​A dança do sobe e desce

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A pesquisa do Ibope foi uma das melhores que Bolsonaro já teve: 40% de aprovação, 29% de reprovação. Se a eleição presidencial fosse hoje, não apenas estaria no segundo turno: teria chance de vencer no primeiro. Mas a eleição não é hoje. E outra pesquisa, publicada praticamente ao mesmo tempo pela Exame, é bem pior para ele: desaprovação de 42%, aprovação de 35%. As duas pesquisas chegam a resultados diferentes por causa dos mesmos fatores: basicamente, a ajuda de emergência a pessoas carentes, iniciada com R$ 600 mensais e que, agora, cai a R$ 300. A coronavoucher explicaria a alta dos índices do presidente, embora no Nordeste, onde se concentra boa parte dos eleitores mais carentes, esse crescimento não tenha sido tão acentuado. A mesma coronavoucher, caindo para R$ 300, com a promessa de Bolsonaro de não pensar em Renda Brasil até o ano que vem, e aliada à subida da cesta básica, estaria puxando seu prestígio para baixo.

Bolsonaro, ao dizer que só pensaria em Renda Brasil no ano que vem, não quis dizer que a ajuda vai parar: está garantida até dezembro, e janeiro já é o ano que vem. Mas era fácil ser mal interpretado. Como é fácil interpretar mal as propostas de Paulo Guedes de substituir alguns impostos por outros. Num país como o nosso, supõe-se que vão criar impostos sem eliminar nenhum.

E as pesquisas? Serão úteis ao Governo e à oposição para definir táticas e estratégias. Para as eleições, não querem dizer nada. Estão longe demais.

Pesquisa mais próxima

Em São Paulo, informa o DataFolha, Bolsonaro é rejeitado por 46% dos eleitores, pouco acima do empate técnico com o governador João Dória, que 39% rejeitam. Ou seja, no momento, o apoio público de um ou de outro não é bom para candidato nenhum. Claro que o mundo é diferente: o apoio de um governador ou um presidente vai-se refletir de outra maneira na força de seus candidatos. As máquinas oficiais e partidárias existem e ajudam. Mas, com campanha curta, quem está bem atrás terá um caminho muito difícil.

Covid menos, Covid mais

Os índices da Covid no Brasil estão mais amenos. São Paulo teve forte redução em contaminações e mortes. Há perspectivas reais de que, em pouco tempo – janeiro, talvez – haja vacinas disponíveis. Ótima notícia. Mas em outros países, o vírus, após um período de menor atividade, voltou com tudo. Israel fechou de novo, há forte aumento de casos na Espanha. É preciso tomar cuidado – até agora, a melhor maneira de enfrentar a pandemia foi não contrair a Covid. E esperar que as vacinas (já são onze na terceira e última etapa de testes) sejam apresentadas, aprovadas e aplicadas tão logo possível.

Carnaval, desengano

A Liga Independente de Escolas de Samba, Liesa, decidiu suspender os desfiles de Carnaval no Rio. A associação de blocos decidiu suspender o carnaval de rua. Pode ser que, proclamado o fim da pandemia, haja nas ruas um Carnaval espontâneo (foi o que ocorreu há cem anos, quando terminou a epidemia de gripe espanhola). Pode ser que se designe uma nova data para os desfiles e a festa nas ruas. Mas isso depende da vacinação em massa.

Sem fantasia

O prefeito do Rio, Marcelo Crivella, que odeia Carnaval, poderia comemorar – ele nem apareceu no Sambódromo, nem entregou as chaves da cidade ao Rei Momo, como ocorre todos os anos. Mas está preocupado em se livrar dos tribunais: condenado por uso da máquina pública em favor da candidatura de seu filho, Marcelo Hodges Crivella, foi declarado inelegível por oito anos. Certo, aqui é Brasil, talvez mesmo assim ele continue sendo candidato à reeleição. Mas os partidos oposicionistas já pediram que seja impedido de se candidatar, embora haja a possibilidade de recurso.

Dançando

Já o governador Wilson Witzel está ameaçadíssimo: está afastado do Governo, o pedido de seu impeachment foi aceito, não tem apoio na Assembleia e depende de uma decisão do Supremo para ganhar uma chance de voltar ao cargo. Bolsonaro, que foi seu aliado e hoje é inimigo, já comemorou as dificuldades do governador fluminense. Mas o mundo gira.

Tá faltando um

O advogado Frederick Wassef, de longa relação com a família Bolsonaro – até recentemente era advogado do presidente e de seu filho 01, Flávio – foi denunciado por peculato e lavagem de dinheiro pela Lava Jato. Com Wassef, foram denunciados Orlando Diniz, ex-presidente da Federação do Comércio do Rio de Janeiro, Marcelo Cazzo, responsável pela aproximação dos dois, e as advogadas Marcia Carina Zampiron e Luiza Nagib Eluf.

E tem mais

O Antagonista informou que Bolsonaro se reuniu com o concessionário do aeroporto de Viracopos, que tinha problemas com o Governo. O encontro, diz a revista, após conversa do presidente com Wassef, foi produtivo.

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​Só porque ele quer

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É preciso entender o presidente Bolsonaro. Na ONU, ele não mentiu, só disse a verdade como ele a vê. Por exemplo, floresta úmida não pega fogo. Os índios e os caboclos, explorados por comunistas maconheiros do Exterior e ONGs de maconheiros (como cantou seu filho Flávio, “todo maconheiro dá o toba”), forçados a trocar o precioso nióbio amazonense pela maconha à qual se afeiçoaram, jogam guimbas acesas de maconha no mato e pimba! – começa a fogueira. Não é só isso: o índio não entende direito o sotaque de um norueguês comunista. Quando o norueguês pergunta “onde terr a fumo da bom?”, o índio taca fogo no mato e mostra uma enorme fumaceira da boa.

Os mil dólares de auxílio a 65 milhões de carentes? Tá bom, só alguns vão pegar mil dólares, isso até dezembro. Para a maior parte dos ajudados, a quantia não chegou a mil dólares. Mas, convenhamos, também os carentes não eram 65 milhões – ou eram, um dia talvez saibamos o número certo. Mas só um dos agentes da distribuição de renda, um certo Queiroz, ajudou dona Michele com uns 20 mil dólares à cotação da época, ou 89 mil reais, talkey?

Propôs na ONU o combate à cristofobia. Cristãos não sofrem de cristofobia. Os islâmicos têm Cristo entre os profetas. Jesus era judeu, Israel cuida dos santuários cristãos. Mas Bolsonaro deve ter pensado no Brasil, onde Jesus é unanimidade. Mas colocar Seus símbolos nos palácios do Governo e Sua estátua sobre as milícias do Rio – isto é ou não é perseguição?

É dando que se recebe

Outros pontos criticados do discurso de Bolsonaro também devem ser entendidos a partir de seu ponto de vista. Elogiar publicamente um chefe de outro Estado a poucas semanas da eleição, como fez com Trump, não tem nada a ver com aquele cordão que cada vez aumenta mais. Trump retribui um a um os elogios de Bolsonaro. Lembre-se do I love you. Em troca, Trump reduziu a quantidade de aço brasileiro que pode entrar nos EUA sem tarifas. Bolsonaro escancarou boa parte do mercado nacional para o álcool de milho dos Estados Unidos. Em troca, Trump elogiou Eduardo “Bananinha”, que queria virar embaixador em Washington. A Sig-Sauer americana foi trazida ao Brasil por Eduardo, o filho 03. Em troca, o embaixador americano disse que se o Brasil negociar a 5G com os chineses terá problemas com os EUA.

Não é puxa-saquismo: é, como acredita Bolsonaro, um toma-lá-dá-cá.

A grande dúvida

E não é só Bolsonaro que pensa assim: há uma boa parcela do eleitorado que o chama de Mito e está disposta a trabalhar por sua reeleição. Acreditam nele. A dúvida é outra: para raciocinar assim, qual será a cloroquina que Bolsonaro e seus assessores andam tomando?

Chove, chuva

Um bom exemplo de como estão as coisas foi a visita de Bolsonaro ao Pantanal. O ministro-chefe da Secretaria de Governo, general Luiz Ramos, que deixou o comando militar do Sudeste ao ser chamado para o Governo, foi iluminado pela Verdade: Bolsonaro visitou a região no dia 18, no dia 19 choveu. “Deus está com nosso Pres”, disse no twitter, “e continuará a abençoar o Brasil, em que pese todas as campanhas contra esse governo!”

Sou caipira. Sei que nos meses com “r” é mais provável que chova, nos meses sem “r” é mais provável que não chova. Estamos em setembro, que tem “r”. O general não tem nada de caipira: é carioca. Mas bem que podia saber, como general, que chover em setembro não é milagre, já que é época de chuva. Milagre seria se do céu viesse o maná, alimentando os mais pobres.

O tempo voa

Luciano Huck finalmente assumiu (mais ou menos). Embora não o tenha dito diretamente, quando lhe perguntaram se participaria da eleição de 2022, respondeu: “Estou aqui”. Huck participava da reunião do Cops, Conselho Político e Social da Associação Comercial de São Paulo. Mas sua ambição no momento, disse, é “mobilizar, liderar e fomentar uma geração”, de tal maneira que pessoas mais qualificadas e interessadas entrem na política. Seu país dos sonhos é o que consiga o desenvolvimento sustentável, uma nação agroindustrial verde. A seu ver, esse objetivo já atrai investimentos.

Guerra à cultura

O cineasta sudanês Hajooj Kuka e quatro outros artistas foram presos no Sudão, por “causar incômodo público”. Kuka é membro da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas e seu trabalho é internacionalmente elogiado. O Festival de Berlim (Berlinale) pediu ao Sudão que liberte os artistas. Kuka nasceu no Sudão, estudou no Líbano e nos EUA; mora no Sudão. Seu filme “Beats of the Antonov” sobre guerra, música e a resiliência do povo do Nilo Azul e das Montanhas Nuba ganhou o People’s Choice Award no Festival de Toronto em 2014, mais seis outros prêmios em festivais. Seu primeiro filme narrativo de longa metragem, AKasha, foi financiado pelo Fundo de Cinema da Berlinale e participou do Festival de Veneza de 2018. Em 20 anos, foi o primeiro filme a ser feito no Sudão.

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​Mas a festa continua

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Na época em que o Macaco Tião, chimpanzé nascido e alojado no Zoológico carioca, fez sucesso como candidato no Rio, um dos seus slogans era ótimo: “Vote no Macaco Tião. O único que já vem preso”.

Pois o Macaco Tião, 14 anos após sua morte, 32 anos após ser candidato, acaba de perder a exclusividade: Cristiane Brasil, presa preventivamente, foi aprovada como candidata do PTB à Prefeitura carioca. Mesmo se acontecer uma condenação, diz o partido, ela continua candidata, já que a Lei da Ficha Limpa só a atingiria se fosse condenada em segunda instância. Cristiane é acusada de participar do núcleo político de uma organização especializada em fraudar licitações entre 2013 e 2017. Já teve problemas anteriores, por outras acusações. Em 2018, foi escolhida ministra pelo presidente Michel Temer, que retribuía o apoio de seu pai, Roberto Jefferson, supremo cacique do PTB, mas sua posse foi vetada pela Justiça.

Cristiane Brasil pode ser eleita para a Prefeitura? Não está entre as favoritas. Mas Wilson Witzel também não estava entre os favoritos e ganhou a eleição para governador. Além disso, o eleitorado do Rio tem caprichado nas eleições: dos ex-governadores do Rio, cinco foram presos (sendo que um, Sérgio Cabral, continua na cadeia), e outro, Wilson Witzel, foi afastado, com risco real de impeachment e acusações que podem levá-lo a processo penal. Cristiane Brasil pode ser eleita para a Prefeitura, por que não?

Três vezes cloroquina

Está tudo documentado no processo do Tribunal de Contas da União: em dois meses, o grupo Sul Minas multiplicou quase por três o preço dos ingredientes vendidos ao Laboratório Químico do Exército para produzir cloroquina. Em março, o difosato de cloroquina custou ao Exército R$ 488 o quilo. Em maio, o preço atingiu R$ 1.300 o quilo. Os vendedores explicam: dizem que o IPCA, fabricante do produto, elevou os preços em 300% em março e 600% em abril. Dizem também que o frete internacional subiu 300% e o Real caiu 45%. Restam, claro, duas perguntas: se a compra é grande (e o presidente Bolsonaro determinou a produção de 1,75 milhão de comprimidos de 150 mg), por que comprar de importadores e não do fabricante? E para que tanta cloroquina, se o próprio presidente Bolsonaro comemorou a doação de dois milhões de comprimidos dos Estados Unidos para o Brasil?

Bolsonaro, Lula e Moro

A pesquisa de agora é do PoderData: se a eleição fosse hoje, Bolsonaro iria para o segundo turno, com previsão de alcançar 41% de votos. Dois de seus adversários possíveis empatariam com ele: Lula (também 41%) e Sérgio Moro (40% a 37%, empate técnico – na última pesquisa, ambos tinham 41%). Os demais, ele venceria: Fernando Haddad, 42% a 34%; Ciro Gomes, com 15 pontos percentuais de diferença; João Dória, 13 pontos de diferença.

Validade

Só que as pesquisas valem para agora, não para daqui a dois anos. Em 1992, o senador Fernando Henrique me disse que temia não se eleger nem deputado federal nas eleições seguintes. Pensava em voltar à Universidade. Dois anos depois, foi eleito presidente no primeiro turno. Marconi Perillo, o grande cacique goiano, várias vezes governador, tinha certeza de se eleger senador, ainda mais que havia duas vagas. Ficou em quarto lugar, sem cargo, e nas eleições municipais do mês que vem nem tem candidato em Goiânia.

Citando Magalhães Pinto, “eleição e mineração só depois da apuração”.

Fogueira das vaidades

A política de meio-ambiente de Bolsonaro, na opinião deste colunista, é uma tragédia. Pior do que ela só as declarações oficiais sobre florestas, água, índios, incêndios – que frequentemente contradizem as informações dadas por órgãos sérios e bem equipados do próprio Governo. Mas, convenhamos, o incêndio no Pantanal nada tem a ver com as ações de Bolsonaro. Há fogo também na Bolívia, onde o presidente não é ele. Na repressão à derrubada ilegal da floresta, seu Governo falha (e deixa à vontade ocupantes ilegais que põem fogo na mata). Quanto aos governos europeus, é mais fácil dificultar o acesso do agronegócio brasileiro a seus mercados do que buscar eficiência na produção. Não há santos nesta área. Mas que é burrice deixar autoridades oficiais falar o que falam para dar argumentos ao adversário, isso é.

Chineses fazendo casas

A construtora Brosz, de Paulínia, SP, chamou a atenção de um grupo de investidores chineses, interessado no mercado imobiliário. A Brosz trabalha com construção a seco, quase industrializada: perfis de aço, paredes externas de placas de cimento ou polietileno expandido encaixadas nos perfis, paredes internas de gesso – algo semelhante às casas americanas ou canadenses, em que o aço dá a estrutura e as paredes são leves. No Brasil, utiliza-se muito o perfil metálico, mas com tijolos, o que exige mais trabalho manual e preparo local de argamassa. O custo pode cair muito, o que interessou os chineses.

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​A nova forma da nuvem

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Um velho sábio mineiro, o ex-governador Magalhães Pinto, comparava a política a uma nuvem: você olha está de um jeito, no minuto seguinte olha de novo e está de outro jeito. Mas a nuvem não se mexe sozinha: depende do humor do clima, depende da direção dos ventos. Hoje os ventos sopram para o lado de Bolsonaro. Aliando-se ao Centrão, conseguiu valiosa estabilidade; mantendo-se mais quieto, reduziu intensidade e frequência das crises. Os R$ 600,00 mensais do coronavoucher multiplicaram sua popularidade.

Pode mudar? Pode. Pode piorar para ele? Pode. Mas pode melhorar. Até 2022 falta muito tempo. Até lá, as boas pesquisas vão mostrando a posição de cada candidato. A pesquisa XP-Ipespe de agora é clara: pela primeira vez desde maio de 2019, a aprovação ao presidente (39%) supera a reprovação (36%). Detalhe: a XP não tem como objetivo influir na eleição. Quer saber a tendência do eleitor para desempenhar sua função, orientar investidores. E este é o quinto levantamento consecutivo em que aumenta a aprovação ao Governo e se reduz a reprovação. Reduz-se também o apoio a um possível candidato que já foi quase unanimidade: a dada a Sérgio Moro pelos eleitores caiu de 6,5 para 5,7; a de Bolsonaro subiu de 4,7 para 5,1. Moro é apontado, em geral, como o maior adversário de Bolsonaro num segundo turno.

Ainda em favor de Bolsonaro: 60% acham que o pior da pandemia já passou (antes, eram 52%). O temor é inimigo de quem está no comando.

O mundo gira

Mas nuvem muda para um lado e para outro. Quem se acostumou com o auxílio-emergência de R$ 600,00 não vai gostar da redução para R$ 300,00. Vai gostar menos ainda da redução do benefício a zero, em janeiro. Pode ser que a Renda Brasil atinja R$ 300,00 e mantenha a renda dos mais pobres. Mas, embora superior à Bolsa-Família e com mais beneficiários, terá um cenário em que muitos se endividaram para ampliar suas casas e ainda têm de terminar as obras. O auxílio-emergencial teve ótimos efeitos, e não apenas mantendo alimentados os mais carentes. Manteve gente trabalhando, em especial na construção civil. Deu impulso a comércio e indústria dedicados ao setor, produzindo e vendendo tijolos, por exemplo. Mas acontecerá se faltarem alimentos nas prateleiras, ou só aparecerem a preços elevados?

Para lá, para cá

Em parte, a alta do arroz e do óleo se deve aos bons efeitos do auxílio-emergência: muita gente manteve o consumo, apesar da falta de emprego, e  muita gente passou a comer melhor. Junte-se isso à exportação e o preço subiu. A saída é óbvia, tanto do ponto de vista eleitoral de Bolsonaro quanto da economia do país e da saúde da população: é produzir mais e formar estoques reguladores, para manter o consumo sem elevar preços. O agronegócio sabe aumentar a produção. É parte da solução, não do problema.

Como pagar?

Só que a Renda Brasil, uma ótima ideia, tem custo. Bolsonaro, numa de suas raras frases a ter apoio de todos, disse que não vai tirar dos pobres para dar aos paupérrimos. E de onde vai tirar? Do Judiciário, já se definiu que não; do Legislativo, também não; do Executivo (o Poder que paga pior) sai alguma coisa – mas sem mexer em gente fardada. Bancos, privatizações, só no dia em que o Queiroz responder àquela pergunta.  Bolsonaro vetou a lei que perdoava dívidas de igrejas, mas já disse que se fosse deputado votaria para derrubar o veto e manter o dinheiro fora do Tesouro.

Como não pagar

A melhor forma de evitar impostos é a forma legal: é barata e se estende à família. O jornalista Helio Schwartsman, da Folha de S.Paulo, fez o teste: com ajuda de advogados do jornal, R$ 420,00 e cinco dias de trabalho, abriu a Igreja Heliocêntrica do Sagrado Evangélio. Com esse tempo e dinheiro, tornou-se imune a todos os impostos sobre patrimônio, renda ou serviços ligados a suas atividades. Pôde ainda designar seus sacerdotes, também isentos de impostos, livres do serviço militar, com direito a prisão especial. Como o objetivo era só fazer a reportagem, fechou a igreja. Mas quem não quiser pagar imposto nenhum estará abrigado pela lei brasileira.

Comporte-se

O tribunal do Cade, Conselho Administrativo de Defesa Econômica, recebeu anteontem processo administrativo aberto em 2019 contra a Rumo, operadora de trens, com recomendação de condenar a empresa e multá-la por infração à ordem econômica. A empresa foi denunciada em 2016 pela Agrovia, especializada em transporte de açúcar, por criar dificuldades às concorrentes que dependiam do uso (pago) de seu monopólio dos trilhos.

A Rumo é uma das empresas que mais se beneficiarão do redesenho do Porto de Santos. Os navios que trazem insumos e recebem produtos de empresas do mesmo grupo econômico carregarão e descarregarão na ponta de seus trilhos, sem mais investimentos. Os concorrentes, que recorram à Justiça.

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​As aparências enganam

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São duas notícias boas, são duas notícias ruins.

As duas boas: apesar das pressões sobre a Lava Jato, apesar – chamemos as coisas pelo nome – da queda de Deltan Dallagnol, a Polícia Federal, com ordem judicial, promoveu gigantesca operação de busca e apreensão, tendo como alvos 74 escritórios e pessoas, incluindo filhos de importantes juízes e ex-juízes, empresas de porte, advogados de primeiro time; e a operação foi apartidária, atingindo gente de múltiplos setores políticos, de Lula a Bolsonaro, passando por áreas como a de Sérgio Cabral e chegando bem perto de Queiroz e do senador Flávio, o filho 01 do presidente. 

As duas ruins: aparentemente, houve buscas e apreensões com base só numa delação premiada, uma denúncia que pode ou não ser verdadeira (já se disse que houve casos em que o candidato a delator se sentiu pressionado a revelar algo contra alguém em especial); em resumo, pode ter ocorrido o lançamento de uma rede ao mar, para tentar pescar algo sem ninguém se dar ao trabalho de investigações preliminares. Segundo, algo de extremo perigo, a violação de inúmeros escritórios de advocacia. As invasões de escritórios de advocacia não ocorreram nem durante a ditadura militar, com ministros da Justiça como Gama e Silva e Alfredo Buzaid, que eram ditatoriais mas entendiam de Direito. Comunicações entre advogados e clientes são, por lei, sigilosas. Uma operação dessas abre as comunicações, rompe o sigilo legal.

E dai?

Digamos que o caro leitor queira se separar e tenha pedido ao advogado um cálculo da divisão dos bens do casal e da pensão que terá de receber ou pagar. Uma operação causada por suspeita de propina em que esteja envolvido outro cliente romperá o sigilo do caso do caro leitor. Diz a lei que documentos não relacionados com o caso que motivou a busca serão devolvidos, com o sigilo preservado. A quantidade de casos em segredo de justiça que caem nas mãos da imprensa (“documentos a que este jornal teve acesso...”) mostra a fragilidade das garantias. Vamos mais longe? Imaginemos um casal que consulta o advogado por ser vítima de extorsão.

Como agir?

Quem inaugurou as buscas e apreensões em escritórios de advocacia foi o ministro da Justiça de Lula, Márcio Thomaz Bastos. Foi criticadíssimo por isso. Mas mesmo ele, que criou a moda, achava que a medida exigia cuidado extremo. Assim de baciada, de baleia a lambari, nem Márcio ousou propor.

Palpites

Com mais de 70 alvos, com certeza haverá descobertas interessantes. Já no mesmo dia das buscas, anunciava-se que tinham sido achados R$ 100 mil em dinheiro vivo e um cheque de R$ 700 mil no escritório de Eduardo Martins. Seu pai, ministro Humberto Martins, assumiu há duas semanas a presidência do Superior Tribunal de Justiça, STJ. Não é proibido ter dinheiro e cheques em casa, desde que com origem legítima; mas não é comum. Caso o dinheiro seja irregular, pode haver processo. E, no caso, se for comprovado que a origem da busca e apreensão foi apenas uma delação, abre-se campo para que todo o processo seja contestado e, eventualmente, até anulado.

Em baixa

De acordo com as últimas pesquisas, o juiz Sérgio Moro é um candidato forte à Presidência: se as eleições fossem hoje, estaria em condições de, no segundo turno, desafiar o presidente Bolsonaro. Isso significa que, hoje, a Lava Jato tem bom número de adeptos. Mas está em baixa política, e pelos mais diversos motivos: o maior deles é que tanto Lula quanto Bolsonaro não querem saber de Moro, nem querem a Lava Jato por perto. Parlamentares se proclamam lavajatistas e defendem o início do cumprimento da pena após a condenação em segunda instância. Proclamam-se; mas não são. Ninguém quer correr o risco de tomar uma denúncia e iniciar o cumprimento da pena sem esgotar todos os recursos possíveis, e mais alguns. Muita gente sabe o que fez no verão passado e prefere processos demorados, embora diga que quer abolir as longas tramitações. Fora Bolsonaro e Lula, fora boa parte dos parlamentares, nenhum ministro do STF esqueceu a ideia da Lava Toga. Se todos os que se dizem defensores da Lava Jato a defendessem, Moro ainda seria o ministro da Justiça e a segunda instância já seria o final dos processos.

Levantando a bola

É maldade dizer que o ministro do Meio-Ambiente não percebeu que, no vídeo segundo o qual a Amazônia não está queimando, desmente-se um órgão oficial, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, que apontou quase 30 mil focos de calor na área amazônica só no mês passado – um número espantoso. É maldade dizer que Sua Excelência não percebeu que, no bucólico vídeo a respeito da Amazônia, a calma floresta que aparece é a Mata Atlântica, bem distante, com mico-leão dourado e tudo. Não pense que o ministro quis nos iludir. É que não deve saber a diferença entre uma e outra.

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​Dinheiro entra, dinheiro sai

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Os R$ 600,00 de ajuda de emergência já caíram para R$ 300,00; não havia possibilidade de manter os R$ 600,00 sem estourar o caixa do Governo. Mas quem já se havia acostumado com R$ 600,00 vai gostar bem menos dos R$ 300,00. E, ao mesmo tempo em que a ajuda cai pela metade, as despesas sobem muito: arroz, feijão, milho e trigo subiram dramaticamente. O arroz de primeira qualidade, que era vendido por pouco mais de R$ 15,00 o pacote de cinco quilos, já não é encontrado por menos de R$ 20,00. E, conforme o local, já atinge os R$ 40,00. Os preços não subiram por maldade de ninguém: com a alta do dólar, os produtos brasileiros de exportação ficaram bem mais baratos, e sobrou pouco para o mercado interno. Traduzindo, preço mais alto.

E que é que o Governo pode fazer? A ministra da Agricultura, Tereza Cristina, que vem fazendo bom trabalho, diz que o arroz subiu mas vai baixar. Como? “No ano que vem, se Deus quiser, teremos uma supersafra”. Ótimo: e até lá, seguindo sua infeliz frase do ano passado, as famílias mais carentes vão comer mangas? O presidente Bolsonaro fez um apelo para que os comerciantes sejam patriotas e reduzam sua margem de lucro, chegando o mais próximo possível do zero, para manter os preços acessíveis. É isso aí!

Sarney, que chegou a ser popularíssimo na época do Plano Cruzado, não convenceu ninguém a tomar prejuízo em nome do patriotismo. Pode ser que hoje haja patriotas mais convictos, por que não? Tudo em nome do Mito.

Por que parou?

O fato é que houve Plano Cruzado, Plano Bresser, Plano Sarney, mas os preços sempre subiram de aeroplano. Só conhecemos a estabilidade com o Plano Real, o controle de gastos, a convicção de que os preços são formados pelo mercado e não pelo patriotismo ou por safras do ano seguinte. Nem medo controla preços: basta lembrar que no Cruzado a Polícia Federal caçou bois no pasto e nem assim eles chegaram ao açougue no preço previsto.

Comandante fresquinho

Em Penedo, Alagoas, o dono da lanchonete Mr. Burg foi preso pela PM por batizar seus sanduíches com nome de patentes militares. O comandante da PM considerou que o batismo era uma ofensa à corporação. Alberto Lira, 38 anos, dono da lanchonete, disse que era uma estratégia de marketing. Mas o delegado de plantão decidiu que não havia motivo para prisão e soltou-o. Ponto final? Não: Lira insiste em manter o nome que deu aos sanduíches - o “coronel” é filé com presunto; o “comandante”, calabresa frita; e assim por diante, quanto menor a patente mais barato é o sanduíche - e o comandante da PM continua irritado. Por via das dúvidas, o advogado Francisco Guerra pediu habeas corpus preventivo, para evitar nova prisão; e prepara denúncia por abuso de autoridade contra o comandante da PM. Deve entrar também com ação de danos morais contra o Estado de Alagoas. Um dos argumentos que utiliza: não há lei que impeça a casa de ter no cardápio lula a milanesa, ou filé a cavalo, ou coronel mal passado. E, afinal de contas, se a tese do comandante da PM fosse válida, festa de criança não poderia ter brigadeiro.

Nada na mão

A Real JG Serviços Gerais ganhou a licitação do Superior Tribunal de Justiça para fornecer ascensoristas por dois anos, cobrando $ 3.002,721,80. Os ministros estão liberados por mais algum tempo daquela tarefa horrorosa, cansativa, humilhante, de apertar o botão do elevador para ir a seu andar.

É vendaval

Mas os elevadores do STJ são até baratos. A Câmara dos Deputados, há um mês, assinou o quarto termo aditivo do contrato para prestação de serviço de ascensoristas. De 2014 até o mês que vem, poupar Suas Excelências do nefando trabalho de apertar o botão do elevador custou R$ 14 milhões. Uns dois milhões de reais por ano, quantia ínfima para garantir que os deputados cheguem a seus gabinetes com toda a energia, sem tê-la gasto no elevador.

Um político sincero

José Maria Monção, PTB, por três vezes prefeito de Cocal, no Piauí, disse neste domingo, durante a convenção municipal do aliado MDB, que Rubens Vieira, do PSDB, candidato à reeleição, “está afundando o Cocal”. Frase completa: “Fui prefeito três vezes, sei do sofrimento. Mas também não roubei o tanto que esse aí roubou, não. Esse é descarado. Eu posso até ter tirado alguma coisa, dado para os pobres. Na verdade, ninguém pode ser tão sincero. Se eu tivesse tanto direito, eu não tinha ido preso, né? Se eu fui preso, tem um motivo. Tem político que rouba, mas rouba pra dar pro povo. Esse daí (o adversário Rubens Vieira) não, roubou pra ele”. O senador Ciro Nogueira (PP) morreu de rir. Vieira se disse vítima de um discurso de ódio.

Templo é dinheiro

O presidente Bolsonaro decide, até depois de amanhã, se veta ou sanciona o perdão das dívidas das igrejas, principalmente evangélicas, com o Fisco. É algo como R$ 1 bilhão. O autor da lei é filho do missionário R. R. Soares.

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​É ruim, mas poderia ser pior

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A proposta de reforma administrativa do Governo está posta: é uma ótima notícia. A reforma não é lá nenhuma Brastemp, mas se continuasse na gaveta dos burocratas estaríamos pior ainda. Pelo menos já se sabe o que o Governo pensa e há um desenho, embora tosco, a ser aperfeiçoado pelo Congresso.

O ponto mais criticado, a falta de efeito imediato da reforma, só merece elogios. A reforma atingirá apenas servidores contratados depois que entrar em vigência, evitando longas discussões sobre direitos adquiridos. Caso Fernando Henrique tivesse feito isso com a reforma da Previdência, em vez de querer que vigorasse em prazo curto, já estaríamos colhendo seus frutos.

O principal defeito do projeto é atingir apenas uma parte dos servidores, exatamente a que tem pior remuneração. E não são tantos: algo como 600 mil, num total de quase 12 milhões de assalariados do setor público, sejam federais, estaduais ou municipais. Militares, procuradores, parlamentares, juízes estão fora. A explicação é óbvia: caso sejam prejudicados, os parlamentares votam contra, os juízes podem tender a dar ganho de causa a quem tiver a mesma queixa que eles, os procuradores talvez tenham má percepção da reforma. E sempre é saudável estar de bem com os militares.  

Mas é para sanar esses problemas que existem as conversações, ajustes, negociações políticas. Se o Governo não tiver articulação no Congresso, não passa nada. E quem negocia pelo Governo? Generais? O irritadiço Guedes?

Próximos passos

Bolsonaro acredita que a reforma será aprovada neste ano. É difícil, mas não impossível. Depois da aprovação, há que enviar e aprovar projetos de lei que alterem a estrutura dos salários e cargos, as relações de trabalho, a regulamentação da reforma, para que se possa enfim aplicá-la. É coisa para uns três anos, se tudo correr bem, se não houver crises internas no Governo ou brigas com o Congresso. Mas não faz mal que demore: importa é que haja alternativa ao atual caminho, em que o custo do funcionalismo aumenta ano a ano e, somado às despesas obrigatórias, deixa o Governo sem verba para investir. Sem investimento, não há crescimento nem emprego.

Apagando o pavio

Resumindo, com todas as falhas que especialistas apontam, é o caminho a seguir. Deixar tudo como está significa que a bomba fiscal vai explodir a qualquer momento: dos 27 Estados, em 25 o salário do funcionalismo ultrapassa 60% da receita. No Rio Grande do Norte, em Tocantins e Minas Gerais, ultrapassa 90% da receita. Pela Lei de Responsabilidade Fiscal, já não podem aumentar a despesa com servidores. Salários congelados, pois.

O sobe-e-desce

A oposição deu a rasteira em Bolsonaro: colocou a ajuda de emergência em R$ 600,00 mensais, sabendo que o Governo não teria como sustentar a despesa. Bolsonaro não teve saída: pagou. E viu sua popularidade, que havia desabado, subir até torná-lo em líder das pesquisas. Cresceu até no Nordeste, reduto do PT. Seria o vencedor do primeiro turno; no segundo só Sérgio Moro poderia enfrentá-lo, isso se conseguisse sustentar seus níveis até a eleição. Bolsonaro se entusiasmou e desandou a viajar. Fez sete viagens ao Nordeste entre abril e agosto. Nesta quinta, variou: foi com ministros e parlamentares a Tapiraí, SP, 1.800 habitantes, para lançar a pedra fundamental de uma ponte. Espera-se que a ponte seja mesmo construída.

Resultado? Ruim. Bolsonaro perdeu pontos no Nordeste, embora tenha se mantido com resultado positivo nacional: o Governo é aprovado por 51%, contra 41% que o desaprovam. No Nordeste, foi de 48% para 40% nas duas semanas em que viajou para lá. A desaprovação nordestina ficou em 50%.

Retrato de hoje

Que é que esses números significam? Nada! A mais de dois anos das eleições presidenciais, não há pesquisa que desvende o futuro. Na véspera das eleições americanas de 1948, o mais conceituado instituto de pesquisas dos EUA indicou a vitória do republicano Thomas Dewey. O jornal Chicago Tribune publicou a manchete “Dewey Presidente”. Terminada a apuração, o candidato eleito Harry S. Truman posou para fotos com o jornal nas mãos. Neste momento, a pesquisa indica à equipe de cada candidato como é que sua atuação vem sendo vista pela opinião pública. Nada mais do que isso.

Boa notícia

Uma antiga usina paulistana, a Usina Elevatória da Traição, inaugurada em 1940, foi privatizada nesta semana. A concessão foi ganha pelo consórcio Usina São Paulo por R$ 280 milhões, com ágio de 1.900%. A Usina da Traição, conforme o nível de água do rio Pinheiros, reverte seu curso, para evitar enchentes, e o joga na represa Billings. A concessão faz parte do projeto de despoluição do rio e criação de espaços de lazer na região.

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​Tem reforma, mas sem reformar

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Recordar é viver, cantava Gilberto Alves no Carnaval de 1955. E quem é que recorda os autores da marchinha, derivada de uma valsa vienense?

Recordar pode ser sofrer. Paulo Guedes, o Posto Ipiranga, superministro da Economia, fazia promessas: zerar o déficit público no primeiro ano, tocar as privatizações, reformar a Previdência, reformar e simplificar impostos, reformar a Administração, atrair investimentos. Bolsonaro dizia que Guedes, com ideias novas, seria o chefe supremo da Economia. Guedes acreditou.

A pandemia atrapalhou? Sim: mas a pandemia começou mais de um ano após a posse, quando o Posto Ipiranga já era Imposto Ipiranga. A reforma da Previdência que passou não era a dele, mas a do Congresso, e quem tocou a aprovação não foi ele, mas Rodrigo Maia. Privatizações, bem – deixa pra lá. A reforma tributária mais provável – se houver – não é a de sua equipe, mas a do deputado Baleia Rossi, do MDB, coordenada pelo economista Bernard Appy. Ideias novas? Guedes trouxe a CPMF – tão nova que já foi aplicada, de 1997 a 2007, e não deu certo. Quanto à Reforma Administrativa, Bolsonaro guardou-a carinhosamente num arquivo. A promessa agora é do próprio Bolsonaro: enviará a reforma administrativa ao Congresso no dia 3, amanhã. Mas fez outra promessa, junto: “Que fique bem claro: não atingirá nenhum dos atuais servidores”. Depois que todos os atuais servidores se aposentarem, aí teremos uma administração mais eficiente. É só esperar.

Quem é quem

Os autores de Recordar é Viver são Aldacir Louro, Aluizio Marins e Adolfo Macedo. Quem decidiu desistir da luta pelas reformas foram alguns dos principais assessores de Guedes – que classificou as demissões de “debandada”. E quem disse claramente que as reformas não andam foi o próprio Guedes: “Eu, se pudesse, privatizava todas as estatais. Mas, para privatizar todas, tem de privatizar primeiro duas ou três. E nós não conseguimos privatizar duas ou três. É preocupante.”

As crises

A aprovação a Bolsonaro cresceu, as pesquisas mostram que, hoje, Sérgio Moro seria seu único rival sério no segundo turno, mas o clima no Governo continua tumultuado. Há crises em andamento, em vários setores:

*O vice-presidente, general Hamílton Mourão, não concorda com a tese de que os militares que participam do Governo recebam mais do que o teto constitucional de salários, perto de R$ 40 mil mensais, juntando vencimentos das Forças Armadas e dos cargos que ocupam. “É uma questão ética e moral. Sou contra, no momento que estamos vivendo. Se a situação fosse normal, o país com recursos sobrando, tudo bem. Não é o que está acontecendo”. Mas é o que o Ministério da Defesa sustenta. Quer somar os salários, e pronto.

*O ministro do Meio-Ambiente, Ricardo Salles, diante do corte de verbas, anunciou que seriam suspensos o combate ao desmatamento na Amazônia e aos incêndios no Pantanal. O Governo devolveu logo as verbas – mas dificilmente terá engolido o desafio. Não será surpresa se os militantes do Gabinete do Ódio começarem a divulgar ataques a Salles, como se já tivesse entrado no Governo para trair Bolsonaro. O general Mourão, responsável pela área amazônica, foi um dos que não gostaram da reação de Salles: acha que o ministro deveria ter conversado antes com ele, para que as verbas voltassem sem turbulência. Mas turbulência já houve – e agora?

*O ministro da Infraestrutura, Tarcísio Gomes de Freitas, está jogando abertamente no time do desenvolvimento com investimentos estatais (tem apoio do ministro do Desenvolvimento Regional, Rogério Marinho). Paulo Guedes, liberal, é contra. Onde irão buscar os recursos para investir? Tarcísio e Marinho têm apoio do general Braga Netto e acham que o projeto é um novo Plano Marshall. Guedes não reage, quer ficar ministro. Mas não gosta. E sabe que o Plano Marshall funcionou porque os EUA investiram nele.

Boa notícia

As ações da Polícia Federal contra o PCC, Primeiro Comando da Capital, maior esquema do crime organizado no país, já localizaram R$ 500 milhões, que podem ser bloqueados, mais carros, mansões e empresas ligadas a eles. É o maior golpe já sofrido pelo grupo, e o primeiro a atingir diretamente os recursos financeiros e empresariais que turbinam suas atividades.

Má notícia

De acordo com a Constituição, Título 8 (Da Ordem Social), Capítulo 5 (Da Comunicação Social), artigo 220, “a manifestação do pensamento, a criação, a expressão e a informação, sob qualquer forma, processo ou veículo, não sofrerão qualquer restrição, observado o disposto nesta Constituição”. Isso na teoria. Na prática: o jornal digital GGN, editado pelo jornalista Luís Nassif, foi censurado. Foi obrigado, sob pena de multa diária de R$ 10 mil, a retirar matérias sobre a venda ao Banco BTG Pactual de carteiras de crédito do Banco do Brasil. Vão dar outro nome, mas é censura. 

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​Crônica de uma crise anunciada

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Bolsonaro, bastou subir nas pesquisas, voltou a falar. Péssima ideia: para ofender o jornalista que quis saber por que o casal Queiroz depositou R$ 89 mil na conta de Michelle Bolsonaro, disse que o coronavírus é mais perigoso para os bundões. Ofendeu parentes e amigos de 120 mil mortos pelo Covid.

Mas a crise anunciada é muito pior do que sua renúncia à boa educação. A crise tem duas vertentes: uma, a que o levou a falar, as dúvidas despertadas pelas ações de Queiroz, do advogado Wassef (que pagou mais de R$ 10 mil ao urologista de Queiroz) que o representava e a seu filho Flávio; e à fritura de Paulo Guedes, mais uma vez deixado de lado.

A crise Paulo Guedes (veja as próximas notas) talvez seja só fumaça: ele já mostrou mais de uma vez que está disposto a engolir muito sapo desde que fique no cargo – e, se sair, o máximo que terá de solidariedade serão frases do tipo “coitado, ele não tem culpa nenhuma! Ele não fez nada!” Mas a outra crise, pela reação que causou no presidente, tem potencial para machucá-lo.

Lembrando: quando foram descobertos os primeiros depósitos de Queiroz na conta de Michelle Bolsonaro, o presidente disse que eram a devolução de um empréstimo de R$ 40 mil que ele havia feito ao amigo. Não há registro de depósito de Bolsonaro na conta de Queiroz. Há as suspeitas de rachadinha sobre Flávio, há os inquéritos do STF sobre notícias falsas que passam pelo Gabinete do Ódio (no Planalto, pertinho do gabinete presidencial). Há mais.

Formação de família

Com Ana Cristina, Bolsonaro teve boa evolução patrimonial. O casal comprou 14 apartamentos, terrenos e casas, cinco dos quais em dinheiro vivo, o que é legal, mas incomum. Um lote, comprado por R$ 160 mil, foi vendido por ela cinco anos depois, por pouco menos de R$ 2 milhões (na época, já estava separada). O argumento de que o Governo petista roubou muito mais não tem valor: ilegalidade não tem piso a partir do qual passa a ser punível. Claro, sempre é possível que tudo seja explicado, mas ameaçar encher de porradas a boca do repórter que fez a pergunta nada explica.

Na frigideira

O ministro Paulo Guedes deveria ter apresentado ontem o que chamou de Big Bang, seu projeto de retomada econômica pós-pandemia que envolveria o Renda Brasil – uma espécie de Bolsa Família melhorada e ampliada. Mas não apresentou: Bolsonaro não gostou do Renda Brasil, achou R$ 247,00 pouco (embora bem mais do que a média de R$ 191,00 do Bolsa Família) e pediu a reformulação do projeto, para torná-lo mais compreensível e simples.

Em compensação, houve a triunfal apresentação do programa Casa Verde e Amarela, pelo ministro do Desenvolvimento Regional, Rogério Marinho, que prevê a construção de 350 mil habitações populares até 2024, junto a um plano de regularização de terrenos, reforma de moradias em mau estado, financiamento para ampliação de residências, tudo com juros mais baixos do que os do Minha Casa, Minha Vida e com estímulos específicos para Norte e Nordeste. Os juros dos empréstimos ainda não foram definidos. O Imposto Ipiranga Paulo Guedes, ministro da Economia, que segundo Bolsonaro seria o dono do pedaço, não apareceu. Disse que tinha outras reuniões a fazer.

Menos um

Não seria surpresa para esta coluna se um badalado ministro deixar seu posto, inesperadamente, e ganhar um bom cargo em Brasília ou no Exterior.

Bayern, campeão e antinazista

O meia Leon Goretzka e o lateral Joshua Kimmich, titulares do Bayern de Munique e vencedores da Champions League, doaram US$ 80 mil ao Museu de Auschwitz-Birkenau, na Polônia. Os campos de concentração de Auschwitz e Birkenau, explicam, fazem parte da história da Alemanha e da Polônia. “Todos temos o desafio de garantir que um dos capítulos mais sombrios da história humana não se repita. É importante para nós ajudar a garantir que a cultura da lembrança permaneça, mesmo na pandemia”. Ambos criaram a WeKick Corona, para ajudar a combater o coronavírus.

Bela atitude, compatível com a bela história do Bayern de Munique, que reagiu ao nazismo. Seu presidente, Kurt Landauer, e o técnico, Richard Kohn, eram judeus; caçados, exilaram-se na Suíça. O clube declarou que Landauer continuava presidente e que, embora seguindo as leis impostas pelo nazismo, discordava da ideologia. Num amistoso do Bayern na Suíça, Landauer estava na arquibancada. O time inteiro foi até lá para aplaudi-lo e só parou quando agentes nazistas os ameaçaram. O atleta olímpico Wilhelm Simetsreiter fez questão de tirar uma foto ao lado de Jesse Owens, negro que ousou derrotar os favoritos alemães. Os nazistas decidiram apreender os troféus de prata do Bayern. O capitão do time, Conrad Heidkamp, os escondeu e salvou. Após a guerra, Landauer voltou à Alemanha, foi eleito presidente do Bayern e ficou até 1951. Ainda agora, torcedores do Bayern homenagearam Fritz Landauer, que teve a coragem de resistir à ditadura.

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​Os amigos do presidente

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Na época da ditadura que dizem que não houve, contava-se esta piada: quem denunciasse um comunista ganharia um Fusca; quem denunciasse dois comunistas ganharia um Fusca e um apartamento; quem denunciasse três comunistas iria em cana, porque conhecia comunistas demais.

E como a família Bolsonaro conhece gente que tem problemas, digamos, éticos! É o Queiroz, são aqueles milicianos que têm foto com alguém da família, é aquela tropa de gente empregada em seus gabinetes parlamentares e que mora a horas e horas de distância, tendo ainda de ocupar parte de seu tempo em outros trabalhos remunerados! E esse tipo de amigos e conhecidos agora se internacionalizou: Steve Bannon, guru de Olavo de Carvalho, talvez o maior ideólogo do bolsonarismo, foi preso nos Estados Unidos. Problema político? Não: a acusação é mesmo a de ter enfiado a mão no pudim.

Bannon sentou-se ao lado de Bolsonaro no jantar da Embaixada brasileira em Washington (do outro lado, Olavo de Carvalho). Ali estavam sete ministros, inclusive o Imposto Ipiranga Paulo Guedes, mas Bannon era o astro. Já ídolo e amigo de Eduardo Bolsonaro, defendeu publicamente sua nomeação para embaixador do Brasil nos Estados Unidos. Eduardo o chamou de ícone da luta contra o marxismo cultural. Bannon o escolheu como seu representante no Brasil, chefiando a seção brasileira do Movimento, grupo empenhado em lutar internacionalmente contra o comunismo. Bannon foi guru de Trump, que o demitiu: nem ele o aguentou.

Deixa comigo

Bannon foi um dos criadores da ideia de separar Estados Unidos e México por um grande muro. Para ajudar a pagá-lo, promoveu grande campanha de doações; foi preso pela acusação de desviar boa parte das doações. Quanto? Não se sabe: mas, pelo tamanho da fiança que tem de pagar para defender-se em liberdade, dá para imaginar. São cinco milhões de dólares. Ele topou.

Diminuir aumenta

Lembra-se do compromisso de Paulo Guedes de privatizar rapidamente quatro grandes empresas? Pois é: para privatizar a Eletrobras, o Governo reserva, no Orçamento de 2021, R$ 4 bilhões para criar uma nova estatal, que ficaria com parte da operação da empresa a ser vendida. Algo, digamos, como jogar fora os documentos velhos para poupar espaço, mas não sem antes copiá-los para guardar. Quais as operações que não seriam vendidas com a Eletrobras (isso se a Eletrobrás for mesmo vendida)? As três usinas nucleares de Angra dos Reis (a terceira não foi concluída e está parada desde 2015) e a parte brasileira em Itaipu. Usinas nucleares da Europa e EUA são privadas. Mas Itaipu não tem jeito: não sendo estatal, como nomear gente com salário mensal de uns R$ 30 mil para ir a seis reuniões por ano?

A probabilidade e o risco

O Governo queria dar R$ 200,00 mensais para quem tivesse perdido sua fonte de renda na pandemia. O Congresso, para criar-lhe dificuldades, votou R$ 600,00. O objetivo era derrotá-lo, mas quem ganhou foi Bolsonaro, cuja popularidade voltou a crescer. A promessa do presidente, de manter a ajuda até o fim do ano, tem tudo para ser cumprida, e o dinheiro vai surgir. Só há um risco: Paulo Guedes prometeu enviar ao Congresso, na terça, o projeto da Renda Brasil, uma Bolsa Família ampliada e melhorada. Promessa de Guedes para depois de amanhã sabe-se lá quando chega. E, claro, se chegar.

Boa notícia

Em julho, foram criados no Brasil 131 mil empregos formais, daqueles de carteira assinada e tudo. Sim, é pouco. Mas não houve estagnação nem queda. E se interrompe uma terrível série de quatro meses em que só houve redução do número de empregos formais. Pode ser – vamos torcer- o início da retomada do nível de emprego, indicando alguma recuperação econômica.

Os censores

O ministro da Justiça, André Mendonça, pediu que seja aberto processo pela Lei de Segurança Nacional contra o jornalista Hélio Schwartsman, da Folha de S.Paulo, por ter dito, quando o presidente Bolsonaro foi contaminado pelo coronavírus, que torcia para que ele morresse. Detalhe: o jornalista não pediu a ninguém que o matasse, nem tomou qualquer medida para que isso ocorresse. Apenas manifestou sua opinião de que, morrendo o presidente, o Brasil ficaria melhor. Mendonça pediu o processo com base no artigo 26 da Lei de Segurança Nacional, que prevê pena de reclusão a quem

caluniar ou difamar o presidente da República, do Senado, da Câmara ou do Supremo, imputando-lhes fato definido como crime ou fato ofensivo à reputação. E em que momento Schwartsman caluniou ou difamou quem quer que seja? Não concordo com Schwartsman, acho impiedoso desejar a morte de alguém, mas ele tem direito a expressar sua opinião. Acho que Mendonça não deveria ser ministro, acho também que não deveria ser nomeado para o Supremo Tribunal Federal. Questão de opinião. Opinião é crime?

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