​A verdade mostra a cauda

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A história é deliciosa: duas pessoas comendo algo que ambas apreciam, que se sabe que eles apreciam, mas que por motivos políticos não poderiam devorá-lo em público. Algum desavisado os fotografou; algum mentiroso mandou esconder o prato; algum incompetente fez o trabalho, bem mal feito. A deliciosa história envolve o embaixador de Israel e o presidente do Brasil.

As leis alimentares judaicas, que só os ortodoxos seguem, proíbem o consumo de lagosta. Não é o caso dos governantes de Israel, laicos – mas, como dependem do apoio de partidos religiosos, não comem em público alimentos proibidos. Shelley violou essa norma política e, pouco antes do jogo entre Brasil e Peru, comeu lagosta no almoço com Bolsonaro – que, como tenta demonstrar, só gosta de hambúrguer, cachorro-quente, bandejão e pão com leite condensado. Lagosta é coisa de ministro do Supremo, gente chique, que usa toga francesa em vez de camiseta do Palmeiras. Shelley e Bolsonaro gostam de lagosta, claro, mas não gostam que isso seja divulgado.

Algum desavisado fotografou o almoço (para a Embaixada de Israel, que postou as imagens). Algum pouca-prática mandou retocar a foto, apagando a lagosta (um photoshop a transformaria numa saladinha). Algum inepto rabiscou as lagostas, mas sobrou cauda suficiente para identificá-las. Outro desavisado postou a foto assim mesmo. Onde já se viu isso, políticos que nem mentir sabem direito? Viraram notícia até no Washington Post.

Tudo errado

Imaginemos que o inepto que rabiscou as lagostas tivesse feito um bom serviço. Todos iriam querer saber o que é que Shelley e Bolsonaro mandaram ocultar. Não podia dar certo. Por que não os flagraram enquanto ainda estavam no couvert, comendo azeitonas, cenoura, pão e ovinhos de codorna?

A Previdência...

A reforma da Previdência, espera o Governo, será aprovada até o fim da semana na Câmara; daí seguirá para o Senado. Joice Hasselmann, a líder do Governo no Congresso, está confiante nisso. Bolsonaro mais atrapalhou do que ajudou – e, diga-se em seu favor, não distribuiu cargos nem pixulecos a deputados de cujo voto precisa. Liberou R$ 1,4 bilhão de verbas para emendas parlamentares, mas previstas em lei. O máximo que fez pela reforma foi demitir alguns ministros para que reassumissem na Câmara e garantissem mais votos à aprovação. Jogou limpo. Mas quem realmente está empurrando a reforma é o presidente da Câmara, Rodrigo Maia.

...e daí?

Imaginemos que a reforma passe por Câmara e Senado, sem grandes modificações. E que é que o Governo vai fazer no dia seguinte? Como fará para que a reforma gere empregos e dê algum empuxo à economia do país? O próximo passo é a reforma tributária. Mas mais uma vez o Congresso toma a frente: enquanto a equipe econômica ainda não definiu a sua reforma, a Câmara retomou a proposta do líder do MDB, Baleia Rossi, assessorado pelo competente economista Bernard Appy, que de início unifica cinco impostos e toma medidas contra a guerra fiscal entre os Estados. Acaba a mamata de hoje, em que o empreendedor negocia com vários Estados para ver qual lhe oferece mais vantagens, o que faz com que alguns bilhões de impostos não sejam arrecadados. Serão atingidos interesses como os da Zona Franca de Manaus, e não se tem ainda ideia de como compensá-los. Mas o trem anda.

O caminho das urnas

As várias reformas previstas poderão mexer positivamente na economia, o que fortalece a candidatura de Bolsonaro à reeleição, em 2011 (sim, é cedo, mas João Dória já é candidato e Rodrigo Maia flerta com a ideia). Bolsonaro tem hoje o apoio de um terço do eleitorado: a pesquisa XP-Ipespe, feita a pedido da corretora XP, informa que 34% da população consideram que o Governo é ótimo ou bom (a pesquisa Datafolha é semelhante: 33%), 28% regular (Datafolha, 31%) e 35% ruim ou péssimo (Datafolha, 33%). Mas o fato é que Bolsonaro perdeu boa parte de seus adeptos do início do Governo até hoje. Em parte, por motivos políticos: ele conseguiu simbolizar a luta contra o PT. Hoje, parte de seus aliados volta ao centro e busca candidato.

Os partidos

O caro leitor acha que os 33 partidos de hoje são muitos? Bom, eram 35, e dois desapareceram: o PRP foi incorporado pelo Patriotas e o PPL pelo PCdoB. Outro deve sumir; o PHS, absorvido pelo Podemos. Mas tudo para por aí: já há no TSE dois pedidos de novas legendas, o Partido Nacional Corinthiano e o Partido da Evolução Democrática. A UDN espera renascer a partir da anulação do Ato Institucional nº 2, que em 1965 extinguiu todos os partidos políticos. E há 73 legendas que iniciaram processo de formação. Montar partido é bom e barato, já que dão acesso ao Fundo Partidário. Há anos, antes do aumento brutal dos recursos do Fundo, o dirigente de um partido nanico se queixava de ter só R$ 100 mil por mês para as despesas.

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O avesso do avesso do avesso

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​Um lendário político mineiro, José Maria Alkmin, era conhecido pela rapidez em tomar providências. Ouvia o pedido (do eleitor, do parlamentar, fosse quem fosse), pegava o telefone, dizia: “Ligue para Fulano, por favor”. Pouco depois, o telefone tocava, ele atendia, pedia que a reivindicação fosse logo atendida e ressaltava seu apreço por quem a havia pedido. Todos saíam felizes da audiência. Nunca souberam que o telefone não era ligado à rede.

No momento em que ficou claro que a reforma da Previdência passaria nos moldes propostos pelo Governo, Bolsonaro sugeriu que a desfigurassem, mantendo a aposentadoria de policiais como era antes. Terá sido ingênuo, ao reduzir o porte da reforma, ou estaria, como Alkmin, falando para ninguém, num telefone desligado? Não é fácil acreditar que um ingênuo chegue à Presidência. É difícil acreditar que Bolsonaro seja esperto o suficiente para enganar as raposas do Centrão e proximidades. Político não é infalível, mas estes, especialmente, ganharam fama por ser matreiros, difíceis de enganar.

Dizem que Bolsonaro é tosco. Mas, depois de uma carreira parlamentar longa e discreta, foi ele que superou caciques como Alckmin e Haddad, o Lula sem barba; e, montado num partido nanico, superou PSDB, PMDB, PT e outros mamutes. Esperto ou ingênuo? É preciso esperar: só o tempo o dirá.

Mas, se não estiver sendo esperto, por que tentou convencer o juiz a desmarcar o pênalti a seu favor? Em política, um erro assim seria inaceitável.

A verdade das sombras

Em política, o jogo de sombras é tão importante quanto o mundo real. É verdade não o que realmente ocorreu, mas o que parece ser verdade. Jogando este jogo, Getúlio Vargas, que foi ditador, que implantou uma Constituição baseada na Carta fascista da Polônia, que louvou, num célebre discurso, os novos tempos que se iniciavam com a entrada das tropas nazistas em Paris, passou à História como político de esquerda.

É um mundo estranho. Alguém que pergunte quem foi o político mais hábil, Alkmin ou seu parente paulista Geraldo Alckmin, sempre terá a resposta Alkmin. Mas Alckmin foi quatro vezes governador de São Paulo, duas vezes candidato à Presidência (embora derrotado); Alkmin não chegou ao Governo de Minas e foi vice-presidente (indireto) do marechal Castello Branco, sem direito real a tomar posse.

Posto em silêncio

Outro fato a considerar é o silêncio do ministro Paulo Guedes, o Posto Ipiranga de Bolsonaro. Embora a reforma da Previdência que se desenha não seja a sua, ele a aceita porque também deve gerar economias de R$ 1 trilhão em dez anos. Por que nada falou quando Bolsonaro propôs que uma fatia do trilhão seja retirada? De duas, uma: ou não acredita que a proposta seja para valer ou acredita que pode passar à História como o grande reformador da Economia brasileira. Talvez acredite. Mas, se a economia brasileira gerar empregos e for competitiva, o herói histórico será Bolsonaro, não ele.

E agora?

O presidente da Câmara, Rodrigo Maia, coordenador de fato da marcha da reforma, acha que os deputados podem votá-la, em dois turnos, até o dia 18, último antes do recesso. Mas parlamentares do Centrão falam em votar só em primeiro turno, deixando o segundo para o próximo semestre e vendo o que é possível arrancar a mais do Governo. Parlamentares (em especial do PSL de Bolsonaro), a favor de manter policiais fora da reforma, também podem tentar atrapalhar a votação. Se Bolsonaro se mover, a reforma passa, sem que nenhuma facção consiga adiar a votação. Aí só faltará o Senado.

A voz de quem vota

Bolsonaro falou em retirar os policiais da reforma, mas, na opinião dos eleitores, ninguém deve ter normas mais amenas que as gerais. Pesquisa do Ibope, por encomenda da CLP – Liderança Pública, mostra que 79% dos pesquisados querem normas de aposentadoria iguais para todos. Para 82%, é preciso sacrificar-se agora para garantir a aposentadoria das gerações futuras.

Os mais iguais

Enquanto a população aceita sacrifícios, há setores que só pensam em faturar mais. O Idec, Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor, mostrou que em dois anos as tarifas bancárias subiram muito mais que a inflação: o dobro, ou quase isso. Foram medidos 70 pacotes de serviços dos cinco maiores bancos do país (Banco do Brasil, Caixa, Itaú, Bradesco e Santander). O aumento médio foi de 14%, contra 7,45% de inflação no período. Houve pacotes que subiram 50%. Um deles atingiu 89%, onze vezes superior à inflação. Bancos oficiais elevaram as tarifas tanto quanto os privados, o banco estrangeiro se comportou como os nacionais.

Seja estatal ou privado, nacional ou estrangeiro, o fato é que banco é banco.

 Mais sombras

Viu o vídeo de Bolsonaro num hotel barato, no Japão? É real – mas velho. Do início do ano passado, quando era candidato e viajou com os filhos.

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​O Governo dos passos perdidos

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A reforma da Previdência será votada em breve e deve passar. Talvez não seja exatamente aquela que o ministro Paulo Guedes queria, mas não é tão diferente assim. Prometia o Governo que, aprovada a reforma, o país voltaria a crescer, amparado em imensos investimentos internacionais. Só que não: a reforma da Previdência é condição necessária, mas não suficiente, para que o país volte a crescer. Qual investidor gosta de colocar seu dinheiro num país em que é praticamente impossível fechar uma empresa, em que o cálculo do pagamento dos impostos leva muito mais tempo e consome mais recursos do que na maior parte de outras nações, em que ações trabalhistas nunca param?

Em resumo, a reforma da Previdência abre uma janela de oportunidade para a retomada do crescimento. Mas não funciona sozinha: é preciso fazer outras reformas (a tributária, principalmente), mexer na área de segurança jurídica (hoje, sozinho, um ministro do Supremo adia por quanto tempo quiser uma transação de bilhões de dólares), criar condições para que clientes de bancos ganhem pouco quando aplicam e muito quando devem, isso para dar apenas alguns exemplos. É preciso ter estabilidade política, para que o mercado saiba quem decide. É preciso deixar claro que receber ou cobrar propinas não é tolerável. Cadê as propostas oficiais? Há propostas que são discutidas pelo Congresso mas não são as do Governo, e são bombardeadas pelos bolsonaristas. É preciso botar ordem na casa. Sem isso não se cresce.

Quem é quem

O presidente da Câmara, Rodrigo Maia, assumiu o papel que deveria ser o do articulador político do Governo, colocou a reforma da Previdência como prioridade, buscou propostas anteriores (boa parte ainda da administração de Michel Temer) e está, objetivamente, ajudando Bolsonaro. Mas é atacado como se estivesse planejando a deposição do presidente. Os bolsokids, ativos na Internet, procuram desmoralizá-lo – até de gordo ele já foi acusado. Seu projeto de segurança pública não é o de Moro? E daí? É o de Alexandre de Moraes, hoje ministro do Supremo. É pior que o de Moro? Pode ser; mas a pergunta é se a coisa fica melhor ou pior com a aprovação do projeto. Ao que tudo indica, a segurança pública pode ganhar. Mas se os “ideólogos” do bolsonarismo (outros os chamariam de “radicais”) desconfiam de que a lei a ser aprovada é diferente da proposta pelo presidente, mordem no pescoço.

Metade do ano

O fato é que, hoje, há muitos congressistas profundamente irritados com o presidente da República e dispostos a derrotá-lo sempre que possível. Foi o que fizeram com as medidas provisórias, as armas, e que prometem repetir. Os bolsokids prometem publicamente (e quem falou por eles foi Eduardo Bolsonaro, o filho 03) que todas as vezes que o Congresso “não se comportar” jogarão as ruas contra eles. Confiam que os manifestantes são de total confiança, dispostos a apostar tudo em nome da verdade oficial.

O lado de Moro

A manifestação de domingo foi pró-Moro. Os filhos do presidente não trabalharam por ela. Há quem tema que Moro queira o Planalto.

E os militares?

A elegância no trato não é, já se sabe, uma característica do Governo de Bolsonaro. Aparentemente, tanto ele quanto seus adeptos mais intransigentes passam boa parte do tempo à procura de inimigos, mesmo que sejam amigos de décadas, amigos a toda prova. Isso faz com que o número de inimigos cresça. Bebianno caiu, Santos Cruz caiu, o general-ministro virou presidente de estatal à venda – e soube das intenções do presidente pelo jornal. Agora o alvo é o general Augusto Heleno, amigo de Bolsonaro, que vira alvo do 02, Carluxo, o filho do presidente. O problema é que militar, por mais simpático que seja, anda armado e é treinado para comandar. Até quando aceitará provocações e humilhações? Lembremos que Olavo de Carvalho, lá de sua casa nos Estados Unidos, já ofendeu com palavrões o general Santos Cruz.

Solidariedade

No caso do ataque ao general Augusto Heleno, dizem que, conversando com jornalistas, Bolsonaro se disse solidário com ele. Como diria o próprio Bolsonaro, “talkey”. Mas ficar impassível diante de ofensas públicas e só se manifestar em particular é a mesma coisa que participar das ofensas. E, no caso, as ofensas buscaram atingir a boa reputação do general, já que puseram no Gabinete de Segurança Institucional, que ele dirige, a culpa do caso do sargento que traficava cocaína. Carluxo disse também que anda sem seguranças oficiais porque são  “subordinados a algo em que não acreditam”. Bolsonaro se recusou a responder a perguntas sobre o tema, mas apareceu em companhia do general, uma forma de mostrar que tem prestígio. E nada falou em defesa do amigo e ministro: limitou-se a dizer aos repórteres que deveriam procurar o 02 – como se até agora as opiniões do filho 02 não tenham se confirmado com as decisões do papai.

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​O pó que esconde o sucesso

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Houve ameaças de má recepção europeia a Bolsonaro, mas não houve nada de errado. Bolsonaro conversou com o presidente francês Macron, que acabou convidado a visitar a Amazônia. E, ao mesmo tempo, houve uma vitória de grande porte: um enorme acordo de livre comércio entre a União Européia e o Mercosul. Dois números: espera-se que, em 15 anos, o Brasil aumente as exportações à UE em US$ 100 bilhões; e, com o acordo, o PIB brasileiro pode crescer em US$ 125 bilhões no mesmo período.

Com isso, nossa economia, que está devagar quase parando, tomaria um choque de entusiasmo, e demonstraria que a reforma da Previdência, embora essencial, não é a única ferramenta disponível para o aumento do emprego. Mas tudo foi ofuscado por uma nuvem de pó: a prisão em Sevilha de um dos integrantes do grupo de apoio à viagem presidencial, que tentou carregar 39 kg de cocaína para fora do aeroporto de Sevilha. Como um comissário de bordo entra num avião da Presidência com 39 kg de cocaína na mala? Como levou a cocaína, poderia ter levado explosivos. Quem falhou na vigilância?

Quem viaja em comitiva presidencial, seja ou não no avião do presidente, tem de ser examinado – com raios X, revista pessoal, o que houver de mais seguro. A cúpula se esquiva: até o Gabinete de Segurança Institucional diz que a questão é da FAB, não dele. A poeira tapou a visão de tudo e de todos.

E ainda riram

O presidente já sofreu um atentado, a segurança não pode ser descuidada. E não é a primeira vez que o avião presidencial é usado por traficantes. Em 1999, a Operação Mar Aberto, da Polícia Federal, apurou que aviões da FAB eram usados por pessoal de bordo para tráfico de drogas. Um coronel pegou 16 anos de prisão e perdeu o posto e a patente. Tudo indica que algo parecido ocorreu agora: o tripulante levou sua mala sem ser revistado, sem sequer passar pelos raios X, e transportou quase R$ 6 milhões em cocaína.

O ministro da Educação fez piada: disse que o avião presidencial já havia transportado muito mais drogas, referindo-se aos presidentes Lula e Dilma. Só que não é caso de piada: é caso sério, que não pode jamais se repetir.

Educador-chefe

Mas é injusto culpar o ministro da Educação por ter-se referido ao “PT e seus acepipes”, como se não soubesse que acepipe é sinônimo de guloseima. O responsável pelo equívoco deve ter sido o corretor do teclado. Só que aí a coisa piora muito: é provável que ele tenha querido escrever “asseclas”. Mas, para que o corretor errasse como errou, teria de ter escrito “aceclas”.

Hora errada

A poeira nos olhos prejudicou a visão de boas perspectivas bem na hora em que Bolsonaro mais precisa de um reforço de imagem. A pesquisa Ibope, encomendada pela Confederação Nacional da Indústria, mostra que ele, pela primeira vez em seu Governo, tem índice de desaprovação superior ao de aprovação. Sua maneira de governar é desaprovada por 48%, contra 46% que a aprovam – tudo bem, é margem apertada, está dentro das possibilidades de erros. Mas outras indicações também estão mal: 51% desconfiam do presidente, e 46% nele confiam. E 32% acham o governo bom ou ótimo, contra 35% no mês passado – uma porcentagem que vem caindo mês a mês.

O indício mais forte

Mais importante do que qualquer pesquisa, entretanto, é o comportamento de pessoas que estiveram a seu lado e dele agora se descolaram. São gente do ramo – como dizia Ulysses Guimarães, pessoas que cheiram a direção do vento. João Dória é um deles: apoiou Bolsonaro na eleição, aproximou-se, e agora se afasta. Um dos motivos, claro, é que pensa na eleição presidencial, e acredita que Bolsonaro será seu adversário. Mas ainda falta tempo e ficar perto do presidente lhe renderia alguns frutos, se a árvore frutificasse. Outro é o empresário carioca Paulo Marinho, que Bolsonaro colocou como suplente de Flávio no Senado e em cuja casa funcionou seu quartel-general de campanha. Marinho agora é Dória desde criancinha. Diz que continua gostando de Bolsonaro, mas não de seu governo. Entre aspas: “Esperava que o governo fosse trabalhar de maneira mais coordenada, sobretudo na relação com o Congresso. O que vimos até agora foram muitos desencontros. Se ele não encontrar uma maneira de lidar com o Congresso vai ter problemas até o final. Ele tem sido muito generoso com a imprensa, o capitão: gera notícias todo dia, e notícias que não são exatamente positivas.” Aliás, diz, só apoiou Bolsonaro porque Dória não se lançou. Queria alguém que derrotasse o PT.

Boa notícia

O Idec, Instituto de Defesa do Consumidor, apresentou à Anatel uma série de medidas para limitar o abuso de ligações de telemarketing – as ligações chatas que caem tão logo o caro leitor atende, e quando não caem veiculam mensagens de interesse zero. O Idec sugere que só possam receber ligações os assinantes que autorizem o serviço, e desde que haja limitação de horários.

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​Ferracini 24h: 35 anos de uma empresa moderna e lançadora de tendências

Tradicional e contemporâneo coexistem de forma harmônica e o resultado são as constantes inovações

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Com 35 anos, a Ferracini 24h tem o espírito jovem em seu DNA, responsável pela criação de produtos com muita qualidade e conforto. 

É uma história sedimentada por vanguarda, evoluções tecnológicas e hoje, a empresa vislumbra o futuro com um amplo planejamento e intenso aperfeiçoamento em seus processos produtivos.

A marca trabalha com o status de ser uma das primeiras a instaurar no Brasil o conceito de conforto nos anos 2000, quando esse era ainda um assunto pouco explorado pelo segmento calçadista. 

Hoje, a empresa conta com várias tecnologias que amplificam o conforto para os pés, como a Fly, Dry, e a Float, diferenciais em sintonia com a demanda no mercado interno. 

Além disso, vem investindo fortemente no design de seus produtos, com bastante apelo estético, especialmente em 2018, quando lançou as linhas Rio e Impulse, e recentemente, os sneakers Game. 

São calçados que já podiam ser encontrados no exterior, e a Ferracini 24h trouxe para o país a um preço mais acessível, ou seja, democratizando o acesso à moda e disponíveis também na loja virtual da marca.

“A Ferracini 24h é uma empresa com características de hunting, ou seja, além de identificar as demandas dos consumidores e atuar intensamente para satisfazê-las, também vem criando novas necessidades no público, por meio de produtos cada vez mais inovadores. Isso cria uma nova proposição de valor da marca”, afirma Roberto Barbosa, diretor comercial da empresa.

A empresa, que produz 2 milhões de itens/ano e conta com quatro unidades de produção (Franca-SP, Machado e Ibiraci – MG, e Amargosa – BA), ainda investe fortemente em seus produtos mais clássicos e com visual alinhado, sendo uma das opções mais procuradas pelas lojas físicas no Brasil e exterior, com mais possibilidade de giro no PDV. 

Para esse ano, a Ferracini 24h, que marca presença em mais de 40 países, principalmente América do Sul e Europa, projeta um crescimento de 20% no mercado interno e externo.

O novo e o tradicional também podem ser encontrados na concept store da Ferracini 24h, onde o consumidor pode adquirir o produto de forma convencional, ou ainda optar pela experiência Omnichannel, onde ele acessa de modo simultâneo os diferentes canais de comunicação da marca. 

A empresa também tem forte presença digital com suas redes sociais, com conteúdo de qualidade e relevante para o universo masculino, e como consequência, conquistou o prêmio Moda Masculina Top of Mind 2019/site El Hombre, de marca mais admirada pelos consumidores na categoria sapatos. 

A Ferracini 24h ainda atua com propósito, em ações como suas embalagens Ecobox, 100% biodegradáveis; Projeto Basquete, que promove a inclusão social para crianças de baixa renda; e desenvolve o “Convivendo com as Diferenças”, que promove a real integração socioeconômica dos colaboradores com necessidades especiais. 

“Para o futuro, nosso intuito é trazer ainda mais contemporaneidade para a marca. Sempre com um olhar 360°, pesquisando constantemente novas tecnologias e novidades da moda, design, lifestyle, cultura street e artes. Estamos trabalhando no branding e em itens diferenciados, ao mesmo tempo em que aplicamos inovações nos calçados mais clássicos. A moda masculina proposta pela Ferracini 24h oferece experiências: de estilo, de comportamento ou das tecnologias aplicadas aos modelos”, comenta Roberto Barbosa.

​Toga vai, toga vem

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Um pedido de habeas corpus que, se aprovado, libertaria Lula, já estava sendo julgado pelos cinco ministros da Segunda Turma do Supremo. Com a votação em 2x0 negando o pedido, o ministro Gilmar Mendes pediu vista do processo e tudo foi paralisado. Gilmar, depois de cerca de seis meses, devolveu o processo e a continuação do julgamento foi marcada para ontem, terça. Mas, na segunda, Gilmar Mendes, alegando que não havia tempo para estudar o pedido dos advogados do ex-presidente, sugeriu que o julgamento fosse para o segundo semestre. Na terça, levando em conta que, com o julgamento no segundo semestre, Lula ficaria mais tempo preso, o próprio Gilmar sugeriu que ele aguardasse a decisão em liberdade.

Toga vai, toga vem, de repente o tempo se tornou suficiente para estudar os pedidos dos advogados de defesa. E o Supremo passou a discutir dois habeas corpus, não apenas um: no primeiro, a defesa de Lula critica o relator da Lava Jato no Superior Tribunal de Justiça, ministro Félix Fischer; no segundo, pede a suspeição do então juiz Sérgio Moro, hoje ministro da Justiça. O advogado Cristiano Zanin disse que, no processo em que Lula foi condenado, “houve manifestas violações aos direitos fundamentais”, que levaram “à condenação injusta e ilegal”. Frase: “Não daria tempo de revelar todas as violações”. Os ministros decidiram não decidir: o julgamento ficou para agosto, depois do recesso judiciário. Com Lula preso.

Lei vem, lei vai

Lula foi condenado em primeira instância, pelo juiz Sérgio Moro, a 12 anos e um mês de prisão. Um recurso foi rejeitado pelo ministro Félix Fischer, do STJ. Houve recurso e a Quinta Turma do Superior Tribunal de Justiça confirmou a condenação, reduzindo a pena a oito anos e dez meses. No STF, dois ministros dos cinco que integram a Segunda Turma haviam negado o habeas corpus, mas teriam o direito de mudar o voto. Até agosto!

Los Hermanos

O respeitado jornalista José Casado conta, em O Globo, como se decidiu doar a Cuba algo como 10% do seu PIB: US$ 4,9 bilhões. Lula reuniu seis ministros em Brasília às vésperas do Carnaval de 2010 e liberou a verba. Por que? Não há qualquer registro a respeito disso. Mas havia, claro, uma empreiteira brasileira interessada em fazer obras no Exterior com dinheiro brasileiro. A fonte de Casado são técnicos do Tribunal de Contas da União que examinaram a papelada do caso, apontado como “decisão de Estado”.

Lava Jato apanha e cresce

O Instituto Paraná Pesquisas, a pedido do site Diário do Poder (www.diariodopoder.com.br), estudou o efeito dos ataques do Intercept à Lava Jato. Primeira conclusão: 87,6% dos cidadãos souberam da troca de mensagens atribuídas a Moro e a procuradores da Operação Lava Jato. Mas, para 56,1% dos entrevistados, isso não coloca em dúvida os resultados da Lava Jato. E 38,1% têm dúvidas sobre a Lava Jato – ou seja, menos que os 44,8% dos votos do PT nas eleições presidenciais. O maior apoio à Lava Jato vem de cidadãos com curso superior completo: 72,2%.

A reforma anda...

O presidente da Câmara Federal, Rodrigo Maia, reafirma: a reforma da Previdência deve ser submetida ao plenário na primeira ou segunda semana de julho. E haverá tempo suficiente para que o Senado a aprove e permita que comece a funcionar no início de 2020. Espera-se que, com a reforma, mesmo atenuada, o Tesouro economizará uns R$ 100 bilhões por ano.

...as armas param

Outra informação de Rodrigo Maia: a Previdência passa, mas as medidas do presidente Bolsonaro que facilitaram a posse e o porte de armas devem ser derrubadas. Só falta o voto da Câmara: o Senado já votou contra. Maia diz que parte das medidas rejeitadas pelo Congresso é inconstitucional, e as que forem constitucionais devem ser reapresentadas como projetos de lei.

A favor, mas contra

Muitos parlamentares que votaram pela derrubada das medidas que facilitam posse e porte de armas são favoráveis a elas, mas acham que o caminho usado pelo presidente não é o melhor. Querem o envio de projetos que seriam examinados e votados pelo plenário. Ou seja, querem opinar e influir, não votar medidas em bloco, sem poder discuti-las uma a uma.

Menos truculência

Um dirigente de uma estatal foi fotografado em seu carro aos abraços com uma bonita funcionária. Aparentemente, tudo bem: a menos que os informes recebidos por esta coluna estejam errados, ambos são desimpedidos. Estão, porém, a pique de cometer um erro: demitir o funcionário que os fotografou. Está bem, ambos se sentiram espionados, mas demitir alguém por isso é uma daquelas coisas que costumam gerar confusão. E ele, com bons motivos, vem sendo elogiado pelo seu desempenho na direção da empresa.

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​Culpa do cimento e do talento

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A Odebrecht, uma das maiores empresas brasileiras, pediu recuperação judicial – aquilo que antigamente chamávamos de concordata. As equipes que montou, e que nada têm a ver com pixulecos e propinas, já perderam muitos talentos, e os que sobraram perderão o emprego se a empresa quebrar. Os donos vão bem: vivem confortavelmente (alguns diriam luxuosamente) e estão entre os que mais têm a receber da empresa, fortemente endividada.

Por que? Por que punir a empresa (e não falemos apenas da Odebrecht, mas de todas as envolvidas na Operação Lava Jato), se quem cometeu os atos de que todos sabemos não foram os prédios nem os funcionários, mas seus diretores? Equipes talentosas, que foi difícil montar, são e serão desfeitas sem que seus integrantes tenham culpa; e são eles que ficarão sem emprego. Perde também a engenharia brasileira, porque o know-how não é usado, e os clientes se afastam de empresas com problemas. “A lei manda punir as empresas” – mas leis podem ser modificadas. Se quem estava irregular eram os donos e seus executivos, por que não puni-los, afastá-los da empresa até que sejam julgados, tomar-lhes as ações e entregá-las a, por exemplo, uma cooperativa de funcionários? Do jeito que a coisa anda, donos e executivos se salvam e quem não participou de ilegalidades paga com seu emprego.

Como diz o jornalista Luís Nassif, é possível punir quem deve ser punido sem desmontar a empresa toda. Beneficiar quem não merece é mau exemplo.

Os credores

Na recuperação judicial de quase R$ 100 bilhões da Odebrecht, figuram entre os credores o comandante da empresa, Emílio Odebrecht, com R$ 80 milhões a receber. Seu filho Marcelo, o Príncipe dos Empreiteiros, que ficou pouco mais de dois anos na prisão por ter, digamos, pago pixuleco a uma lista telefônica de corruptos, vive hoje em prisão domiciliar, em sua bela casa, usando tornozeleira (haverá tornozeleira de grife?), e é credor de bons R$ 16 milhões. Pai e filho, quase R$ 100 milhões. Sobrará o suficiente para pagar indenizações a funcionários que não subornaram ninguém? Está certo?

Moro, um palpite

Não tenho ainda qualquer informação sobre como repercutiu o diálogo de Moro com a Comissão de Constituição e Justiça, mas arrisco um palpite: a popularidade do ministro deve crescer nas próximas pesquisas. Estava tranquilo, saiu-se bem, nem utilizou um argumento explosivo à sua disposição: dos senadores que o interrogaram, 25% tinham problemas com a Lava Jato. Moro manteve a conversa em alto nível (já Bolsonaro, falando do tema, chamou Jean Wyllys, militante homossexual, de “aquela menina”). Moro agiu certo, sem apelar. E isso deve render-lhe pontos na pesquisa.

Quem tem razão?

De acordo com os diálogos (lembrando que não houve perícia para provar que são verdadeiros), Moro ultrapassou o limite da lei ou se manteve dentro do legalmente aceitável? A discussão está brava. Creio que, com algumas exceções, quem quer Lula livre ou apenas não tolera Bolsonaro dirá que Moro ultrapassou os limites e deve ser demitido. Quem acha que o presidente é o máximo ou detesta Lula acha que Moro agiu dentro da lei. É simples: se o pênalti favorece nosso time, com certeza ocorreu e foi bem marcado.

Os adversários 1

Este colunista já escreveu sobre um fenômeno curioso: quem o processa tem tido falta de sorte. O ex-governador goiano Marconi Perillo, que reclama da cobertura do casamento de sua filha, não apenas perdeu as eleições para o Senado (embora houvesse duas vagas, o eleitor negou-lhe o cargo que lhe daria foro privilegiado), como o candidato que lançou ao Governo foi derrotado por seu principal adversário, Ronaldo Caiado. Enfrenta uns quinze inquéritos promovidos pelo Ministério Público estadual. Agora o Ministério Público Federal o denunciou sob a acusação de ter recebido propina de R$ 17,8 milhões da Odebrecht. A denúncia foi feita via Operação Cash Delivery, um dos braços da Lava Jato. A defesa do ex-governador diz que a denúncia é a comprovação “da parcialidade e da perseguição que este Procurador (Hélio Telho) promove, há anos, contra o ex-governador”.

Os adversários 2

A Marabraz, gigante do comércio, iniciou processo contra este colunista com base na contestação de informação aqui publicada - uma notícia seca, sem juízo de valor. Pois bem, o procurador do Estado-chefe Celso Jesus Mogioni e a Assistência da Presidência da Jucesp, Junta Comercial do Estado de São Paulo, confirmaram a informação. Segundo documentos oficiais, a LP Administradora de Bens tem alteração do contrato social com texto divergente da escritura pública, omitindo entrada e saída do Grupo Marabraz do sócio Fábio Fares. E a procuração da matriarca do grupo estava revogada desde 2008, anos antes de sua utilização. Este jornalista sempre verifica suas fontes. Como não disse um anúncio famoso, checagem melhor ninguém faz.

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​Constituição, a Nossa e a Deles

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Tudo o que se discute sobre a divulgação da troca de mensagens entre os procuradores da Lava Jato e o então juiz Sérgio Moro, hoje ministro, é fácil de entender: quem é a favor de anular os julgamentos de Lula e libertá-lo imediatamente acha que juiz e procuradores manifestaram sua parcialidade e portanto se deve anular os processos; quem é a favor de manter Lula preso acha que os diálogos publicados pelo Intercept ou são falsos ou estão dentro da lei, e que se deve, isso sim, descobrir quem violou ilegalmente o sigilo do juiz e dos procuradores, processar os responsáveis e botá-los na cadeia.

É como pênalti no futebol: se é contra nosso time, é claramente uma má interpretação da jogada. Se é a favor, foi flagrante, indecente, bem marcado. E, como no caso do pênalti, há uma ínfima minoria que procura analisar os fatos à luz da lei. E que dizem os especialistas neutros? Há quem diga que sim, há quem diga que não. Depende do caro leitor: em quem confia mais?

Isso quer dizer que a questão será resolvida politicamente. Como Moro se mostrou capaz de resistir ao Intercept e até de ser aplaudido num estádio – embora usasse camiseta do Flamengo em que aparecia por baixo sua gravata (estava também de paletó), embora seja razoável supor que não tivesse a menor ideia de quem era a bola – tudo acabe em pizza. No dia 30 de junho haverá grandes passeatas bolsonarista e ele estará blindado, ao menos até que Carluxo, o filho 02, implique com ele. Mas segurança total é uma ilusão.

Vida agitada

Moro, quem diria, já esteve no Programa do Ratinho, o que ninguém iria imaginar. Hoje vai ao Senado, diante de uma plateia majoritariamente hostil,  para defender a Lava Jato e o Projeto Anticrime. O projeto anticrime já ficou para o segundo semestre. No caso Lava Jato, terá o apoio dos evangélicos, mas de novo as bancadas governistas permitiram que a oposição ocupasse a maior parte das posições entre os debatedores. Apesar disso, Moro só tem de se manter sereno para sair-se bem. Se perder a calma, entrar em bate-bocas, jogará contra seu próprio time. O que neste Governo, aliás, não é novidade.

A linha de defesa

Moro deve adotar, no debate, algumas posições do tipo “meu time é que tem razão”. Tentará deixar de lado o conteúdo das mensagens, dando grande importância à maneira como foram obtidas, que classificará de inaceitável, ilegal.  Pode desmentir uma ou outra transcrição, certamente pedirá que seja publicada a íntegra da interceptação, talvez diga que, mesmo verdadeiras, as mensagens não indicam nenhuma violação da lei. Moro tem uma situação privilegiada: com ou sem transcrições, mantém alto nível de popularidade.

Pesquisa favorável...

Na véspera do comparecimento de Moro ao Senado, saiu a pesquisa Ibope encomendada pela CLP – Liderança Pública, grupo sem fins lucrativos cujo objetivo declarado é contribuir para melhorar a vida dos brasileiros. Ao lado da CLP, há 77 entidades apartidárias, entre elas federações do Comércio e da Indústria, e think-tanks do pensamento econômico liberal, como o Instituto Millenium e o Instituto Mises. CLP e a rede de entidades têm como objetivo divulgar, sob o nome Apoie a Reforma, a reforma da Previdência;  e estimular movimentos de cidadãos em favor de reformas estruturais.

Agora, a pesquisa: 82% são favoráveis a que a atual geração se esforce  para garantir a aposentadoria às gerações futuras. E 45% defendem o sistema de capitalização, onde cada trabalhador forma um fundo individual que possa complementar, com seus rendimentos, o salário do aposentado. A proposta de reforma apresentada pelo Governo (e que pode ser mudada no Congresso, o que deve acontecer) tem o apoio de 44% dos pesquisados.

...mas cuidado

A pesquisa é favorável, mas é preciso levar em conta que os pesquisados não têm como fazer a conta para saber se vão ou não ganhar mais. Há ótimos economistas que fizeram a conta e concluíram que não há como reformar a Previdência, ao menos agora, incluindo a capitalização. Falta dinheiro.

O tamanho do rombo

A multibilionária Odebrecht, do grupo que mais vezes foi denunciado em delações premiadas, cujo principal diretor (e herdeiro) foi preso por um longo período, é multibilionária também em dívidas: quer recuperação judicial (a antiga concordata) para negociar R$ 65 bilhões com seus credores. A Odebrecht resistiu o quanto pôde a essa solução, mas teve de recorrer a ela quando a Caixa Econômica Federal passou a executar as garantias de suas dívidas. O problema não é apenas o montante dos débitos: é a resistência de possíveis clientes futuros, impressionados com o volume de más notícias que atingiu a empresa desde o início da Operação Lava Jato.

Quem compra?

Simultaneamente, a Odebrecht perdeu clientes como Cuba, Venezuela, Angola; esses clientes também já não chegam ao BNDES. Tempos difíceis.

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​É uma brasa, Moro!

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Juridicamente, pode ser que haja irregularidades nas comunicações entre o ministro Sérgio Moro e procurador-chefe da Lava Jato, Deltan Dallagnol. A OAB abriu fogo contra ambos e juristas respeitados os criticam. Em termos de comunicação, manda a boa técnica que se publique parte da denúncia e se aguarde a reação.  Só então se publica a denúncia completa. Esses fatores podem mudar a situação, mas, até o presente momento, Sérgio Moro parece ter vencido politicamente a guerra que o Intercept iniciou.

Alguns fatos demonstram que Moro, se o atingiram, foi só de raspão.

1 – No Maracanã, dizia Nelson Rodrigues, vaia-se até minuto de silêncio. Lula, no auge da popularidade, foi vaiado no estádio de São Januário. Moro foi ao estádio em Brasília, vestiu a camisa do Flamengo e foi aplaudido.

2 – Numa das mensagens atribuídas a Moro, há a frase “In Fux we trust” (em Fux confiamos). Na sexta de manhã, o ministro Fux tomou um avião em Brasília e foi aplaudido por passageiros. Houve gritos de “In Fux we trust”.

3 – Pesquisa da XP (elaborada para orientar investidores) mostra Moro como o mais popular integrante do Governo. Sua nota oscilou de 6,5 para 6,2, ainda bem acima do segundo, o próprio presidente Bolsonaro.

Quem votou em Bolsonaro por não aceitar nada do que está aí deve estar feliz com as transgressões atribuídas a Moro – justo ele, com cara de bom moço. E foi depois de ver as pesquisas que Bolsonaro lhe deu apoio total.

Política é política

Na busca de popularidade, há coisas estranhas. “Esquerda”, em religiões afro, é do mal, e “direita” é do bem. “Populista”, para a elite, é depreciativo. Fora da elite, é positivo, indicando quem se preocupa com o povo. “Autoritário”, para a elite, é depreciativo; fora da elite, é positivo, e indica quem sabe usar a autoridade. Há mais votos fora da elite do que dentro dela. 

Brasil é Brasil

Mas nunca levem uma análise (nem as deste colunista) demasiado a sério. No Brasil, dizia Pedro Malan, até o passado é imprevisível. Imagine o futuro.

Guerra é guerra

A próxima batalha entre o Intercept e Moro pode ser deflagrada ainda hoje, com a publicação de novas mensagens. Mas a seguinte é a da Polícia Federal contra quem forneceu informações ao Intercept. O que se diz é que nada será feito que viole a liberdade de imprensa: quem publicou tinha o direito de fazê-lo. O que se investiga, dizem, é quem obteve ilegalmente as mensagens, e como. Suspeita-se até de um esquema internacional, com o objetivo de desmoralizar as decisões da Justiça e conseguir libertar Lula. De acordo com o jornalista Cláudio Humberto (www.diariodopoder.com.br), pode haver operações de busca e apreensão nos endereços dos responsáveis pelo Intercept. Fala-se em respeitar a liberdade de imprensa, mas sabe-se lá.

Filho é filho

Mas, mesmo escapando (ao menos até agora) da tentativa de demolição de Moro, Bolsonaro não resistiu a gerar uma nova crise: a demissão de um amigo de quase 50 anos, o general Santos Cruz, da Secretaria do Governo. O imperdoável erro de Santos Cruz foi não se alinhar aos filhos do presidente e ao escritor Olavo de Carvalho, que fizeram campanha contra ele por achar que não usou direito a comunicação do Governo. No lugar de Santos Cruz, outro general, este da ativa: o até agora comandante militar do Sudeste, Luiz Eduardo Ramos Baptista Pereira. Santos Cruz declarou sua admiração por Bolsonaro e os dois dizem que a reunião entre eles foi amigável.

Acordo é acordo

Depois de uma fase extremamente tensa, saiu enfim o parecer do relator da reforma da Previdência, deputado Samuel Moreira. As modificações que Moreira sugere aparentemente não mudam a meta de economia desejada pelo ministro Paulo Guedes, entre R$ 1 e R$ 1,2 trilhão de reais em dez anos. Agora é votar (depois dela, virá a reforma tributária, talvez não a proposta por Guedes, mas um projeto anterior, redigido por um economista de ótimo conceito, Bernard Appy). O que se espera é que a reforma da Previdência, de acordo com o prometido, desencadeie investimentos privados nacionais e internacionais, permitindo reduzir o desemprego e retomar o crescimento.

Perdemos todos

Um dos grandes jornalistas brasileiros, Clóvis Rossi, morreu na sexta, aos 76 anos. Morreu como viveu, do coração. Excelente repórter, sempre trabalhamos quase juntos. Juntos mesmo, pouco: na queda de Salvador Allende (ambos, mais o notável José Maria Mayrink, ele para O Estado de S. Paulo, Mayrink e eu para o Jornal da Tarde). Meses de convivência na Folha de S.Paulo, depois, e anos quase juntos, eu na Folha da Tarde. Nunca fomos amigos de sair juntos, mas, discordando de boa parte de suas posições, sabia que um fato publicado por ele tinha mesmo ocorrido e da maneira como o descrevia. Dirigiu o Estadão com brilho – e que equipe montou! 

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​A ordem é cumprir ordens​

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O ministro Sérgio Moro e o procurador Deltan Dallagnol podem superar os problemas ou ser superados por eles. Mas a publicação, pelo Intercept, de diálogos entre Moro e procuradores, coloca todo o Governo em má situação. A reforma da Previdência vai passar pelo Congresso, sem ser muito desfigurada. Mas outras iniciativas do Governo (como a Lei Anticrime, do ministro Sério Moro) só passam se o Centrão, com seus duzentos e poucos votos, concordar. E negociar com o Centrão exige não só muito tempo como sólidos e abundantes argumentos, de dar enjoo ao ministro Paulo Guedes.

Mesmo antes das informações publicadas pelo Intercept (que devem ser verdadeiras, já que nem Moro nem Dallagnol as desmentiram), o Centrão já havia mostrado sua força. O COAF, que passaria ao comando de Moro, ficou na Economia; as emendas parlamentares, que o Governo podia ignorar numa boa, são agora obrigatórias. A medida provisória que garante R$ 248 bilhões a mais ao Governo para que suas atividades não sejam paralisadas só passou pelas comissões no último dia, mesmo com Bolsonaro avisando que teria de parar de pagar aposentadorias e pensões. E não há em Brasília quem acredite que a facilidade para posse e porte de armas, as medidas que aumentam o risco e as consequências de acidentes de trânsito e a Lei Anticrime passem sem onerosas discussões com o Centrão. Mesmo que as conversas transcritas não indiquem culpa, já serviram para colocar o Governo em dificuldades.

A regra do jogo

Que ninguém se iluda, pensando que as transcrições já divulgadas do Intercept tenham esgotado o assunto. Em reportagens desse tipo, publica-se apenas parte das informações disponíveis. Aguarda-se a reação de quem foi atingido. Aí vem a segunda parte, buscando desmoralizar os desmentidos. E pode haver uma terceira parte, por que não? A simples iniciativa petista de divulgar essa reportagem pouco antes de um julgamento que poderia libertar Lula (ou até anular suas condenações, objetivo que buscam) já criou todo um tumulto. Se Moro e Dallagnol pisarem em falso, poderão sofrer muito mais.

Culpado ou inocente?

Este colunista ouviu advogados de várias tendências. Há quem diga que nas conversas não há nada anormal; há quem diga que o juiz não poderia ter contato tão próximo com um dos lados do julgamento. Se a questão chegar ao STF, considerando-se que vários ministros discordam das posições de Moro, pode ocorrer a suprema inversão: Lula livre e Moro punido – a menos que haja forte mobilização popular em favor do ministro e contra Lula.

Questão de opinião

Pelas conversas até agora divulgadas, provavelmente a questão de quem é o culpado será resolvida por interpretação, da qual muitos irão divergir. Sò que isso também depende do que acontecerá de agora em diante. Desmerecer Glenn Greenwald por ser homossexual, casado com um parlamentar do PSOL, é um erro, e não apenas por achar que a opção sexual o desqualifica. Júlio César, o grande general romano, dizia-se “mulher de todos os maridos e marido de todas as mulheres”. Alcibíades, o general ateniense que, ao mudar de lado, ajudou a definir a vitória de Esparta na Guerra do Peloponeso, foi amante de Sócrates. Greenwald sabe como divulgar as coisas: trabalhou com Edward Snowden, hoje asilado na Rússia, que divulgou informações a respeito dos programas de monitoramento de opinião do Governo americano, é próximo de Julian Assange, conhece o jogo. Querer expulsá-lo é burrice, é levar para o mundo inteiro uma questão que hoje fica por aqui. Que tentem vencê-lo no campo das ideias. É a única vitória definitiva.

Sabe mais

Greenwald, há muito tempo no Brasil, sabe também que Bolsonaro, sem base parlamentar própria, é quase um refém do Centrão. Derrotar Bolsonaro, popular, com uma legião de fãs que beiram o fanatismo, é impossível. Mas é possível prejudicar muito su Governo entregando-o amarrado ao Centrão.

Qual é a fonte?

Aqui está uma questão intrigante: de onde saíram as transcrições? Dizem que Moro e Dallagnol tiveram os telefones interceptados (“hackeados”), mas o aplicativo Telegram afirma que não houve violação do sigilo. O Telegram tem sede em Dubai e seu principal acionista é russo. Pode estar mentindo. E pode não estar. É bom lembrar que, sempre que se aproxima a reforma da Previdência, que incomoda altos funcionários, acontece alguma coisa que a impede. Da última vez, foi a divulgação da conversa entre Joesley Batista e o presidente Michel Temer (a propósito, vale ler Traidores da Pátria, livro de Cláudio Tognolli, pela Editora Matrix, sobre os irmãos Batista). Digamos que algum alto funcionário insatisfeito tenha tido acesso às mensagens e se tenha interessado em utilizá-las para dinamitar o atual projeto de reforma. Nada é impossível. Só que agora não vai funcionar: o Centrão, coordenado pelo presidente da Câmara, Rodrigo Maia, está comprometido com ela.

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