​COMO FAREMOS PARA MUDAR ISSO

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(O BOCA DO INFERNO - NO DIA DA DESRAZÃO)

As coisas não estão encaminhadas, crianças caminham desnorteadas, rotas, desagregadas, sem futuro, nem comunhão.
O mundo nunca foi melhor e nem pior. O mundo tem a idade de cada história. Cada um de nós é a sua própria história.
Não somos apenas roupa rasgada e ideias na cabeça: não somos apenas canções ou bordões. Não precisamos de remendos nem costura. Não somos Frankenstein. Somos o presente. Ignóbil, sorridente, indecente. Somos o presente demente, histérico, imediatista, suicida.
Somos objetos para todo tipo de penduricalhos sim. Somos consumidores consumíveis sim. Somos o objeto do desejo sim. Somos o objeto que deseja sim. Somos o objeto.
Precisamos de mãos, olhos, ouvidos, boca e cérebro. Precisamos da palavra que não computa a dor, que não eleva dor, não acende a dor.
Precisamos mudar esse estado de coisas, esse estado e essas coisas: buracos na nossa percepção, mentiras dentro da nossa percepção, buracos, roubos para a nossa percepção, buracos, buracos e mais buracos e muito fedor. Há bandidos de gravata, tumor, câncer. Cansamos de ser? Cansamos de ter um dedo que ruma estirado, traído rumo à urna, rumo à tumba por quatro anos. Sofremos de Alzheimer político, de miopia politica, Sofremos. Não vamos omissos a bordo de um dedo às urnas? Nem vamos? Todos são o mesmo?
Ninguém nasce para ficar pequeno, nascemos para nos mudar, nos desfrutar, nos encontrar nas passeatas, nas praças, nas ruas, nas esquinas. Nascemos para querer, para pegar, para transformar, senão quem seremos?
Todo mundo nasce para tirar o lombo da chibata, não para presentear, com sua apatia, o feitor. Estamos com o lombo presente. Presente para o torturador. E reclamamos de que? Recusamo-nos a dar um passo à frente. Como sempre. Como nunca. Como quem não come.
O efeito dor está aí, temos que sair debaixo da toga dos desgraçados, dos que nos mandam respirar, calar, murmurar. Dos que querem nos subjugar. Dos que cobram dos outros a ética. Estética da qual sempre lançam mão por mau caratismo, por cacoete.

Como faremos para mudar isso?

É mentira: o nosso sol não brilha, nem brilhará um dia se você não acender a luz do seu quarto, do seu querer, da sua visão, da sua consciência, senão virará animal adestrado, objeto de consumo, produto de marketing..
Suas mãos viram a chave, abrem a porta, acendem a luz, suas ideias, suas utopias, suas epopeias. Suas mãos são suas, mas são guiadas, teleguiadas, armadas: morte do raciocínio, apenas rabiscos, garatujas.
Arme um idiota e ele destrói um mundo, usurpa um pensamento, enclausurada o que o desmascara, finge ser dono da moral e os bons costumes, seja lá o que isso signifique. Não estão nem aí para os seus filhos. Veem coerência nos incoerentes.
Arme um cretino e ele abraça outro fanático, constrói uma seita. Toda seita não aceita o seu contrário, o seu oposto. Simples assim. Lema: matar para justiçar.
Arme um energúmeno e ele mata garotos a esmo na escola. Mata a professora. O alfabeto, o analfabeto, o futuro na sua desrazão, mas reivindica suas razões, sua sde de vingança contra a sociedade, ouvindo vozes, vítimas suspeitas de bulliyng, maus tratos, solidão, pecado.
Ponha uma arma nas mãos de um cidadão de bem (?): se ele segurá-la, fuja. Ele não lhe quer tão bem assim. Mata o que crê inútil, fútil. Mata com sua viseira. Tem certeza nas suas incertezas. Não pensa nos próprios filhos nascendo na violência.

Como faremos para mudar isso?

Precisamos de adubos: precisamos de novas roupas coloridas, urgentemente de novos poemas, novas ideias, novas canções.
Nossos jovens estão monossilábicos, em que gaveta guardam o grito, lhes ensinamos o mutismo. Eles aprenderam rápido. Suicidam-se no silêncio, com silenciador e sua dor.
Nossos jovens sobreviventes preferem a disciplina à revolução, morreu a crença, agoniza o ideal, a fantasia. Cresce a mentira. Eles engolem. Mais fácil. Não há atitude a tomar, é só empacar. Como um jumento diante do córrego.

Como faremos para mudar isso?

É mentira, a ameaça de uma tempestade destruidora. A tempestade já está aqui há muito. A tempestade é a arma: ela afoga, através do discurso torto, da bala perdida com endereço certo, do assassinato do opositor que acha que sabe nadar. Ela afoga a poesia, a mudança. Ela quer destruir o que está, para nos presentear com o passado.
A chuva molha todo mundo, até quem acha que o guarda-chuva lhe protege. Não há inocentes numa dita chuva. A chuva de vento começa pelas pernas, chega à cabeça com o vírus, as secreções e a febre. Não há inocentes, dita a chuva. A chuva adoece o corpo e a alma. A chuva impede a luta. Aliena. É preciso pisar no barro. Afogar-se na lama, virar esterco. Como quem quer uma ditadura, se já vive sob ela? Como uma pessoa exige uma doença degenerativa? Bata no seu filho e atente para o monstro que criará?
Onde nossos jovens guardaram seus ideais, suas palavras de ordem, seu canto de guerra? Não pensam, não sabem da força da palavra, preferem o mutismo da vaca de presépio. Do não é comigo. Da brincadeira de cabra cega. 
Precisam ser ensinados, não doutrinados. Educação ou condução?

Então, como faremos para mudar isso?

É mentira do seu avô, no tempo dele nada era melhor: o passado está morto, mas não enterrado. É cadáver insepulto para culto dos saudosistas renitentes, a inflamação dos que não sabem e ódio dos motores, motores impulsionam para frente. 
Nossa estrada tem muitas curvas, curvas são necessárias para chegar às retas e as retas para chegar às curvas, como a mulher grávida que traz dentro de si sua continuação.
As coisas não estão encaminhadas, caminham, crianças precisam ser educadas, os velhos de velhas ideias precisam de empurrões.
O cotidiano cheira a merda nas páginas e nas telas e nas bocas. Insatisfação é bom. É o germe da ambição, o adubo da revolução.
Dente cariado precisa doer para ser tratado.
Há muitos traficantes e passantes; há bocas de lobo protegidas por dentes de ferro no passeio. Estão ali para machucarem saltos distraídos, romper tendões, ligamentos.
Há muita porrada a torto e a direito, os altos saltos agulha fingem não ver, é mais cômodo contornar a boca, já que lobos escondem a merda no submundo.
Dominar os ignorantes é torpe. Desapropriar a própria ignorância é distopia. Desabrigar a própria consciência virou mania.

Assim, como faremos para mudar isso?

Liberdade não existe, é mentira mal empregada, outrora desempregada, inventada para entreter quem se fartará com a revolução. Quem se infectará com a regressão.
Liberdade é como privacidade, cada um tem a ilusão de conseguir a sua.
Liberdade não é disciplina, é desrazão, é muro, é condução.
Como se faz para ascender a chama de quem não quer lutar, nunca soube idealizar, nunca soube o que é pensar? Sabe tão somente decorar.
A chama chama. Chama por uma utopia. Mas, não chama o ascendedor.

​MAIO, O MÊS DO DESMAIO

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Caro VESTIBULANDO, já escrevi e falei tanto sobre isso que pensei em não fazê-lo de novo. Porém, como sou um educador e ensinar significa repetir, então escreverei e falarei de novo, de novo, de novo, tantas vezes quantas forem necessárias, para ver se consigo tapar esse buraco.

Cuidado com o mês de maio, ele é um grande divisor de águas, pode ser o responsável pela sua vitória, mas também pela sua derrota. Por quê? Porque, se você resolver "chutar o pau da barraca" agora, arrumando todo tipo de desculpas para não fazer o que tem que fazer, pode começar a pensar no melhor cursinho para o próximo ano.

Se você acha que o capítulo de hoje de "Malhação" é imperdível, abandona os cursos e aulas de apoio que iniciou, porque não dá conta. Arruma defeitos em aulas e professores só para justificar o motivo pelos atrasos constantes e a "matação" indiscriminada das aulas. Se você vai a todas as festinhas e filmes durante a semana. Se você faz cara de tédio e alega estresse para não fazer nada, alguma coisa está errada. E muito!!! "Sua vaga subiu no telhado".

É um erro acreditar que a sua vaga em uma faculdade se decidirá em uma “aula dica" no final do ano ou nas vésperas da prova. Na verdade, ela se decide muito antes, desde o momento em que sua família escolhe a escola em que você irá estudar. Quando pais e filhos traçam um projeto de vida juntos. Quando há comprometimento de ambas as partes com esse projeto de vida. Passar ou não nos exames é outra coisa, depende de uma série de fatores. Saber a matéria é apenas um deles, mas isso fica para um próximo texto.

O que o mês de maio tem de tão especial? Fácil. Ele é o mês da rotina. Não há mais novidade alguma, pois o vestibular, a cada dia, ganha traços muito mais definidos e repetitivos. As piadinhas dos professores começaram a perder a graça, os companheiros de sala de aula já se dividiram nas famosas panelinhas e os simulados viraram um pesadelo de quase todo final de semana. Sua vida se resume em aula: ou você está numa aula ou indo para uma ou voltando de uma ou se preparando para uma ou até mesmo sonhando com uma.

As cobranças familiares arrefeceram, as das escolas aumentaram, passaram a bater nos mesmos assuntos "chatos" que ninguém "aguenta" mais. A cada discurso em que o professor "cobra" mais estudo e o coordenador desanca os "coçadores", as próprias cobranças começam a ganhar contornos de filme de terror.

Se você adiar tudo para as férias, esqueça. Ninguém estuda nas férias. Observe: muitos dos seus concorrentes se matriculam em cursos de apoio em maio ou procuram professores particulares. Por quê? Porque a rotina já lhes ensinou a procurar meios de fortalecer as partes em que estão fracos, senão ficarão pelo caminho. Os ditos "vagais" agarram-se às desculpas para ficarem livres das cobranças. Se você se dói diante de qualquer cobrança, confundindo com esperto”, está na hora de rever conceitos, ou seja, precisa começar a se preocupar em fazer uma atividade física, reservar uma parte do final de semana para você. Se você chora até em comercial de margarina, precisa de ajuda especializada. Você tem que se ver como um ser humano, não apenas como vestibulando, senão os cursinhos agradecem.


Um dia já foi maíte

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​Agora virou abrilite, sintomas da vestibulite

Chilique” de vestibulando em maio sempre foi “normal”. A rotina atropelava. Era o momento dos olhares perdidos, quartos trancados, longas conversas com o travesseiro, longos desabafos com os professores e amigos, irritação até com a respiração dos pais, choro até em propaganda de margarina. Bom dia, diz a mãe preocupada com as “pirações” do filho(a). Papo reto: “Só se for para vocêeeee”. Em seguida, o desabamento: “Não aguento maissssss”. Eram os sintomas da “maíte”, que agora virou “abrilite”. Antecipamos as crises existenciais adolescentes. Em janeiro, já começa a vestibulite: “Topo qualquer faculdade. Qualquer uma”.

Extremos: balada, namorada(o) x noite acordado(a), desesperado. “Chuto o balde e espero o milagre ou me mato de estudar e espero o milagre”. O “cara do” lado é muito melhor que eu. Minha nota caiu no primeiro simulado: não vou passar. Isso em abril. “Vou fazer dez vestibulares, para não fazer cursinho”. Isso já em abril.

Muitas escolas abriam turmas em maio. Havia o fenômeno: muitos alunos descobriam que era possível deixar de namorar a vaga na universidade e se casar com ela. Outros, sem explicação plausível, rompiam o relacionamento. As escolas não abrem mais. Era inimaginável uma crise existencial já em abril. É verdade que o relacionamento com a vaga era estilo montanha russa. Há alguns anos, o sonho era casar com as universidades públicas; agora não, agora topam o vale tudo, até entrar na faculdade da esquina, o negócio é ser universiotário. Haverá em maio vestibular em um “montão” delas. Resultado: a “maíte” dançou, virou abrilite.

As crises existenciais causadas pelo “imediatismo” trazem consigo excesso de café. Vestibulando confunde ficar acordado com estudar, apostila com bíblia, aula com reza. Único assunto: neste ano, acho que não vai dar. Parece participante do BBB. O único assunto é: “Quem vai para o paredão”. O resultado ruim no simulado dispara o gatilho: “Fui mal, desisto”. Isso em abril.

Ansiedade, depressão, desespero, medo, desânimo, frustração, olhares perdidos. Psicólogos, psicopedagogos e psiquiatras nunca tiveram tantos jovens nos seus consultórios. Há um mês, durante a Oficina do Pensamento, no Criar, uma aluna expôs sua condição de vestibulanda: aos 16 anos, trazia consigo a problemática de uma senhora de 40, com cinco filhos e dois empregos para sustentar a casa, tal a pressão e responsabilidade que colocou sobre seus ombros. Eu e o psicólogo, mesmo acostumados com comportamentos de vestibulandos, saímos assombrados. O que nós, pais e mestres, estamos fazendo? Estamos criando a juventude mais velha da história, a mais doente: a geração Rivotril? Ou a turbinada, à espera de um milagre: a geração Conserta, Ritalina? Ou a conectada, desconectada: um caminhão de informações e nenhuma capacidade de decodificação?

O papa Bento XVI falou sobre a realidade da universidade “utilitarista”. Quem pode contestá-lo depois das evidências? Alunos do quarto ano da medicina da USP tentaram o suicídio e dois de universidades particulares conseguiram. A USP até criou o movimento #DAUSPRACASA (sobre o qual já escrevi).Quem pode contestar a realidade: a escola de informação matando a escola de formação? O ENEM encaixotando a criatividade em nome de um modelo? Um aluno, no terceiro colegial, não conseguir escrever um texto, em 30 linhas, na sua língua natal? Já em abril, acha que não conseguirá. Refaz provas de anos anteriores para saber como a banca examinadora se comporta, porque, de um ano para outro, a universidade não cria nada de novo. O negócio é manter o negócio. Um vestibular a cada trimestre. Resultado: vestibulite.

Outro dia ouvi uma frase absurda dita com seriedade por um aluno frustrado. A “educadora” disse em sala de aula: “Vá lá aprender a escrever e volte aqui que eu te passo no vestibular”. Pergunte a um aluno se ele tem uma estratégia para estudar, se pensa em si como um ser humano e não como um simples vestibulando. Pergunte se um dia pensou que, se não estuda agora e não aguenta a pressão, se terá estofo para suportar o peso de uma boa universidade? Talvez lhe espante, meu despreocupado leitor, com a resposta. Digo que entrar na universidade é difícil, ficar nela é muito mais difícil. Não interessa. Não é à toa que as crises existenciais chegam cada vez mais cedo e um jovem parece cada vez mais velho. Maio virou abril. A pressão virou depressão. A ansiedade virou desespero. Universitário não sabe redigir. A abrilite tomou o lugar da maíte, sintoma imediato da vestibulite que, infelizmente, lá na frente virará outobrite. Em 2017, outobrite virou setembrite. Tenho medo que, neste ano, setembrite vire agostite. E, se acontecer, vamos esperar que um aluno se suicide, para lançarmos uma campanha? Qual seria?

VESTIBULANDO EMPREENDEDOR

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Coloquei aqui algumas frases de Bill Gates, apenas para que reflitamos em um momento crucial da vida do chamado vestibulando. Aquele indivíduo que não se vê como humano. Não considero Bill Gates um grande pensador, mas ele trata de um assunto seríssimo chamado “empreendedorismo”. Vestibulando ainda não descobriu que, se não for empreendedor, não chegará a lugar alguma. O processo educacional no Brasil forma gente para “não pensar”, “não empreender”, isto é, não encontrar as melhores formas de competir.

O processo “educacional” no Brasil nos leva a sermos facilmente dominados e nossos pais nos protegeram tanto das agruras da vida que fizeram com a gente uma “sacanagem”, não nos deixaram aprender a lidar com cobranças, com exigências. Sempre estamos à beira de um ataque de nervos. Coloquei aqui algumas frases de Gates para que você reflita sobre elas, porque elas têm muito a ver com o tema “vestibular”:

  • “Meus filhos terão computadores, sim, mas antes terão livros. Sem livros, sem leitura, os nossos filhos serão incapazes de escrever – inclusive a sua própria história”.
  • “Tente uma, duas, três vezes e se possível tente a quarta, a quinta e quantas vezes for necessário. Só não desista nas primeiras tentativas, a persistência é amiga da conquista. Se você quer chegar aonde a maioria não chega, faça o que a maioria não faz”.
  • “O mundo não se interessa pela autoestima. O mundo espera que você consiga fazer algo, com independência para que você se sinta bem – ou não – consigo.”
  • “Nunca se compare com ninguém neste mundo. Caso o faça, entenda que você estará insultando a si mesmo.”
  • “A vida não é justa… Acostume-se a isso.”
  • “Se você acha seu professor rude, espere até ter um chefe. Ele não terá pena de você.”

Gostaria que meus alunos refletissem também sobre algumas questões que envolvem a competitividade do vestibular:

  • Tudo o que você não faz, seu concorrente faz.
  • Eu posso aceitar qualquer desculpa que você me der, o vestibular não aceita.
  • Se você pediu ajuda a alguém, ajude essa pessoa a ajudá-lo(a).
  • O seu concorrente tem tanto medo de você, quanto você dele.
  • Ninguém te dará uma semana, para fazer o que tem que fazer em duas horas.
  • Buscar o mais fácil, nem sempre é o mais fácil: o vestibular é um desafio.
  • Se você tem medo, já perdeu.
  • Uma apostila não te faz passar no vestibular; raciocinar, sim.
  • Um modelo pré-fabricado faz com que você seja igual a todo mundo.
  • O resultado pode ser menor do que o esperado, então busque se superar.

Nem eu, nem Bill Gates estamos certos, inclusive, nem de longe posso ter a pretensão de me comparar seja no que for a ele. Apenas expus a maneira de ele pensar como empreendedor e eu como educador. Mais uma vez, sem nenhuma pretensão, gostaria de lembrar que vestibular é competição, é a primeira vez que seus pais não poderão correr risco por você.

Saudável é a mãe

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Já sei que tenho que comer comidas saudáveis, saladas, carnes brancas e magras para ter uma velhice plena. Também sei que tenho que fazer exercícios físicos regularmente, para chegar a uma velhice plena. O doutor de não sei que canal disse que o estresse atrapalha o desempenho intelectual de uma pessoa, precisa mudar, se ela quiser chegar a uma velhice plena. O outro doutor do outro canal, que não sei qual é, disse que beber água regularmente e usar limão ajuda a controlar o PH do estômago ou intestino, se quiser chegar a uma velhice plena. Há a série “House” em que um médico maluco contraria tudo o que se pode pensar sobre uma velhice sadia. Virou meu ídolo. Quero morrer de morte morrida.

Como não sigo nenhum desses conselhos, já me sinto um gordo compulsivo, um energúmeno em fase terminal, uma cópia das obras de Francis Bacon. Bacon é bom demais em um hambúrguer suculento. E falando em tempero, a cozinheira aqui de casa deve ter sido subornada por algum dos meus concorrentes, o tempero leva o comensal ao afogamento compulsório. Quase me afoguei várias vezes. Fui socorrido pela atitude intempestiva da minha sogra que levou o prato embora. Aproveitei e contratei uma policial experiente para evitar a gula: a minha sogra. Sogras servem para comer e não deixar comer. No entanto, já bolei um plano para matá-la: vou empanturrá-la com o bolo do lanche da tarde (ela amaaaa), mas antes vou pegar um mísero pedacinho para mim. É um desperdício que ela leve tudo para a cova.

São tantos os programas na tevê sobre a Medida Certa que ando agora com uma fita métrica, para medir o quanto a minha circunferência abdominal aumentou depois de uma meia dúzia de cervejas. Para os que acreditavam que cerveja não engorda, o doutor (sei lá quem) disse que engorda sim. Ele é um gordo cervejeiro debaixo daquele lençol largo, creio. Até convidou uma nutricionista para fazer um diagnóstico sobre a vida descontrolada dos beberrões que me deu arrepios: cada tulipa de chope corresponde a um pãozinho. No final do dia, tive a impressão de ter ingerido uma padaria inteira. Se vir acompanhada de um salaminho ou queijinho se torna mais perigosa ainda. É a morte. Esses embutidos têm alta concentração de sal, uma espécie de detonador para a pressão alta. Para piorar, o sal ajuda o organismo a reter os líquidos aumentando a circunferência abdominal que, acima de 80 cm, levará até adolescentes ao infarto, derrame, hemorroidas, desmaios, AVC e sei lá mais que doenças absurdas. Ela tem cara de ser uma daquelas supostas abstêmias puritanas que bebe escondida. Deve ser dura essa vida de nutricionista. Noutro dia, flagrei minha ex-nutricionista no cê-qui-serve com um prato que parecia o monte Evereste. Disse que era o dia do descanso na semana. Mas, ainda era quarta-feira!

Só na rede Globo, vemos a Ana Maria Braga e suas frases matinais de autoajuda, porém, contraditoriamente, ensina a fazer comida gordurosa; o Bem-estar, cujo apresentador é um quase gordo, tem sérias dificuldades para acompanhar Mariana Ferrão nos exercícios. Quase sempre parece pior que eu no calor de Ribeirão Preto: sua mais que tampa de panela. Ainda há o Zeca Camargo (ex-gordo, aproximando-se cada vez mais da perda, perda do EX no É de Casa), junto com a Ana Furtado (Olívia Palito) e a Patrícia Poeta, uma musa mais bela, quando era mais suculenta; o Fantástico lembra a todos, que aquela pizza domingueira será a causa mortis na segunda-feira. E, para piorar, entrevista um bando de gordos arrependidos que, em frente a uma câmera, faz sua mea culpa, por causa da gula. Escondidos no camarim, mergulham num hambúrguer, que só tem graça, se acompanhado de uma açucarada e mórbida Coca-Cola. Tenho certeza. Vou conversar com o Edir Macedo e fundar a Igreja do Gordo Arrependido. Faço um programa de entrevistas e bato a concorrência. Corro o risco de ficar em primeiro lugar em audiência, tamanho o público disposto a chorar, espernear e se amaldiçoar os Master-chefs da vida e as modelos esquálidas, talhadas para palitar dentes. Modelos Plus Size fazem parte de um longo engendrado processo velado de preconceito mercadológico. Miss Plus é um termo de dar engulhos.

O patrulhamento toma conta dos telejornais. O contrassenso é o da Band, em que a Ana Paula Padrão (padrão de magreza) apresenta um programa engordadivo. É uma grande sacada: o gordo emagrece de raiva com as comidas mal feitas. Isso sim é que é psicologia. Inclusive, Érick Jacquin, um dos jurados, que é gordo, reprova comida atrás de comida fazendo piadinhas. Isso sim emagrece. Fiquei sabendo, por um personal trainer, de uma tevê a cabo dessas, que perder peso é fácil, porém manter a silhueta de sílfide é uma guerra diária. Ainda bem que não me alistei. Vou me deliciar, se ele ficar estressado com os comilões, como fico no self service perto da minha casa, cuja cozinheira parece fazer parte de um complô internacional para levar pessoas rotundas para o cemitério. Desconfio, sinceramente, que ela é sócia do sujeito da funerária. O dono tem o carinhoso apelido de Neném, vive sorrindo. Acho que ele pensa assim: Mais um que vai virar comida de formiga. E haja formiga para dar conta desses viciados em picanha, lasanha, feijão tropeiro e feijoada. Desconfio também que ele é criador de formigas. Deve Pensar: Vou faturar com a comida, com as covas, os caixões e as formigas. Essa mistura insólita aparece todas as quartas-feiras no cardápio. E já vi um monte de gente dizer que não há nada mais gostoso que feijoada com toques de massa e um molhinho à bolonhesa.

Queria ver uma Patrícia Poeta, depois de umas dez aulas no turno da manhã, resistir ao cheirinho do pastelzinho que aquela maldita faz. Dentro de um estúdio amorfo, com um monte de gente policiando, fica fácil dar um monte de conselhos para as pessoas. Quero ver aqui fora, de frente para uma coxinha de frango com catupiry de Bueno, mais ou menos do tamanho de uma laranja, ou do Frango na Brasa do Tião, dentro daquela tevê de cachorro, cujo cheiro inunda a rua ficar fazendo cara de paisagem.

E os personal trainer da tevê, mais parecidos com exímios defuntos equilibrantes sobre as pernas, nos dizendo para ficarmos iguais a eles. Não há coisa tão chata e pouco saudável do que programas sobre vida saudável. Agora, vieram com outra: comida virou remédio para tudo, até para aumentar o desempenho sexual. Pensei sempre que sexo dependesse do desejo de se atracar um com o outro ou outros. Ainda bem que sou um grande leitor, grande em todos os sentidos. Você já viu ambulância em porta de biblioteca? Overdose de livros não mata ninguém. Em porta de academia, você já viu, tenho certeza. Overdose de anabolizantes mata e da busca do corpo “perfeito” também.

Num depoimento emocionante, um amigo se expôs em um vídeo filmado por um celular com o irmão segurando o aparelho a dois passos: “Minha mãe comia muitas frutas e verduras, aconselhada por amiga saudável. Apaixonou-se pelas carambolas. Sem saber, tinha graves problemas renais, perdeu a noção das coisas. Morreu saudável”.

#DAUSPPRACASA

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Mais um aluno do curso de medicina da FAMINAS suicidou-se. Parece que estou repetindo um texto de 2017, mas, infelizmente, não estou. As coisas acontecem numa mesmice inquietante neste Brasil varonil: somos uma sucata ambulante, quando se trata de processo educacional. Para meu espanto, fico sabendo que cinco tentaram, três conseguiram. Se juntarmos aos fatos, as tentativas de quatro alunos do quarto ano da USP, chegamos a uma estatística aterradora. Levemos em consideração que faculdades escondem tais fatos, pois não querem atrair para si a desconfiança do mercado.

Os motivos para essas tentativas são os mais diversos: depressão, ansiedade, rotina desumana de provas, reprovações, drogas, questões financeiras... Depois de dois, três anos de cursinho, muitos pais calculam: com o valor que pagamos o cursinho, pagamos uma universidade. Não percebem que estão construindo uma bomba relógio, pois não percebem que falta algo aos filhos: maturidade, autocontrole, base, foco, vocação, por exemplo. “Forçar a barra” é perigoso demais.

Então, vão ficar o resto da vida tentando? Primeira investigação: meu filho quer fazer medicina, mas estuda para fazer medicina? Segunda investigação: é um “sonho” dele ou da família? Terceira investigação: ele escolheu a faculdade ou serve qualquer uma? Essa terceira investigação leva a uma especulação: serve qualquer faculdade, o que importa é a residência.

Explicam os economistas, se o produto está muito barato e a procedência é duvidosa, não compre. Se você só pensa no valor da prestação, mas não pensa no valor total do produto, ficará inadimplente. Como o Brasil sofre de esquizofrenia econômica, não faça planos a longo prazo. Não escolha um mau produto, a vítima será você mesmo. Você já viu um aluno de uma má faculdade entrar em uma boa residência? Exceções existem, mas são exceções. O caro sai muito caro.

Se você é um mau aluno, aquele aluno que nunca estudou, porque confia “apenas” na sua inteligência, na sua sorte em Deus (ou em tudo isso junto), busca sempre o vestibular mais fácil, sinto destroná-lo: não existem facilidades no curso de medicina de qualquer instituição, por pior que ela seja. Maus alunos não se tornam bons médicos, mesmo que ganhem fama à custa da fama dos pais ou do marketing mais tarde. Maus alunos sofrem mais, porque têm obrigatoriamente que estudar. Maus alunos sofrem maior pressão.

Se você é um bom aluno, um idealista, que se propõe a estudar como um “louco”, para enfrentar alguns dos vestibulares mais “difíceis” do país, sinto destroná-lo: “Você não faz parte de um grupo de eleitos”. Pode não parecer, mas você é mortal. Vai estudar muito mais dentro da faculdade. Sabe que será muito, mas muito difícil. Você lutará pelo seu espaço no mercado de trabalho. Sabe que será muito, mas muito difícil. Ninguém o enganou.

Absurdo dos absurdos é que faculdades, sejam públicas ou particulares, não fazem um trabalho constante para ajudar jovens em crise. Somente depois das tragédias. Em quase todas, o calendário é desumano, massacrante. Em quase todas, há largo consumo de drogas, é preciso ficar acordado.

Será que toda essa dificuldade para entrar na faculdade, faz do trote da medicina, geralmente, o mais violento? Lembram-se da morte de Edison Tsung Chi Hsueh na piscina de atlética da USP/SP? Já houve todo tipo de denúncia: estupros, queimaduras, discriminação, humilhação.

O calendário de festas é enorme. As festas são as mais badaladas: “rola de tudo”. São jovens, têm o direito de se divertirem. Nada contra a diversão. Foi depois de uma delas, que um futuro médico, o Tuta, morreu, ao destruir o seu carro contra uma árvore. Tive pouco relacionamento com ele, encontramo-nos, quando costurávamos um acordo para o patrocínio do Projeto Veredas (atendimento de pessoas carentes em um assentamento). Observem: era um jovem com preocupações humanitárias. Foi como um murro no estômago a sua morte. Pais enterrarem filhos contraria a ordem natural.

FMRP/USP criou uma campanha, para abrir uma grande discussão (#dausppracasa). Depoimentos de um grupo de pais chamam os filhos à razão, antes que o pior aconteça. Um depoimento comovente está nas redes sociais (os médicos Mônica e Nelson Liporaci – grandes amigos, competentíssimos profissionais, falam para o filho Felipe).

Meus alunos me olham raivosos, quando repito: entrar na faculdade é difícil, mas permanecer dentro dela é muito mais difícil. Levei alunos da USP para conversar com eles. Uma aluna não quis mais assistir às minhas aulas, depois de eu colocar esse tema em discussão. Chegou a casa muito nervosa, segundo os pais: “Que pena!”. A venda nos olhos mata. É como atravessar uma rua movimentada, sem olhar para os lados. Em tempo: no Criar, há 15 anos, o psicólogo Marcelo Filipeck atende cada aluno; o departamento pedagógico, também. Minha preocupação vem de longa data; minhas atitudes, também.

​Dia 7 de janeiro foi o Dia do Leitor

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Machado de Assis escreveu uma das obras mais emblemáticas da literatura brasileira: Dom Casmurro. As listagens oficiais dos vestibulares têm verdadeira obsessão por ela, no entanto, para o aluno, é uma tortura, falta-lhe vivência, experiência linguística e capacidade de mergulhar no universo do texto, por isso fica na pia rasa do mutismo (entenda-se também como o medo de “pagar mico”) e da criticidade: Capitu traiu ou não Bentinho? Seria essa a tábua rasa usada por Machado para navegar?

Aluísio de Azevedo escreveu O Cortiço para ganhar dinheiro, pagar os estudos, formar-se diplomata e jamais voltar a segurar a pena de escritor. Para atingir o seu intento, escancarou o animalesco do ser humano, abusou da sexualidade desaforada dos personagens. Acabou por redigir um verdadeiro tratado sociológico sobre as transformações por que passava o Brasil do final do século XIX. Sua Teoria do Mal dos Trópicos não escondeu seu preconceito contra a maneira brasileira de ser e viver.

Lima Barreto desancou com o preconceito contra os negros em Clara dos anjos e a pseudointelectualidade rastaquera que habitava esse país em Triste fim de Policarpo Quaresma. De quebra, desnudou a corrupção que nos corrompia há séculos. Policarpo tentou absurdamente emplacar o tupi-guarani como língua nacional, para ser entendido. Ridicularizado, tanto quanto seu criador, continuou incompreendido. Sua história frequentou o celuloide, a tevê e as revistinhas em quadrinhos, mesmo assim conviveu com o anonimato.

Como eles, Monteiro Lobato, Graciliano Ramos e até Guimarães Rosa, com seu linguajar peculiar, foram parar nas minisséries da tevê Globo, filmes da Ancine, revistinhas coloridinhas, resuminhos, listagens de vestibulares conceituadíssimos. Autores moderninhos se deram trabalho de adaptá-los para o português atual à caça de novos leitores. Deu no que deu: em nada. As pessoas não adquiriram o hábito na infância e hoje há coisas mais importantes, como tirar selfies. Para que memória, se inventaram o Google que sabe que quase ninguém leu 1984 de George Orwell e acha que Big Brother não passa de um programa que incentiva a idiotia diária.

Kéfera e Paulo Coelho vendem mais livros que banana em fim de feira. Muito legal. Muito bom. Mas, será que nossa literatura ficará nas mãos deles ou da famigerada autoajuda? Agora temos um tipo de literatura perigosa: jovens imberbes, travestidos de escritores, vão para a internet “soltar o verbo” expondo sua intimidade, o desdém recalcado pelos relacionamentos amorosos em crise, seus ideais guardados a sete chaves e a frustração de talvez nunca realizá-los. Convidam os “frustrados por estarem excluídos de padrões estéticos ou comportamentais” (todo mundo está, o capitalismo é camaleônico, joga com padrões inalcançáveis), para definharem deixando de comer ou radicalizarem, morrerem criando modismos para o velho (poetas do Romantismo no século XIX cansaram de fazer isso). Quem sabe, capturem uma baleia azul ou até virem série da Netiflix.

Ah! Há as fadinhas. E como! Poderíamos falar de um novo gênero literário, o das fadinhas adolescentes. Dá uma grana. Muita gente descobriu. Kéfera descobriu primeiro. Há gente construindo grandes obras? Há. Mas, pouquíssimos os leem. Pense e responda rápido: Você seria capaz de citar cinco grandes autores “atuais”? Quantos leem Cristóvão Tezza, Milton Hatoum, Raduan Nassar, Sérgio Santana? Quem os conhece? Mediei os debates de vários deles na Feira do Livro de Ribeirão Preto com salas semicheias, apenas porque despertaram a curiosidade de alguns. E só.

Os sebos estão ganhando a mesma aura sofisticada da qual agora gozam as lojas de vendas de discos de vinil. Vende-se muito e-book neste país. A Amazon deita e rola: 90% são de autores de lacrimosos best-sellers americanos. Os estúdios americanos também. Ah! Os vendedores de lenço também. Melhor que tudo isso é ler algo imediatíssimo no Watsapp e no Facebook ou futilidades em um portal. Selecionei os cinco assuntos mais lidos no UOL na semana (12/01): 1. Paredão eterno! 7 ex-BBBs que a Globo prefere esquecer; 2. 'Tem que pegar o meu patrimônio. Esquece meus filhos', diz Bolsonaro; 3. Conheça dez famosos da TV brasileira que não se entendem quando estão por trás das câmeras; 4. Atriz Paolla de Oliveira fala sobre assédio e diz que, aos 35 anos, não liga para rótulos; 5. Para fechar grupo, Palmeiras quer emprestar 2 e espera Scarpa e Goulart.

Como estamos no mundo da imagem, dos amigos virtuais que pulam na nossa cara com seus sorrisos engessados na velocidade de um “clic”, ler um livro é “um saco”, não é? Há muito que fazer em pouco tempo na tela de um smartphone. As imagens dadas e não imaginadas carimbam mais fortemente a alma. Tudo pronto, sem forço. Preguiçosamente sem pensar, não precisa interpretar.

Falar em público, sem repertório é uma “praga”. E escrever, então, virou um tormento. A redação é a prova que mais elimina alunos no vestibular. E não é de hoje. Desde 1978, essa “praga” atormenta os candidatos a uma vaga na universidade. Uma doença tão forte que muitos milagreiros criaram remédios mágicos para curá-la. O ENEM não me deixa mentir. Viva o Dia do Leitor.

​Os que criticam os críticos do ENEM

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Caro prestador de ENEM, cansei de voltar ao mesmo tema

Parodiando um grande amigo: Os anos se repetem numa mesmice inquietante. Pior, a viseira, também. Pior ainda, o tapa olho "idem, ibidem, na mesma proporção". Confira as reportagens nos veículos de comunicação sobre os resultados do ENEM por escola.

Os alunos com maiores posses ocupam as melhores escolas que ocupam os primeiros lugares nas provas do Exame Nacional do Ensino Médio: óbvio. O levantamento socioeconômico confirma esse fato todos os anos. Cansou: passou da hora de acordar.

O agora maior vestibular do país é uma grande e sórdida enganação: óbvio. Se assim não fosse, não haveria razão para escrever um artigo como este todos os anos. Provoca estresse, esperança (?), mas não indignação, por incrível que pareça. O Brasil ainda acredita na história do bilhete premiado. É tudo ficará pior ainda, se é que há jeito, com a "disforma educacional".

1. Grande quantidade de alunos que precisavam da isenção das taxas de inscrição, não conseguiu. O sistema "caía" na hora "H": óbvio. O governo "gasta" muito dinheiro com essa prova, diz o ministro. Os apaniguados ganham também? 

2. Em todos os anos, há escândalo. Em 2016, houve dois ENEM: uma prova muito fácil; outra bem difícil. Todo mundo fez e se calou. Ninguém faz nada. Ninguém exige transparência. A segunda prova não poderia existir: é um exame nacional.

3. O que é mais engraçado em tudo isso: os cursinhos não se entendem sobre o gabarito das provas. Que prova bem elaborada, não? E os alunos, coitados, como ficam? 

4. Alunos ricos e alunos pobres não têm as mesmas chances, tanto é verdade, que o índice de abstenção só faz crescer entre os de escolas públicas: óbvio. Como publicado, entre as 10 escolas, que conseguiram melhor desempenho, não há escolas públicas.

5. Tudo mudou, para ficar exatamente igual, como sempre neste Brasil varonil. A professora Maria Inês Fini (mãe do ENEM) rugiu, rugiu e ruiu. Pariu um traque. As provas mantêm os mesmos 90 testes que devem ser resolvidos em 4:30h. O primeiro dia ainda possui uma 1h a mais, mas é "o fim da picada" esperar que alguém escreva sobre um tema como o que foi oferecido pela banca neste exíguo tempo a mais.

6. O tema sobre a "surdez" vinculada "à educação" foi muito bem escolhido, porque abriu uma discussão pertinente, porém poucas vezes vi uma proposta tão mal elaborada. Quais seriam as "intervenções sociais", além das óbvias que a coletânea trazia?Tentando "pegar os modelos de redação", como disse a mãe, a prova continua estimulando a construção de "modelos". O MEC "pegou a si mesmo".

7. Pior, o ENEM manteve o mesmo sistema de incentivo ao "decoreba", ao candidato "robotizado". Isso é incentivar o "ensino criativo?". Desincentiva um jovem a elaborar uma redação "Frankentein"? 

8. Muitas escolas continuam aplicando o velho golpe, usam CNPJ diferentes com o mesmo endereço. A jogada é óbvia, robotizar turmas específicas para alcançarem as melhores notas. Os pais, até hoje, creem que as melhores escolas são as que têm o melhor desempenho na prova. Pior, os alunos também.

9. Desgraça das desgraças: o ensino brasileiro "enenzou", desde o quinto ano as escolas já preparam rebentos para PAPAREM o ENEM. Quer mais? Sinto muito, não cabe aqui.

Será que Chateaubriand tinha razão, quando batia no peito e berrava: "Esse é um país de botocudos"?

​Rombo

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Suor na cara. Música na cabeça. Bate. Bate. Música batida de coração. O ciúme calça luvas. O ciúme esfrega as mãos. Mãos de moedor. Homem puro. Puro músculo. Outro homem. Trator. Roer as unhas. Saia curta. Umbigo por onde se nasce. Umbigo por onde se morre. Mulher umbigo. Mulher pernas. Mulher de batom. Mulher sem perdão. Mulher talher. Talher onde se come de tudo. Comida pra um. Usada por dois. Banquete pra todos

Ciúme. Corpo contra corpo. Corpo empurra corpo. Um corpo agarra o outro. Garras. Rapina. Um rasga a pele do outro. Até. Até não mais poder. Raiva. Ódio. Guerra. Vozes toscas. Grito. Berros. Grunhidos. Perdigoto. Tapa. Murro. Cara amassada. Clinch. Separação. Momento. Dentes quebrados. Rua ringue. Corpos esfarrapados. Briga. Corpos chiclete. Pancada. Porrada. Na cara. No peito. Porrada. Baba. Cachorro louco. Sangue. O soco esmaga a língua. O dente de cima esmaga o chiclete contra os dentes debaixo. Raiva. Soco no ar. Tapa na boca. Chute no saco. Bêbados. Clinch. Porrada. Mais porrada. Vida ringue. Sangue. Pontapé. Dança das vísceras. O pé do nocaute. A carne dança. Que nem maré.

O tiro. A bala. A baba. Carne moída. Rompida. Osso rompido. Dilacerado. Porta da mente. Fechada. Trancada. O coração bate. Bate fraco. A mente às vezes mente. Mundo cão. Cão louco. Cachorro vira-latas. O cano cospe a morte. Morte apontada. Ponto de lápis. Risca a vida. Balada. Dança da vida. A vida dança. Bala perdida abala a vida. Morte. Sorte bandida. Ser humano. Desumano. Inumano. Rua morta. Silêncio cortado. Abalado. Grito abafado. Olho estatelado. Preso no nada. Nenhuma possibilidade. Respiração cortada. Coração parado. Cérebro destroçado. Gosma. Sarjeta estrada. Morte. Come via. É estrada. Trilho. Trem

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Sujeito indeterminado. Coração sem sujeito. Substantivo concreto. Adjetivo agora abstrato. Nada tem sentido. Nada faz sentido. Bala anônima. Endereço certo. Morte agora com cara. Endereço. Carteira assinada. Cara carimbada. Cara identificada. É estatística. Agora o Alguém virou ninguém. Comida de minhoca. Por quê? Estava onde. Onde não devia. Espera-o silêncio. A cova. Sulco na terra. Raízes. O corpo atônito passa sete palmos da superfície do chão. A morte voçoroca. Não... Choro. Não... Grito abafado. Não. A morte tem cara. Cara pendurada na parede. O filho, a mãe, o amigo, o pai, toda gente vai ver. Morte tem retrato. Pintado. Fotografado. No obituário. Até o prego ceder. Terá futuro amarelecido. Até cair no chão. Futuro. De um jeito ou de outro. Chão. 

​Não carregue lixo

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Uma das minhas alunas estava em prantos, porque não passou para a segunda fase do vestibular.

Cheguei perto e perguntei: O que aconteceu? Ela me encarou e me perguntou: E agora, o que eu faço?

Devolvi a pergunta: Quantos vestibulares você ainda fará?

Resposta: Mais três.

Disse-lhe: Então não carregue lixo. O que passou, morreu. O que passou, não pode atrapalhar o que vem.

Ela sorriu espantada: nunca ouvi isso, falado desse jeito.

Continuei: Então, ouça de novo. Não carregue lixo. Se fez algo, não há como consertar. O que fará sim, essa é a parte importante.

Continuou: Sabe! Eu me pressionei demais. Muita coisa me atrapalhou também: meu cachorrinho morreu, o pessoal ficava me chamando para a balada. Não tive tempo para nada, nem ir à aula eu conseguia. Quando ia, não conseguia ficar. Sei que o senhor vai achar que são desculpas. Desculpe, mas não é.

Para quem ela pedia desculpas? Para mim? Para ela mesma? Para o tempo que acredita perdido? Como diria meu grande amigo Neto: “arrependimento custa caro para o bolso e para a alma”.A pior expressão que existe é: desculpe-me. Por quê? Porque vem posterior ao fato. Ninguém desculpa ninguém, apenas pro forme. Na verdade, remoerá o fato, tanto, tanto, tanto, que um dia jogará na cara do outro o lixo que remoeu. Carregar lixo é comprometer o futuro, por causa do passado. E o passado dói, se você, impaciente leitor, permitir.

Assim ocorre com o vestibular, assim ocorre com a vida. Minha aluna passou um ano mergulhada nas próprias fantasias, esquivando-se de uma responsabilidade, que a atingiria, com dia e hora marcadas. Na verdade, eu deveria ter estudado, mas, mesmo não estudando, eu tinha esperança. “Quem sabe / faz a hora / não espera acontecer”. Parodiando: Quem não sabe / não escolhe a hora / se será atropelado pelo que acontecer.

Desculpe-me, professor. Pensei: Passará o ano inteiro no cursinho, arrependida do que não fez. Custará caro para a mente, o corpo, o bolso e a alma. O problema são as desculpas que arrumará para si mesma. Pior ainda, procurará passar em uma faculdade qualquer e resolver se matricular. O arrependimento e as desculpas virão depois da formatura. Como uma desculpa que puxa a outra, uma mentira que puxa a outra, o lixo puxa o outro.

Mudando drasticamente de assunto, num belo dia, você acorda e sai de casa, chega ao trabalho, um amigo vem e lhe diz que não só falaram, escreveram muitas coisas sobre você. Construíram propositalmente uma imagem devastadora de você, manipularam seus supostos amigos contra você, ofenderam-no, desrespeitaram-no, tentaram manchar sua honra e sua história, ou seja, tentaram recolher o próprio lixo e o jogaram em cima de você.

Alguns dos envolvidos, um dia, serão atropelados pela verdade. Diante dela, pedirão desculpas. No raso, você desculpará, mas no fundo, no fundo o fará? Ou pensará: Quem me traiu uma vez, trairá de novo. Quem disse que era meu amigo, não é. Quem me desrespeitou, desrespeitará novamente. Quem tentou macular a minha história, tentará de novo. Isto é, mesmo com um sorriso esquivo, carregará o lixo que lhe jogaram em cima.

No nosso dia a dia, os invejosos, os medrosos, os desonrados carregam seu lixo emocional na língua posando de vítimas. Não têm a lucidez de uma jovem vestibulanda. Não se engane, atento leitor. O dono do lixo, que tenta atingi-lo, tem nome, sobrenome, endereço, carteira de identidade e profissão. Lixo, de tanto se remoer, solta chorume. Lixo fede e chorume contamina. Coitado de quem o armazena.