemães invadiram os países da Europa, correram atrás das obras de arte que tanto condenaram?

Conta a lenda que Pablo Picasso estava de frente para Guernica, quando um soldado o interpelou: Foi o senhor fez isso? Ele teria respondido: Não, foram vocês. Por que a Luftwaffe destruiu uma cidadezinha sem equipamento antiaéreo? Resposta simples: “para matar ideias”. Disse o poeta que nenhuma bala pode matar uma ideia. A censura, pior que bala, pode. Pode disseminar o Alzheimer coletivo.Estaremos em duas prisões: não saberemos o que está fora de nós, nem saberemos quem somos de nós. Seremos nós. Viveremos noz. Basta verificar: a leitura virou instrumento de tortura, elas são indomáveis. Estamos ficando monossilábicos. Quem não reconhece a textura e as plumagens das palavras, não sabe explicar o que é e quem é. Isso interessa a alguém? Você já se perguntou a quem?

Adiantou censurar O Crime do Padre Amaro? Ridicularizar a Impressão do Sol Nascente de Monet? Vaiar o Bolero de Ravel? Queimar os livros de Monteiro Lobato? Felizmente, o sol nasce todos os dias. Essas obras renascem todos os dias, apesar de atitudes idiotas como a de impedir o Queermuseu: pensava eu que tínhamos saído do século XIX. Agora censuram filmes, peças teatrais e toda forma de livre expressão, em nome da família (qual família?). Muitos censores constituíram mais de uma. Para essas também vale a regra geral.

Mortalha

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Nem borboletas, nem beija-flores, nem abelhas. Só poeira. Caos. Poluição. Cidade de chumbo. Cidade cobre mundo. Caos. Chuvas ácidas. Morte. Não é sorte. Sorte é Morte. Inseticida. Pesticida. Sociedade suicida. Sociedade ensandecida. Morte. Comida? Veneno vertendo morte. Veneno empesteando garrote. Comida? Futuro sem norte. Mulheres com cortes.

Mato aprisionado em vaso. Peixe encarcerado em aquário. Cachorros geneticamente modificados. Animais geneticamente domesticados. Animais substituem menores abandonados. Criança, que se esquece, padece, embrutece, emburrece. Menino assassino. Morre. Menino ferino. Morre. Meninas inexatas. Morre. Meninas baratas. Morre. Meninas estupradas. Morre. Ataca. Matatatatata... Assalta Matatatatata... Menino. Adulto. Bruto. Detento. Excremento. Matatatatata...

Mundo invertido. Mundo carcomido. Comida transgênica. Comida anti-higiênica. Água reciclada. Bebida adulterada. Felicidade engarrafada. Ração enlatada. Lata. Ataca. Mata. Quem somos nós? Somos nós? Tormento? Esquecimento? Animal peçonhento? Com arma na mão. A sociedade lhe diz não, lhe diz cão. Deixa sangue no chão. Sangue contaminado? Fome. Míseros ossos. Fome. Homem destroços. Fome. Matatatatata...

Roda viva. Roda da Viva.

Viramundo. Giramundo.

Conservantes, edulcorantes, antioxidantes, corantes, espessantes, estabilizantes, umectantes, fertilizantes, acidulantes... O que eu como? Geleia de bactérias? Gelatinas deletérias? Partículas de coisa nenhuma? Restos de coisa alguma? Gosto de coisa nenhuma? Vida sem cor. Vida com dor. Refugiados. Terror. Soldados. Horror. Fedor de inseticida. Fedor de pesticida. Sinto-me edulcorado, sinto-me despedaçado. Estou adubado. Estou contaminado. Ser destroçado. Ser massacrado.

Pouca gente para plantar, muita gente para comer; muita gente para respirar; pouca água para beber; muita matéria-prima para transformar; pouco planeta para sobreviver. A terra enterra a terra. A guerra contamina a terra. Enorme população. Mínima educação. Armas cuspindo morte.Armas matando a sorte. Amazônia. Governo. Ama a zona. Desgoverno. Ilha de plástico. Plastifico. Plástico no pacífico. 

Roda viva. Roda da Viva.

Viramundo. Giramundo.

A SINA O boxeador e o vestibulando precisam vencer

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Assim é: Pisou no ringue. Começa a luta.

Assim é: O sangue pulsa. Começa a disputa.

Assim é: Os olhos do oponente dizem: “Vou ganhar”; os seus têm que dizer: “Não vou perder”.

Assim é: Ganhar. Perder. Começa a luta.

Assim é: A vida é um ringue. Grita o apresentador: “Segundos, fora!”.

Na verdade: A luta começa, assim que começa o treinamento.

Na verdade: Todo mundo nasce sozinho, meu amigo. Todo mundo morre sozinho.

Na verdade: “Se você tem medo de perder, já perdeu”.

O seu medo alimenta o seu oponente. Pelo corredor apertado, só passa um: “Segundos, fora”. Dois não ocupam a mesma vaga: “Segundos, fora”.

Você ou ele? A vida é assim, há os que tocam e os que dançam; os que batem e os que apanham. Há os que entendem que a força está na tática, na observação e na adaptação.

Você ou ele? A vida é assim, há os que vivem pedindo desculpas aos outros e os que vivem sabotando a si mesmos; os que fracassam sem intenção; os que fracassam com razão; os que se diminuem frente aos concorrentes; os que se escondem.

Quando você mente para os outros, há um problema: knockdown.

Quando você mente para si mesmo(a), o problema é ainda maior: nocaute.

Você entrou no treinamento com medo de apanhar? Seu adversário sem pena de bater. Ele escolheu o sparring mais forte, aquele de quem poderia apanhar. Você escolheu aquele em que poderia bater. Escolher o caminho mais fácil, quase sempre não é a melhor escolha. Treino é treino; o jogo é jogo. Simulado não é vestibular.

Você gosta de esportes? Vamos trazer a filosofia do esporte para dentro do vestibular. Gosto muito do trabalho de alguns técnicos. Um dos que mais admiro é Bernardinho: ganhou 28 títulos em 16 anos. É o maior vencedor da história dos esportes coletivos. Primeiro, propôs-se a recuperar a autoestima dos jogadores brasileiros. Nossa seleção era baixa para os padrões do vôlei mundial. A velocidade, então, passou a ser nossa arma letal. Os adversários aprenderam, tornaram-se rápidos. A consistência defensiva, então, se tornou nossa arma letal. Os adversários melhoraram suas defesas. A imprevisibilidade, então, se tornou nossa arma letal. Os adversários copiaram as jogadas. Nossa força mental passou a ser o nosso grande diferencial. Nossa seleção estabeleceu a maior hegemonia da história. Bernardinho se reinventou sempre, para vencer.

John Speraw, treinador dos EUA, estudou o Brasil e a segurança que virou “soberba”. O Brasil ganhava, antes de ganhar, então jogou a isca. Ganhávamos dos EUA na fase de classificação, mas perdíamos na decisão. Speraw percebeu que, a única forma de vencer, era criar estratégias mentais. É preciso aprender com o adversário, porém nunca ter medo dele.

“Mudando de pato para ganso”: Vencida a Copa do Mundo Feminina, a capitã Megan Rapinoe afirmou que sua seleção não entrou para jogar a copa, mas para ganhá-la. Disse que poderia soar como arrogância? Sim, mas, segundo ela, não: a seleção é apenas a extensão da cultura do seu país, da mentalidade vencedora implantada desde sempre.

Citei exemplos dos esportes americanos, adeptos dos treinos dos fundamentos e da força mental, mas poderia citar outros projetos vencedores, como os de Pepe Guardiola e Jurgen Klopp. O vestibular é competição. “Segundos, fora”. Muitos jogos são definidos aos 49 minutos do segundo tempo; o vestibular também. Ainda há tempo.

Meu amigo, este é o momento em que você começa a ganhar ou perder sua vaga na universidade. É o momento em que todo mundo reclama de cansaço. É o momento em que reclama de tudo. Alguns se agarram à reclamação, para dizerem que estão ansiosos ou depressivos. Força mental é a resposta: não cultive esse hábito danoso de sofrer por antecipação. Crie suas estratégias. Conscientize-se de seus limites. Controle seus medos. Quem passa, não é o mais inteligente, nem o mais esperto, mas o que melhor se adapta às regras da competição. 

ESCREVER BEM É CONSEQUÊNCIA DE PENSAR BEM

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O maior desafio do escritor é a folha de papel em branco. Como preenchê-la, se ela é o retrato em celulose do nosso pensamento? Ao expressarmos uma opinião, desnudamo-nos por completo. E se as pessoas não gostarem do que escrevemos? E se elas perceberem que não temos lá muita coisa a dizer? E se elas nos acharem mais ignorantes do que na verdade somos? E se elas acabarem por descobrir o que nem nós mesmos sabemos que temos?

Escrever é um ato de coragem, mas também de desprendimento. Uma parte de nós será dada ao leitor sem qualquer pudor, pois as entrelinhas externarão o que, de nós, definitivamente não conseguimos controlar. Deixaremos escapar o que nem sequer sabemos fazer parte das nossas memórias ou nossos princípios. Serão os chamados pressupostos e subentendidos. Quase sempre é essa faceta do texto que mete medo no escritor, mas quase sempre delicia o leitor atento, detetive das relações entre tema, texto e autor.
Escrever pode também ser um ato arrebatador, quando não temos coragem de por arreios no pensamento para que ele possa arrebentar a represa, inundar nossas emoções com palavras, frases, relações de sentido. Nesse momento, a caneta passa a correr atrás das palavras que começam a brotar em cascatas, sem dar conta de chegar ao fim de uma frase, sem já estar com a outra no colo. Euforia, nervosismo, mãos suando, coração batendo forte e, no ponto final, a sensação de saciedade. Texto perigoso feito faca de corte fino ou quebra-cabeça com peças espalhadas. É como riacho caindo nas cavernas obscuras da mente, é lindo, mas nunca se sabe onde vai dar.
Se há imagens e ideias querendo correr pelo pátio, deixe-as rolar pelo chão, sujar as roupas, contaminar-se com a alegria das outras e pararem entre risonhas e assustadas diante do choro das que ralaram os joelhos ou perderam uma parte da pele das mãos. Palavras são seres interessantes, pois se relacionam umas com as outras sem nenhum pudor ou preconceito. Às vezes, parecem crianças indomáveis que usam máscaras diversas, nem sempre de acordo com a música tocada. Primeiro, é melhor dar-lhes pés, para fazê-las sentir de perto a realidade. Depois, o negócio é dar-lhes asas, para que possam voar pela imaginação. Palavras, assim como as crianças, são seres mutantes, imprevisíveis, por isso, muitas vezes, o chicote e a cadeira farão de você um domador. Andará sobre a linha que dividirá o medo da excitação.
Escrever pode trazer profunda angústia, quando o fórceps não dá conta de extrair a criança encruada no útero da imaginação e já nos preocupamos com a cesariana que possa salvá-la. Muitas vezes, uma ideia precisa ser subornada com a inversão de valores, a cultura geral ou as experiências pessoais para passar pelo corretor apertado da criação e nascer, dependendo muito da habilidade do médico. Um adubo feito com cada um desses ingredientes pode fazer com que uma semente se transforme em broto e o broto cultivado frutifique. O segredo é atirar-se no papel desordenadamente, sem medo de ser feliz. Depois das vísceras expostas no papel, a escolha de um ingrediente para dar liga ao texto trará consistência ao resultado final.
Se as imagens e as ideias se recusam a tomar forma, não se entregue ao desespero. O Davi, de Michelangelo, nasceu de um bloco monolítico de mármore. Alguns ingredientes devem se somar para dar-lhes forma: uma dose de paciência, um pouco de disciplina e muito de espontaneidade. Como um bom detetive, é ora de vasculhar a mente em busca de relações, confissões e revelações. Sob a face explícita, a face oculta das palavras esconde muitas facetas como num caleidoscópio. Se uma ideia está em estado latente, coloque-lhe plumas, rabisque em volta dela as lembranças que ela lhe traz, depois empurre-a para frente, em seguida a faça voltar sobre seus próprios passos. Observe as suas reações ao deslocá-la para a direita e para a esquerda (a ambiguidade aqui é proposital). Pense no seu interlocutor e jogue-lhe na cara o fato de que aquela imagem tem vida própria, mas não quer se mostrar. Confesse para quem quiser lê-lo a sua dificuldade em descobrir as suscetibilidades de cada definição.
Escrever uma dissertação no vestibular exige uma conduta um pouco mais complexa, um verdadeiro trabalho de detetive, para descobrir o DNA de cada faculdade, já que elas possuem personalidades próprias e só aceitam quem realmente se adapta ao seu meio. Cada uma delas só desce a ponte que separa o castelo do resto da comunidade, o que lhes confere aquele ar de lugar impenetrável, quando o aluno conhece as fresas da chave mestra e os códigos necessários para abrir as portas. Faculdades são temperamentais, têm identidade própria, conceitos próprios e promovem o mais intenso tipo de darwinismo social de que se tem conhecimento na história moderna, o processo seletivo contido no vestibular. Não há lugar para os fracos e os vacilantes, muito menos os arrogantes e vaidosos. O vestibular só admite os camaleônicos, os que se adaptam a qualquer ambiente e se fazem capazes de desenvolver qualquer tipo de tema. Além disso, não se amedrontam diante de tempos escassos e nem de examinadores com caras de poucos amigos. O texto deve ser simples, direto e objetivo, com toques de emoção, espontaneidade, informação e confissão. A redação de vestibular ainda traz consigo um outro pequeno problema: o manual de instruções. Os investigadores nem ligam para isso, estão acostumados a decifrar códigos.

URGENTE

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​5h da manhã:

– Alguém liga para o meu celular com voz de quem chegou do inferno: Preciso falar com o senhor urgentemente.

– Quem fala?

– Um amigo.

– Qual amigo?

O professor Zé atropelou uma vaca, quando ia dar aula. A vaca morreu.

– Mas, são 5h. A aula só começa às 07h30min.

– Como ele está?

– Ele? Não sei. A vaca morreu.

(Ao fundo)

– Diga que eu estou na UTI.

– Ah, sim! Mandou avisar que está na UTI.

– Desliguei.

07h da manhã:

– Preciso falar com o senhor urgentemente. Tenho uma ótima notícia.

– Quem fala?

– Estou ligando para dizer que o senhor ganhou grátis a assinatura do jornal Tribuna.

– Não quero.

– Ganhou grátis, senhor. O senhor não estará pagando nada e estará recebendo o jornal 20 dias. Só estará pagando se continuar a receber.

– Não quero.

– Mas, o senhor não entendeu.

– Entendi sim. Desliguei.

08h30min da manhã:

– Preciso falar com o senhor urgentemente.

– Quem fala?

– A Pri. 

–Não estou passando muito bem. Não posso trabalhar hoje.

– O que você tem?

– Não sei. Me deu um troço no peito na quadra da escola, meu coração tá na boca.

– Se não passar, eu vou ao médico. Mas, amanhã tô aí.

– Vá ao hospital, para se consultar e ver o que há.

– Não precisa. Se der, eu vou.

– Desliguei.

10h14min

– Preciso falar urgentemente com o senhor.

– Quem fala?

– É o Zé.

– Que Zé?

– O Zé, porra!!!

– O que você quer, Zé (seja que Zé for)?

– Quero lhe dizer que talvez eu precise de uma grana emprestada.

– O que aconteceu?

– Ainda não sei. Minha mulher ficou de me ligar.

– Desliguei.

11h45min

– Aqui é o Joel, seu aluno. 

–Preciso falar urgentemente contigo?

– Pode falar Joel.

– Não vou atrapalhar?

– Não.

– Tem certeza?

– Tenho.

– Não sei se presto vestibular para direito ou para medicina. Apesar de a gente estar em agosto e o vestibular ser apenas em novembro, já estou angustiado.

– Conversaremos pessoalmente na escola, é bem melhor. Pode ser?

– Ah! Tá bom.

– Desliguei.

12h15min

– Toca o telefone.


– Posso falar contigo? É urgente.

– Pode.

– Não estou atrapalhando o seu almoço?

– Só almoço ao meio dia e meia.

– Se eu estiver atrapalhando, te ligo às 2h.

– Dou aula às 2h.

– Se você quiser, te ligo no final da tarde.

– Na hora que você quiser.

– Valeu.

– Desliguei.

14h

– O presidente da república exigiu do presidente da Câmara votar a lei em regime de urgência.

– O presidente da Câmara disse que ela poderia trancar a pauta das votações.

– O presidente, então, disse que ele deveria tirar o “regime de urgência”, mas teria que ser votada até o final do mês.

Urgência X emergência

Durante este dia e os dias que se seguiram, por um motivo ou por outro, tudo era urgente para todo mundo. Algumas coisas realmente eram, porém, se fosse contabilizar, totalizariam não mais que 5%.

As pessoas confundem urgência com emergência.

Emergência significa ameaça imediata para o bem-estar,

Urgência é uma ameaça em um futuro próximo, que pode vir a se tornar uma emergência.

A emergência é o imprevisto, que precisa de uma solução imediata. A urgência precisa de uma solução em curto prazo.

No mundo dos smarthfones e redes sociais, tudo se tonou urgente.

Pergunte-se: “Urgente para quem?”.

No mundo em que tudo parece ser feito para ontem, vivemos, na verdade, esperando o amanhã: a sexta-feira, o feriado, as férias, o final do ano... É angustiante. Tudo demora a chegar e tudo passa muito rápido.

Tudo acontece tão rápido, que reclamamos o tempo todo de que falta tempo para fazer tudo. Mas, será que distribuímos esse “tudo” entre o que é realmente urgente, o que é emergencial e o que pode ser adiado?

Você crê que isso é perda de tempo. Não é?

Por que vivemos ansiosos, depressivos, temos crises de pânico e sofremos de agorafobia? Não seria porque não aprendemos a administrar nosso tempo?

Por que há uma juventude estressada que toma remédios que, décadas atrás, eram receitados para velhos? Todos envelhecemos rápido demais.

Urgente para quem? Para mim ou para a outra pessoa?

​EFEITO WERTHER: A REVOLUÇÃO DO NADA

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(O BOCA DO INFERNO – DIRETO DE UMA ESTÁTUA DA LIBERDADE)

Nesta fria tarde de domingo, vasculho uma obra arrepiante do Romantismo francês, “A liberdade guinando o povo” de Eugène Delacroix. A liberdade, no centro da tela, parece prestes a pular para fora da cena. O frio torturante convida a uma taça de um “Grand Crus” da região de Bordeaux, impiedosamente invadida pelos cães nazistas durante a Segunda Guerra Mundial. A obra expõe as vísceras do idiotizado mundo pequeno burguês, que se acredita predestinado a ser, um dia, burguês.
A Liberdade panfletária está representada por uma bela mulher de seios fartos. Um à mostra; o outro semicoberto. O sensual escancarado amamenta a sede de ilusões; o semicoberto camufla certeiras intenções. O bico desnudo fere despudoradamente a moral; o bico mal disfarçado abriga a hipocrisia do pudor. Assim é a liberdade. Nua da cintura para cima; vestida da cintura para baixo. Da cintura para cima, alimenta sensações, desejos, ilusões; da cintura para baixo, sonega, desalenta, acoberta ilusões. Ora ambígua, ora intempestiva, ora engana, ora desengana. Veste-se como uma “misérrima deusa grega”, entre Atena e Medusa, Hera e Afrodite. Leva aos devaneios de Baco os idealistas, ao inferno de Hades os oponentes. Assim é a liberdade. Antes acorrenta, de escapar. Antes fanatiza, para ficar.
Assim são as revoluções. Impassível, arrogantemente pacífica, a Liberdade segura a bandeira francesa em uma das mãos; um mosquetão, uma baioneta na outra. O cano cospe a morte aos borbotões; a baioneta espeta opositores como porcos, empilha cadáveres no chão coalhado de sangue. Para conquistá-la, é preciso pisotear, engolir a sorte, cuspir a morte, ora com asco, ora com gosto. Assim é a liberdade. Pisa corpos, seguida por sôfregos jovens idealistas e calejados adultos furiosos em seu nome.
Assim são as revoluções. Aos pés da dita Liberdade, um homem a olha suplicante esperando que ela se compadeça dele. Impiedosa, ignora-o. O rosto é pura soberba expelindo o caldo de emoções, é irmã xifópaga do Caos. Seus olhos desertam da luta, miram a História, filha das horas, da ação dos homens, degustando as vísceras da vitória sangrenta. Assim é a liberdade. A farsa. Não é ela que luta, os idiotas, os corvos, as meias verdades, os idealistas é que lutam para serem donatários dela, que jamais se submete a nada, nem a ninguém. Sempre insatisfeita. Sempre antropófaga.
Delacroix pinta a tempestade cobrindo o Céu raivoso comendo a genitália de Gaia desafeta da sua sede de orgasmos. Assim são as revoluções. Libertè, Igualitè, Fraternitè: suprema ironia. Saturno corta o pênis de Urano (céu inclemente) em nome do próprio furor. A burguesa arrasta o povo bucha de canhão para uma guerra em que há apenas um futuro, só haverá um vencedor: ela, com sua sede de orgasmos. Os urubus se empanturram de carniça. Um revolucionário não passa disso, um cadáver insepulto, não um titã. Titã come seus filhos como Saturno o fez. Assim são as revoluções burguesas. Cria titãs ao invés de deuses. Ao invés de luz, escuridão. Raios machucam Gaia, a vingança turva a visão. 
O pintor pensou em tudo isso, me perguntam? Sei lá; eu sim. Há infinitas interpretações convenientes para a liberdade e as revoluções. A minha é esta. Hipocrisia, mãe da revolução burguesa, se banha com o poder da vitória. O lucro mata com mosquetão; a desigualdade corta com faca. Os cegos, que derrubaram o castelo, suicidaram-se, ao se tornaram tardiamente reféns da percepção, bêbados com a farsa do poder. Sobrou o suicídio, como alternativa. A ansiedade e a depressão, como sintomas do real atropelado pela ambição. O que ama burguesia? O dinheiro. Quem ama o burguês? O arrivista. O que a burguesia pode comprar? O poder. Até mesmo a dignidade e a amizade. A arma do burguês? A guilhotina. Cada homem tem um preço, diz o burguês, corrompendo com a promessa de um novo status quo. A vaidade do pequeno burguês colabora. 
A burguesia compra paliativos para as dores do físico, da alma e do coração. Comprimida se entope de comprimidos para entontecer a razão. Cura corpos, mas sofre de frustração. O suicídio, arma da solidão do agora, da ansiedade pela rapidez de um futuro próspero, da depressão por causa de um passado inapetente, é a desrazão. Efeito Werther? Assim são as revoluções. Externas afligem as internas. Os sofrimentos do jovem Werther contaminam como praga. O burguês não aprendeu a sofrer com sua criação: Libertè, Igualitè, Fraternitè. Não consegue conviver com sua hipocrisia.
Nunca houve uma revolução popular. Pergunte à história? O povo nunca esteve no poder, observe a pintura de Delacroix. Enraízam-se no poder os espertos, os acumuladores, os possuidores, os que se impõem pela razão sem nenhuma razão. Os que dominam, os que criam crises para ganhar. Os donos do pó. Os donos do cimento. Os que transformam carnes em adubos. Os que carregam os cegos sem lhes dar a bengala, muito menos a mão. Os que vendem caixões, os generais. Enfim, quem tem dinheiro, como matéria prima. Nunca os soldados, os carpinteiros, os sabedores, os professores. Protestar sem fazer não é arma contrarrevolucionária. Vaias são a covardia dos iludidos e arrependidos. Se estamos no mundo da pós-verdade, para piorar vem aí o mundo da pós-realidade. A revolução através da vaia virtual. Uma oração não compra um perdão: sentenciou a lúgubre obra do pintor poeta. A tarde continua fria. O sol não esquenta o corpo nem a alma. Nossa própria alienação vê apenas uma bela estátua, incapaz de nos ajudar. Não há um “grand cru”, há só desejo e paladar; há olhos sim para degustar e se perder nos meandros da obra Delacroix, com a liberdade prestes a saltar do meio da cena para nos embriaga

​De 15 em 15 anos, o Brasil esquece do que aconteceu nos últimos 15 anos

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(Ivan Lessa).

(O Boca do Inferno - direto do centro do centro da política)

Para quem não sabe ou não se lembra, Ivan Lessa foi um jornalista polêmico, instigante, sarcástico, um dos grandes a criar o jornal O Pasquim. Seus comentários eram ácidos.
Lembrei-me dessa frase dele, ao ler neste domingo a coluna da deputada Tabata Amaral do PDT na Folha de São Paulo. A combativa deputada que, por sinal, demonstra que a juventude não está perdida, ainda se interessa por política. Saiu-se bem nos raros momentos em que Pedro Bial lhe fez perguntas relevantes no programa Conversa com Bial. Advinda de uma classe média, estudante bolsista em um escola particular, impressionou-me positivamente também ao encostar a ministra Damares Alves na parede, ao se valer de um discurso articulado, baseado nas suas experiências, cheio de posições muito claras e argumentos inteligentes. Vê-se nela o que se convencionou chamar de emponderamento. O Brasil adora uma convenção e ainda mais uma palavra "noiva" para habitar discursos modernosos.
No artigo, ao qual me refiro, impressionou-me mal. A jovem deputada repetiu antigos jargões e se perdeu em expressões vazias, como "partido de centro-esquerda" (divertido isso, pois há a centro-direita e o centrão, falta o centro-centro), "velha política" (qual é a nova? Todos os salvadores da pátria repetiram esse jargão e continuamos exatamente onde sempre estivemos), "convicções sociais", "crescimento sustentável", "esquerda inflexível" (estamos ainda na conversa fiada de rotulagens? Então, quer dizer que há uma direita flexível? Então, o centrão é flexível quanto à distribuição de cargos e verbas?).
Só concordei com a jovem deputada, quando ela afirmou que o Brasil precisa de uma "reforma" (detesto essa palavra, porque traz a ideia do velho com botox) "política" (temos partidos?) "urgente". 
Não me importa se o indivíduo é de esquerda ou direita. Chamar o indivíduo de petralha ou de bolsominion nos fez sair do lugar ou só estimulou o confronto)? Importa-me que ele tenha o mínimo de "SENSO" para defender suas posições. Todo conflito interessa a alguém que está de fora rindo. Neste caso, interessa a quem?
Abismou-me a deputada cair na lábia de que a "REFORMA DA PREVIDÊNCIA" ajudará a resolver os gaves problemas que o país enfrenta (esta reforma cria distorções ainda maiores. Muita gente a defendeu em passeatas sem saber do que se tratava. Quando descobriu o estrago que os tentáculos do monstrengo, tentou voltar, mas já era tarde). O Ministro da Economia se arrepia ao tocar no imposto sobre grandes fortunas (até porque Paulo Guedes não é exatamente pobre), corte de privilégios do legislativo e do executivo (isso provocaria superlotação de enfartados nos hospitais de Brasília), a partir de ontem. Perceberam que no momento de votar os pontos de destaque da reforma, o congresso entrou em recesso? Não? Rodrigo Maia rapidinho tirou o dele da reta, porque sabe o que vem por aí. Então, esperem os congressistas voltarem oficialmente e verão. Muitos não voltaram para casa, continuam nas sombras de Brasília negociando verbas e cargos. 
Torço deputada para que a razão seja maior que a sedução. Cuidado, quando políticos consideram qualquer político noiva.

ARCO DE FOGO A natureza da razão

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Arco de fogo é o nome de uma operação da polícia federal na Amazônia, deflagrada para autuar e prender madeireiros no meio da imensa floresta cerrada e serrada. É também o título da obra do Delegado Edson Geraldo de Souza e do repórter investigativo João Carlos Borda. Na nota dos autores, previnem: Esse é um livro para quem tem sangue frio. Um livro para quem tem estômago de ferro. Na apresentação, explicam: Essa é uma obra inspirada em fatos reais. O narrador, ao mergulhar na mente de pessoas “reais”, torna-os personagens ficcionais. Ele os vira ao avesso fato a fato, ao relatar, por exemplo, o episódio em que policiais precisavam atravessar o rio caudaloso sobre uma balsa sob uma tempestade, impiedosa, dirigindo um caminhão sem freio, carregado de madeira roubada. A correnteza aumenta, a carga escorrega, quase levando a balsa a pique. O único “pecado”, se é que se pode dizer isso, são as fotos em preto e branco. Coloridas, mergulhariam ainda mais o leitor no universo amazonense.

No início da leitura, o leitor se depara com uma sucessão de relatos sobre as operações da Polícia Federal (PF), do Instituto Chico Mendes de Biologia (ICMBIO) e do IBAMA (governo federal), como se os autores pretendessem redigir um diário de guerra, no entanto, à medida que a leitor avança, o relato cede lugar à análise do ser humano que habita cada policial. A maioria deles abandonou suas famílias para se embrenharem na floresta, enfrentando garimpeiros, grileiros, serralheiros e, pior, politiqueiros. O narrador nos remete a um fato deveras curioso: há homens que não vivem sem a adrenalina do combate permanente. Só ali se sentem verdadeiramente úteis. As notas de pé de página são esclarecedoras de fato.

Prender um carregamento de madeira não é apenas uma questão de exercer a autoridade, mas de legitimar a honra. O delegado Henrique que, pelo terceiro ano consecutivo, não comemora o aniversário de casamento com a esposa, é a síntese do homem cumpridor de seus deveres, mas também da impotência daquele que não tem como cortar os fios de uma teia que se espalha por todo país, cujo cordão umbilical habita Brasília. Busca saídas para cumprir seus deveres, porém esbarra nos documentos forjados pelos poderosos locais, estaduais e federais. Matar policiais é ato de bravura recompensado com caraminguás.

São evidentes os tentáculos ardilosos do poder político e econômico e até mesmo policiais. Usam os desvalidos para se perpetuarem no poder e se manterem à margem da lei. O narrador desvenda esse modus operandi. Usam pessoas miseráveis para sabotarem qualquer intervenção da polícia, do IBAMA e da ACMBIO na mata fechada. Advogados corruptos, a serviço dos donos de Santarém, Curuatinga, Uruará, Mucuxipi, dentre outros tantos aglomeramentos de pessoas, a que chamam de povoados, têm livre trânsito nos tribunais e delegacias para liberar as cargas apreendidas e seus burros de carga.

Alerta: “O importante é sempre descobrir o fluxo de madeira, que muda constantemente de lugar, conforme o esgotamento ou repressão. As apreensões e serrarias móveis causam grande prejuízo aos criminosos. Caso haja descontinuidade no mapeamento, há risco de demorar-se excessivamente na localização da ova fonte. As demandas podem vir de análise social por satélite ou de investigações da base. A extração atual, provavelmente, está migrando para a região de Curuatinga”. (pág. 68)

Os ativistas morrem antes de morrer, um policial também. A impressão é a de que vivem cotidianamente com uma bala prestes a entrar nas suas cabeças. As grandes empresas e os grandes fundos internacionais fazem do replantio de árvores um grande jogo de cena – diz o narrador. Tudo não passa de jogo político e econômico. Como deixa claro o delegado Henrique, constante narrador dos fatos, em 1ª pessoa, só há madeireiros e serrarias clandestinas, porque há compradores para a madeira. Essa prática se ramifica por grandes e médias cidades. Operações são constantemente deflagradas e o resultado parece ser cavar um buraco na areia. Na capa, a “guerra invisível no coração da Amazônia”, só é invisível, porque a desinformação interessa muita gente. A contracapa deixa bem claro: “No coração da Amazônia, uma batalha pela sobrevivência – de árvores e de homens. Para socorrer a floresta que sangra, uma corrida contra o tempo...”. Uma corrida contra a desinformação e contra a corrupção.

Combate-se o descalabro na Amazônia com um band aid, se muito. Deixa, nas entrelinhas, o narrador por vezes onisciente, que essa é a conclusão a que chegam todos os comandados do delegado. O narrador afirma que a floresta sangra, mas ainda pulsa na UTI. Os dilemas, os medos, as vitórias, a honra desmistificam a ideia de que todo policial é corrupto, contudo não lhes impõe a pecha de heróis. São homens que cumprem seu dever com dignidade, apesar da perda de companheiros e de amigos que não suportam lutar uma batalha que acreditam perdida. Henrique crê que é possível, pelo menos, minimizar.

João Carlos Borda é profissional que adora o perigo. Sua diversão nas férias é se enfiar nos buracos mais lúgubres do mundo em busca de aventuras e pesquisas, refém da adrenalina. Talvez isso se deva ao sangue do marinheiro que não sabia, mas nasceu jornalista. A prosa discorrente de Edson e João é um convite à leitura da obra e à reflexão. É um mergulho na Amazônia e também na alma humana. É tão profundo quanto o mergulho na floresta. Arco de Fogo é um convite ao prazer de ler. 

NAU DOS INSENSATOS

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(O BOCA DO INFERNO – DIRETO DO MAR EMPANTURRADO)

Nesta fria tarde de julho de Ribeirão Preto, navega uma jangada repleta de corpos empilhados sob um céu tempestuoso bem na minha frente. É possível sentir o fedor da morte e a dor dos que agonizam. É possível imaginar os urubus. “A Balsa da Medusa”, naufragada nas costas da Mauritânia, é a obsessão de Théodore Géricault, que chegou a entrevistar e pintar os míseros e minguados sobreviventes. Assim são as revoluções: os artistas pintam os corpos empilhados, o sofrimento como praga e a esperança indigesta, antropófaga. Os poetas criarão lendas, os trovadores as cantarão, os historiadores se perderão.

A tarde convidava a uma bela taça de Romanée Conti, minha obsessão, justamente por ter o gosto oposto ao das invasões: aromas e sabores florais, manteiga, frutas vermelhas, terra fértil. Do útero da terra de Vosne-Romanée, brotam as uvas pinot noir que tintam a terra de vermelho, adubando o chão. O Romanée-Conti é considerado o grand cru da Borgonha pela sua elegância. A região ostenta o título de Apelação de Origem Controlada. A única empresa que detém o direito de explorar essa riqueza, chama-se Domaine de la Romanée-Conti. Domaine significa produtor: o que fertiliza a terra.

A “Balsa da Medusa” coalhou o mar de vermelho. O mar tem fome. Fome de gente. Fome de almas. Mesmo com tanta água, aventureiros, idealistas, sonhadores e conquistadores morreram de sede. Ironicamente, mesmo com tanta comida ao alcance das varas, morreram de fome. Não tiveram um lote na terra esturricada pelo sol do Senegal, mas tiveram seu quinhão de água salgada, por culpa das tempestades. Somente o rei pode explorar a terra e a água. O rei não é produtor, é executor. A fragata naufragava, enquanto o rei tomava seu cálice de vinho com sabor de frutas e terra fresca.

A utopia da França escravagista sufocou o ódio de tribos inimigas figadais há séculos, debaixo de chibata, canhões e espada. Deu o nome a esse lugar irreconhecível de Senegal. A África escravizada, mal amada, maltrapilha, estuprada pelos brancos patrões, repleta de “maus” costumes pagãos, virou pesadelo distópico para a grande potência ignorante. As tribos não falavam a mesma língua, não compartilhavam dos mesmos deuses, não se reconheciam sob a batuta de um maestro que criou um réquiem apelidado de Senegal.

Assim são as revoluções. Inimigos não têm idade, não têm raízes, não têm alma, só têm corpo, mas têm riquezas. A tortura machuca o corpo, a alma, a razão, a identidade em busca de enriquecimento.  

Aos dominados, sobra a humilhação, os restos e a podridão. O Papa legitimou a escravidão, as potências legitimaram as invasões, as delações e as destruições. O sol esturricou o solo, o francês com o mosquetão tingiu o solo estéril de vermelho, os urubus comeram as carnes, as carcaças não apodreceram, não adubaram o chão. Os deuses dos negros não se irmanaram com o deus branco, no entanto ambos são vingativos. Deuses não têm cara, mas seus seguidores têm armas fanatismo e nenhuma piedade, nem coração. E como se mata em nome de deus!!!!

A fragata Medusa soçobrou. O capitão inconsequente foi acusado de incompetente, inexperiente, mas seria nomeado intendente das terras que os enganados habitariam. Mas era nobre. Mas era obcecado pela fama. Ao peso de tantos mortos, o rei soçobrou. Os incompetentes nomeados viram marionetes dos abastados e os sonhadores insensatos, crendo-se ungidos por deus, como carneirinhos, não carregam nenhum juízo, carregando os herdeiros das tragédias. Assim são as revoluções. O povo nunca esteve no poder e nunca estará. Os incultos, propositalmente, só conhecem uma migalha da história. Nunca houve a verdade. O povo nunca tem a consciência dos seus destinos, enquanto os poderosos se regozijam com taças e mais taças de Romanée-Conti. Interessado leitor que chegou até aqui no final deste arrazoado, não fui convidado para o banquete. Como eu, você sonhará com uma taça de um dos vinhos mais caros do mundo que só os beiços dos ricos consegue encontrar. Você está na balsa da medusa, como tripulante. Você só não sabe e nem saberá do momento em que ele vai encalhar e soçobrar. Iludido, a bordo de um dedo, você apertará o botão que, como um passe de mágica, fará tudo mudar.

A AMAZÔNIA CALVA SANGRA

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Começa com AMA

Quem ama, cuida. E não cuidamos. Sofremos. Mas não cuidamos.

Testemunhamos. E nunca cuidamos.

Não conservamos. Cortamos. Não replantamos.

A ignorância é uma bênção, é também a tragédia: a praga.
Vendados pelo discurso dos idiotas, não cuidamos.

Na pele, sofremos com o sol e com o frio.
E falamos e falamos e falamos e falamos. E nada fazemos. Só falamos. E só.
Protestamos. E só. Praguejamos. E só. Só sabemos protestar. E só. Só sabemos praguejar. E só.
Quem cuida, morre.

Ativistas viram notícias de pé de página. Orelha de livro ou nome de ONG, quando muito.

Como sempre viram memória. Como sempre, acabam esquecidos, ignorados.

Todos os dias morrem ativistas. E os governos safadamente surdos e mudos os empilham como carvão.
E nós, como sempre, desativados, alienados, abobalhados. Surdos e cegos por conveniência ou indecência.
As árvores agonizam. Os rios agonizam. As populações agonizam.
Aprisionados nos nossos umbigos, aplaudimos o discurso dos idiotas de plantão. Dos interesseiros e despreocupados. Dos lobistas. Dos canalhas de plantão. Interessados si8m na verba para a próxima eleição.

Interesse no capital e desinteresse na humanidade, no SER humano em algum momento da vida. Discursos proferidos como merda aos borbotões em uma ilha chamada Brasília.

Terra de todos e terra de ninguém, onde se fala, fala, fala do que não sei. Sei do escuso? Do obtuso? Sei.

E sofremos. E não entendemos, porque não queremos.

Consentir vale muito. Consentir desobriga. Mas, vale dinheiro. Muito dinheiro. E muito suborno.
Poderosos e indecorosos mentem e mentem. Em nome de interesses, mentem. 
E sabemos. E nos acovardamos. E nos escondemos. Da morte. Da sorte.
Morre a árvore. Morre a seiva da terra. Estéril.

A árvore não tem cio. Não gera filhos. Não existe comunhão.

Só chão esturricado. Desértico. Só chão. Terra batida. Só chão. Só deserto. Só chão. Sem pássaros, sem fauna, sem flora, só a morte aflora. Sobra morte.
Morremos ressecados, esturricados ou afogados, engolfados, como sempre e não nos damos conta.

E reclamos, e reclamamos, e reclamamos das secas inclementes e enchentes indecorosas.
Fazemos de conta que não entendemos. Só da terra do faz de conta. 
O ativista morre antes de morrer.

O dedo do gatilho apertado, mesmo antes de o cano cuspir a morte.

Viver assim?
Agoniza a Amazônia. Já calva. Cada vez menos ar, para cada vez mais gente respirar.
A gente morre cada dia um pouco. Sabemos. Mas não queremos saber.

A Amazônia já calva morre todo dia, estuprada a céu aberto.