​Do tamanho de um cometa

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O famoso Queiroz, amigo de Bolsonaro, arrecadador da rachadinha no gabinete de Flávio Bolsonaro, disse aos poderosos que tomassem cuidado e procurassem ajudá-lo, pois o Ministério Público “tinha uma pica do tamanho de um cometa para enterrar na gente”. Bom, saiu uma medida em favor de Queiroz: por liminar do Superior Tribunal de Justiça, foi-lhe concedido o direito a prisão domiciliar. Sua mulher, foragida, também ganhou o direito à prisão domiciliar, para cuidar do marido. Mas os deuses, diziam os gregos, quando queriam destruir alguém, atendiam a seus desejos. O que Queiroz sabe, ou não, ainda não foi apurado; mas a crença geral é que sabe muito. Em casa, preso, com endereço conhecido, mais a tornozeleira informando o tempo todo onde está, Queiroz precisa de algo mais: uma vigilância armada, contínua, bem treinada. Não para impedi-lo de fugir, mas para garantir-lhe a vida. Quando prende alguém, o Estado assume responsabilidade pelo preso. E Queiroz, na condição presumida de arquivo vivo, corre risco efetivo, real. Arquivos são implacáveis, mas são também apagáveis.

O ex-PM Adriano, que foi colega de farda de Queiroz, era considerado também um arquivo vivo. Foi morto na Bahia e, entre as versões sobre o tiroteio em que morreu, está a de que não lhe foi dada a oportunidade de se render. É de se esperar que seja oferecida ampla proteção a Queiroz, seja ele culpado ou inocente. É horrível imaginar que, preso, estaria mais seguro.

Banho maria

Nenhuma das investigações até hoje realizadas no centro do poder chegou ao presidente Bolsonaro. Mas todas estão em áreas próximas a ele. A última chegou a poucos metros de seu gabinete: o Facebook, investigando as redes de desinformação em onze países, identificou no Brasil 88 contas, páginas e grupos que trabalhavam com identidade falsa em favor do atual Governo. Um dos alcançados trabalha com um dos filhos do presidente, Carluxo, o 02, no que se costuma chamar de Gabinete do Ódio. É Tércio Arnaud Queiroz, assessor especial da Presidência da República, colaborador antigo e fiel, que trabalha no Palácio do Planalto. Essas redes operam desde a campanha que levou Bolsonaro ao poder. E as informações levantadas pelo Face poderão ser solicitadas pelo Tribunal Superior Eleitoral, que investiga as acusações de que houve abuso de poder econômico na campanha eleitoral. Claro que esse tipo de pena depende mais da temperatura política do que do problema legal. Mas a lei diz que pode levar à cassação da chapa e a novas eleições.

É coisa nossa

Bolsonaro se irritou e defendeu, em live, os acusados de criar falsos perfis no Face. Disse que há uma onda de dizer que há assessores que recebem dinheiro público para promover o ódio. “Me apontem um texto meu de ódio ou dessas pessoas que estão do meu lado. Apontem uma imagem minha de ódio, no meu Facebook, dos meus filhos. Não tem nada”. Mas o Face não retirou as páginas pelo conteúdo, mas pela falsificação de perfis. O presidente tomou outra iniciativa: afastou os vice-líderes mais belicosos e trocou-os por parlamentares do Centrão, mais afeitos a acordos. Neste momento, acossado, Bolsonaro tende mais ao amor do que à guerra.

Pau a pau

É provável que tenha sido coincidência, e não ação combinada entre duas empresas do mesmo grupo, Facebook e WhatsApp. Mas, há poucos dias, o WhatsApp cancelou dez canais administrados pelo PT. Segundo a empresa, os bloqueios ocorreram devido ao envio de mensagens em massa ou operadas por robôs. Um dos canais é administrado pelo gabinete da presidente nacional do PT, deputada Gleisi Hoffmann. Outro é o grupo de divulgação oficial das notícias do partido, o Zap do PT. O partido, em nota, diz que não distribui mensagens em massa nem divulga desinformação. A deputada Gleisi Hoffmann diz que estuda as medidas judiciais cabíveis. O Zap do PT, de acordo com o partido, muda para o aplicativo Telegram.

Boa notícia 1

Enquanto o Governo brasileiro sofre pressão de investidores estrangeiros para cuidar do meio-ambiente, do desmatamento da Amazônia (que, diz o jornal francês Le Monde, bateu os recordes dos últimos onze anos) e para reduzir as emissões de carbono, a Advocacia Geral da União, AGU, obteve o bloqueio de R$ 570 milhões de bens de desmatadores da Amazônia. Este bloqueio serve para garantir a reparação de danos ambientais e o pagamento de indenizações por danos morais coletivos, em caso de condenação. Os recursos bloqueados são de seis desmatadores de Gaúcha do Norte, MT.

Boa notícia 2

A informação é da Serasa Experian: a busca de crédito cresceu 13,1% em maio, com relação ao mês anterior. É o primeiro aumento da série mensal em três meses, e atingiu todas as faixas de renda. Uma parte é renegociação de dívidas; mas há indicações de que parte é para a recuperação de consumo.

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​Agora é no gogó

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É entusiasmante ouvir o superministro Paulo Guedes, o Posto Ipiranga da Economia: disse à CNN (a propósito, é bom acompanhar a CNN: tem feito um belo trabalho, com a divulgação de notícias exclusivas) que “o Brasil já está saindo do buraco”, que as vendas para a China nos mantêm equilibrados, e que o Governo prepara quatro grandes privatizações no próximo trimestre.

É decepcionante acompanhar o destino de promessas anteriores. Há onze meses, Guedes apresentou lista de 17 estatais a ser vendidas de imediato. Há poucos dias, seu secretário especial de Desestatização, Salim Mattar, disse que o Governo quer privatizar ao menos doze estatais. Destas, seis estavam na lista do Posto Ipiranga, de empresas a vender imediatamente em 2019. E quando Mattar espera privatizá-las? Em 2021. Isso se não houver problemas. A julgar pela propaganda oficial, talvez haja: diz a propaganda que em 2015, final do Governo Dilma, as estatais davam enorme prejuízo, e agora, com um ano e pouco de Bolsonaro, dão bilhões de lucro. A propósito, não podemos esquecer o Plano Marshall (ou PAC 2) oficialmente anunciado: por sua concepção, vai precisar de estatais para tomar conta dele. E há ainda a aproximação do Governo Bolsonaro com o Centrão: o presidente precisa dos parlamentares para manter-se no cargo, e os parlamentares precisam de cargos para reeleger-se. Estatais, pois. Prometer é fácil – tanto que Guedes, confiante na falta de memória, promete a mesma coisa várias vezes.

Como diria Tite...

Por falar em prometer, Guedes prometeu, em vídeo, que a aprovação da reforma tributária ocorrerá neste ano. Disse que o projeto está pronto para enviar ao Congresso e espera vê-lo aprovado em 90 dias. Mas o próprio Posto Ipiranga mostra que isso será muito difícil: gostaria, por exemplo, de propor um Imposto sobre Valor Agregado (IVA) de 10 ou 11%, mas para isso precisaria ter a “tributação digital” (imposto sobre movimentação bancária), “e infelizmente o Congresso interditou esse debate”. No Congresso, diz, há propostas de IVA de até 30%, que, a seu ver, “quebra o comércio e o setor de serviços”. Como se vê, um debate difícil (e longo). Bolsonaro já disse que é contra a tal “tributação digital”, identificadíssima com a velha CPMF. Como debater com o Congresso sem apoio do Executivo? Indo mais longe: em novembro há eleições municipais, e o Congresso se esvazia. Depois das eleições, vêm as festas de fim de ano. Retoma-se o trabalho no ano que vem.

...fala muito!

Mas imaginemos que tudo fique prontinho a tempo de ir ao Congresso e torcer pela aprovação neste ano. A reforma administrativa de Guedes está pronta e com Bolsonaro desde meados de fevereiro. De lá não saiu até hoje.

O importante é ter saúde

O presidente Bolsonaro estar com coronavírus é algo a se lamentar. Saúde é o que todos devem desejar-lhe, sejam favoráveis ou contrários a ele. A vida de um ser humano, já ensinava o pastor John Donne há mais de 500 anos, é parte da vida de toda a Humanidade. E a quem o acuse de debochar da grave doença, um lembrete: se Bolsonaro errou, seja diferente, não repita este erro.

A volta do general

Lembra-se do general Santos Cruz, amigo de Bolsonaro, afastado do cargo de ministro-chefe da Secretaria de Governo depois de uma guerra que lhe foi movida pelos seguidores de Olavo de Carvalho, entre eles pelo menos um dos filhos do presidente? Santos Cruz está de volta, com disposição para briga. Abriu processo contra Olavo de Carvalho, o guru da “ala ideológica” do bolsonarismo, e dois militantes, acusando-os de ofensas nas redes sociais. Pede indenizações que, somadas, atingem R$ 140 mil, e irão para instituições de caridade. As investigações passarão, informa, pelo entorno de Bolsonaro.

Família é entorno?

Flávio, o filho 01, Carluxo, o 02, Eduardo, o 03, enfrentam problemas que podem levá-los a julgamento. Santos Cruz não quer que ninguém lhe peça perdão, mas garante que não vai transigir. “Vou até o fim”, disse à revista Época, “com qualquer consequência. Não é só pela honra pessoal. É funcional também. Eu era ministro! Quem é que tem a ousadia de fabricar um documento grotescamente falso e fazer chegar ao presidente da República? É crime. É uma ousadia, porra! Quero saber como isso chegou ao celular do presidente. Quem enviou?” O presidente recebeu mensagens de WhatsApp atribuídas a Santos Cruz em que teria se referido desrespeitosamente a ele. Completa o general: “Esses vagabundinhos que fizeram isso foram tão amadores que sequer checaram que na hora da falsa mensagem eu estava em voo. São amadores, para minha sorte.” E para azar do presidente, que também não verificou esse pequeno detalhe.

Questão de utilidade

O Gabinete de Segurança Institucional não verifica currículos. Nem mensagens. Ou não é acionado para isso. Em qualquer caso, qual sua função?

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​O país do Tiririca

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Há 50 anos, na ditadura que dizem que não houve, Carlos Lacerda estava preso na Fortaleza de Santa Cruz, no Rio, e fazia greve de fome. Já passava mal, mas não desistia. Seu médico lhe disse: “Carlos, hoje é feriado, a praia está lotada, ninguém vai perceber se você morrer hoje. Você quer ser Shakespeare no país da Dercy Gonçalves”. Lacerda desistiu, voltou a comer.

*O presidente da Embratur, Gilson Machado Neto, que cuida de atrair os turistas estrangeiros, tem inglês comparável ao do técnico Joel Santana. www.metropoles.com/brasil/video-presidente-da-embratur-se-atrapalha-no-ingles-e-vira-piada

*Gabinete do presidente Bolsonaro. O presidente da Embratur canta uma composição de louvor a seu chefe e se acompanha na sanfona. Deprimente. https://www.youtube.com/watch?v=xykmnlTz_Ho

*Ministro do STF, Alexandre de Moraes dança com índios (lembra de Chico Anysio, “Pezinho pra frente, pezinho pra trás”?) Deprimente. https://videos.bol.uol.com.br/video/indigenas-fazem-pajelanca-para-moraes-em-seu-escritorio-04028D98386CC8996326

*Lembra do sujeito que pôs fogo num ônibus em frente ao Palácio do Planalto, dia 25, gritando “Fora, Bolsonaro”? Foi detido. E libertado no dia 27. Segundo a Justiça, sua conduta foi grave, mas “não causou significativo abalo da ordem pública nem evidenciou periculosidade”. Sem comentários.

Então, tá

Mas ele, diz a Justiça, tem condições pessoais favoráveis. É primário, tem bons antecedentes, residência fixa, trabalho lícito. Mesmo assim, está proibido de sair do Distrito Federal por mais de 30 dias e mudar-se sem avisar à Justiça. Tem de comparecer a qualquer ato do processo. Sem moleza.

Serra na mira

A Operação Lava Jato denunciou o senador José Serra, ex-governador e ex-ministro, PSDB, por lavagem de dinheiro. Diz a denúncia que Serra, quando governador, recebeu propinas da Odebrecht em troca de benefícios na obra do Rodoanel, estrada que liga as rodovias que chegam a São Paulo e, quando pronta, terá 176 km de extensão. A Odebrecht teria pago a Serra R$ 27,8 milhões, via empresas no Exterior, para encobrir o destinatário da propina. A filha de Serra, Verônica, também foi denunciada.

Serra reage

O senador Serra reage de duas maneiras: nega ter recebido dinheiro ilegal e diz que a denúncia não poderia ter sido feita, porque o caso já foi julgado pelo STF, que decidiu pela prescrição. É verdade: fatos anteriores a 2010 já estavam prescritos. O inquérito nascido da delação da Odebrecht foi enviado à Justiça Eleitoral e lá arquivado (ou seja, não havia prova de culpa). Pela lei, uma pessoa não pode ser denunciada duas vezes pelo mesmo fato. Serra já tinha sido denunciado e recebido a decisão do Supremo e do TSE.

A brecha

A Lava Jato alega que, embora as propinas de que acusa o ex-governador tenham ocorrido antes de 2010, a movimentação do dinheiro, para escondê-lo, havia ocorrido até 2014, pelo menos. Desta maneira, a denúncia de agora não seria a mesma que já foi rejeitada pelo Supremo. É briga de porte.

Acredite se quiser

A Lava Jato de Curitiba incluiu, numa ação que investiga doações ilegais de campanha eleitoral, o nome dos presidentes da Câmara, Rodrigo Maia, e do Senado, David Alcolumbre. Os dois têm foro especial e não podem ser julgados por juiz singular, de primeira instância. Mas o juiz aceitou receber a ação, por não reconhecer a maneira curiosa pela qual Maia e Alcolumbre foram citados: “Rodrigo Felinto” e “David Samuel”. Não está errado, mas não são os nomes que usam no dia a dia, nem seus nomes parlamentares. Rodrigo Felinto Ibarra Epitácio Maia é o nome completo de Maia, e David Samuel Alcolumbre Tobelem o de Alcolumbre. A Lava Jato alega que não  usou os nomes truncados para que ficassem despercebidos e o processo fosse aceito: põe a culpa num “assistente inexperiente”, que não sabia os nomes e os truncou. O juiz que substituiu Sérgio Moro em Curitiba, Luiz Antônio Bonat, disse que não sabia de nada. Há um outro probleminha: a questão já estava no Supremo. Uma pessoa não pode ter duas denúncias por um só caso.

Voltando a Tiririca

A mulher do governador de São Paulo, Bia Dória, presidente do Fundo Social, destinado a amparar as pessoas mais pobres, disse em entrevista que não é correto dar comida ou roupa a moradores de rua. Bia Dória falou com Val Marchiori, estrela do reality Mulheres Ricas. E por que negar auxílio a moradores de rua? “Porque – disse Bia Dória - eles precisam saber que têm que sair da rua, um local que hoje é confortável para eles. A pessoa (...) quer receber comida, roupa, uma ajuda, e não quer nenhuma responsabilidade. Isso está muito errado”. João Dória (PSDB) quer ser candidato à Presidência.

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​Filhuxos, encolhi as ameaças!

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Talvez sejam os problemas judiciais, talvez a prisão de alguns dos devotos mais radicais, talvez a apreensão de arquivos virtuais – mas, seja qual for o motivo, o presidente Bolsonaro está em nova fase: a de Mito Paz e Amor. O novo ministro da Educação que escolheu pode ser bom ou ruim, mas é uma pessoa normal, que jamais chamaria a mãe de um crítico de “égua sarnenta”. Ministros seus fizeram gestos de paz a Supremo e Congresso, e – surpresa! – Bolsonaro até se mostrou solidário com os 50 mil mortos do coronavírus, e pediu ao presidente da Embratur, Gilson Machado, que tocasse na sanfona a belíssima Ave Maria, de Gounod. Está bem, Machado está longe de ser um Dominguinhos, não tem a voz de um Caruso, mas valeu pela homenagem.

Com Bolsonaro nunca se sabe, mas aparentemente optou pela suspensão das ameaças. Aproximou-se do Centrão, que prefere um ótimo acordo a uma boa briga, mantém-se mais afastado dos devotos do cercadinho, onde costumava fazer declarações explosivas. E, vários dias depois da prisão de Fabrício Queiroz, nada comentou – nem sobre o preso, nem sobre Frederick Wassef, ao mesmo tempo advogado de Flávio Bolsonaro, de Queiroz e do próprio Bolsonaro. Carluxo, o mais belicoso dos filhos, retornou às atividades na Câmara Municipal do Rio, longe do Planalto. Os devotos continuam ferozes, pedindo briga, mas, sem apoio presidencial, até quando?

Conciliação

Os novos ministros são mais conciliadores que os anteriores. Fábio Farias, das Comunicações, tem ótimo relacionamento no Congresso. Carlos Alberto Decotelli, da Educação, deixou boa impressão no meio político, dos tempos em que esteve na presidência do FNDE, Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação – embora ainda não tenha explicado quem foi o responsável por uma concorrência que o Tribunal de Contas anulou, na qual seriam comprados vários computadores para cada aluno. E, além de ter deixado boa impressão, tem outras vantagens: não é Weintraub nem olavista.

Um bom momento

A corda foi muito esticada, mas talvez ainda seja possível o retorno – se os filhos colaborarem, se o próprio presidente se contiver, se os inquéritos e ações judiciais não puserem seu mandato em risco. E há alguns pontos, neste momento, em favor de Bolsonaro: embora a pesquisa Datafolha indique que ampla maioria acha que ele sabia onde Queiroz estava, isso não abalou sua popularidade. Houve uma ligeira queda, de um ponto percentual, dentro da margem de erro. E, por esses dias, o presidente inaugurou o primeiro reservatório no Ceará que recebe água da transposição do rio São Francisco – obra que se arrastava desde D. Pedro 2º. Justo no Ceará, comandado pela família do adversário Ciro Gomes. Isso deve elevar seu índice nas pesquisas.

Uma vitória

O senador Flávio Bolsonaro ganhou no Tribunal de Justiça do Rio e terá direito a foro privilegiado, por ser deputado estadual na época do episódio das rachadinhas. A decisão permite que o julgamento ocorra em segunda instância, pulando a etapa do juiz único. Talvez essa vitória, que o afasta do juiz Flávio Itabaiana, leve também à anulação da prisão preventiva, ordenada pelo juiz, no mesmo processo, de Fabrício Queiroz. Mas a questão deve ser observada com cautela: o Supremo já decidiu várias vezes que, ao deixar o cargo que lhe dá direito ao foro especial, o cidadão passa a ser julgado em primeira instância (o que acontece, por exemplo, com o ex-presidente Michel Temer). Há uma diferença entre ambos: Temer não mais ocupa cargo público e Flávio passou de deputado estadual a senador, sendo que senador também tem foro especial. Mas o foro vale para problemas ocorridos em função do mandato. O caso de Flávio ocorreu em outro mandato. Que dirá o STF?

A marcha da gripezinha

Em Brasília, no dia 25 de maio, com tudo fechado, houve 6.930 casos de Covid, com 114 mortes. No dia 26 houve o afrouxamento das restrições, com abertura do comércio.  Um mês depois, 24 de junho, houve 37.254 casos, com 495 mortes. As associações de comerciantes haviam prometido erguer um hospital de campanha com 300 leitos de UTI, o impacto previsível. O impacto foi pouco maior, porém os lojistas não cumpriram a promessa. No dia 25 de junho, havia 95 pessoas esperando lugar na UTI. Mas o problema não é apenas de promessas descumpridas: Israel, que havia levantado boa parte das restrições, fechou-se de novo; Portugal também; e, nos EUA, o número de casos e de mortes bateu recordes neste fim de semana.

O grande reinício

Se a questão do emprego é difícil para todos, imagine quem tem mais de 50 anos e já era discriminado antes da pandemia. Pois é: um grande evento de trabalho e reinvenção profissional para os maiores de 50 anos vai-se realizar de 6 a 9 de julho. São mais de 50 palestras ao vivo pelo Instagram, na Kaleydos. Endereço https://bit.ly/MaturiFest2020. Tudo de graça.

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​A hora da vacina

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Ainda há tempo para 2020 terminar bem: a vacina inglesa desenvolvida pelo Imperial College de Oxford e os laboratórios Astra-Zeneca vai bem nos testes e está quase no ponto de ser produzida em todo o mundo, incluindo o Brasil. Nesta semana, disse o ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello, pode ser assinado o acordo do Laboratório de Manguinhos e da Fundação Oswaldo Cruz com os ingleses. A Escola Paulista de Medicina, da Universidade Federal de São Paulo, e a Fundação Jorge Paulo Leman podem aplicar vacinas em voluntários. É a última etapa antes da produção em massa.

Simultaneamente, o Instituto Butantan, da Universidade de São Paulo, se apronta para produzir a vacina chinesa da Sinovac. Pelo menos mais duas vacinas estão no forno, criadas pelas americanas Gilead e Moderna. A OMS ainda estudará a taxa de imunização de cada vacina, para estabelecer os seus protocolos. Mas, enquanto os estudos tentam apontar a mais adequada, todas estarão à disposição para prevenir a doença. Nada impede que todas acabem sendo indicadas: no caso da paralisia infantil, a vacina mais usada no mundo é a Sabin (a da gotinha), mas a Suécia faz a vacinação com a pioneira Salk.

Quando começa a vacinação em massa, como será distribuída a produção mundial de vacinas? Não há resposta exata, ainda, mas a vacinação em massa está perto de começar. Espera-se ainda a aprovação de remédios para quem já pegou a doença. Enfim, o Covid poderá ser comparado a uma gripezinha.

Brasil prioritário

Reafirmando: ao se envolver diretamente nos testes com duas das vacinas, o Brasil estará na lista prioritária para importá-las e produzi-las. A prioridade é essencial: imaginemos que 25% da população mundial tenham de ser vacinados. Serão dois bilhões de doses, se a imunização pedir uma só dose. Produzir dois bilhões de vacinas leva tempo e muitos países ficarão para trás

O custo da vida

Comenta-se, sem maiores detalhes, que a vacina não deve ser cara e que, produzida em bilhões de doses, o custo tende a se reduzir. Mas chegar a ela custou caro: entraram no jogo fundações como a de Jorge Paulo Leman (um dos maiores acionistas da AB-Inbev, da Heinz, da Burger King) e a de Bill Gates, da Microsoft, além dos gigantes farmacêuticos mundiais. Trump pôs em dúvida, antes, a gravidade do Covid, e virou cloroquineiro – igualzinho, igualzinho. Mas mostrou que era diferente ao perceber a gravidade do Covid, e o Governo americano colocou algo como US$ 1 bilhão na Moderna, na busca da solução. Este colunista não se surpreenderá se for informado de que as despesas na busca da vacina e do remédio alcançaram uns US$ 10 bilhões.

Dúvida

O escritor Olavo de Carvalho gravou vídeo em que se queixa de não ter tido qualquer auxílio do Governo e ameaça derrubar Bolsonaro se não o receber. Quantificando, são R$ 2,8 milhões de multas à Justiça, mais recursos para que continue vivendo nos EUA. Disse que condecoraçõezinhas não quer e sugeriu que Bolsonaro as coloque num local que vive citando, até em reuniões ministeriais. A dúvida: já deram ajuda a Olavo de Carvalho? E, como não recebeu nenhuma condecoração, sua sugestão terá sido seguida?

Dia bom

O Senado deve votar hoje o Marco do Saneamento Básico, pelo qual a iniciativa privada terá papel preponderante em levar a toda a população do país os esgotos e a água potável até 2033. Hoje, mesmo cidades como o Rio e São Paulo dispõem de saneamento básico insuficiente – e o presidente até já apresentou isso como uma virtude, o brasileiro precisa ser estudado, pula no esgoto e não acontece nada. Saneamento básico para todos representará forte queda na mortalidade infantil, redução dos custos do SUS, facilidade para o combate a doenças transmitidas por insetos e por roedores. Mais: são obras razoavelmente simples, que empregam muita gente e que podem atrair investimentos calculados em R$ 700 bilhões. Aprovado (e implantado) este Marco do Saneamento Básico, a história do Brasil se dividirá em duas partes.

Números

Hoje, metade da população não tem água tratada. E 1/7 não têm esgotos.

Os extremos se tocam

A casa em Atibaia (que não é nem de Lula nem de Queiroz, mas de amigos deles) não é a única coisa comum a ambos os casos. As explicações são sempre curiosas: nas duas casas o dono não aparece, uma tem placa de escritório de advocacia, e um cavalheiro fica um ano morando lá sem que o dono saiba (isso na primeira versão: na segunda o dono sabe, mas prefere nada comentar para que outro de seus clientes, embora amigo do cavalheiro escondido, não se preocupe). E neste ano jamais conversaram. Normal, né?

Quem defende

Wasseff tinha procuração de Bolsonaro. Karina Kuffa disse que o cliente era dela. Ele então desistiu de defender Flávio. Mas a briga era pelo outro!

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​Os notáveis já comandam

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Há um importante grupo no Governo Federal (chamado genericamente de área militar, embora nem todos os militares que estão no Governo pertençam ao grupo, embora nem todos no grupo sejam militares) que se preocupa com o desgaste político do presidente. Quando até Olavo de Carvalho ameaça derrubar o Governo, quando a prisão de um tal Queiroz, confesso adepto de práticas pouco ortodoxas de arrecadação ameaça atingir a própria família do presidente, o grupo quer reverter a situação com um Ministério de Notáveis.

O nome foi criado no Governo Fernando Collor, com o mesmo objetivo, e houve a ocupação de ministérios por pessoas notáveis. Não adiantou: Collor sofreu impeachment (e mais tarde acusou os notáveis de traição).

Acontece que o presidente Bolsonaro já formou um Governo de notáveis. O ministro do Meio-Ambiente assistiu a uma bela afrouxada na fiscalização ambiental, os dois ministros da Educação que se sucederam foram notáveis pela despreocupação com problemas educacionais, o ministro da Saúde não tem experiência no assunto – mas tudo bem, ele aprende, basta esperar algum tempo e assistir a mais alguns milhares de mortes na pandemia – e até agora só se cercou de militares, sem se contaminar com a presença de especialistas em saúde pública. E há a ministra Damares – querem figura mais notável?

O chanceler pediu o apoio dos EUA ao candidato brasileiro ao BID, para derrotar a Argentina. Trump não deu apoio e ainda lançou candidato próprio. O Itamaraty agradeceu. Perdoa-me por me traíres, diria Nelson Rodrigues.

Posto notável

Há Paulo Guedes, o Posto Ipiranga. Das três reformas que achava essenciais e urgentes, uma, a da Previdência, foi aprovada graças a Rodrigo Maia, e era diferente da que propôs. A administrativa está passando numa boa – uma boa temporada nas gavetas de Bolsonaro, onde estão há um ano. A tributária será proposta algum dia.

O tempo passa

A propósito, não botemos a culpa da pandemia: de janeiro de 2019 a março de 2020, houve tempo. Mas Bolsonaro preferiu, entre outras coisas, analisar esteticamente a esposa do presidente francês. E o Posto Ipiranga se calou, posto em sossego.

As notáveis consequências

As ações do notável Ministério provocam problemas também notáveis: um dos mais graves é dificultar o acordo Mercosul-União Europeia e colocar em risco o comércio já existente entre europeus e o Brasil. Menos pelas queimadas na Amazônia e mais pelas declarações de que isso não tinha importância, o Brasil sofreu bloqueio de recursos europeus destinados à preservação. Some-se a isso frases de Bolsonaro sobre reservas indígenas e o afrouxamento da fiscalização ao desmate ilegal (antes, equipamentos usados em desmatamento ilegal eram incendiados. Agora, são devolvidos), e há restrições de parlamentos de países europeus ao acordo. A Europa se beneficiaria com ele – estima-se que suas empresas poupariam € 4 bilhões ao ano. Mas é fácil boicotar o acordo: a imagem internacional de Bolsonaro é ruim (basta ver como é tratado pela imprensa europeia), e o lobby dos agricultores europeus contra o agronegócio brasileiro, com o qual não conseguem competir,  usa isso contra o Brasil. Tirando a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, ninguém dialoga com os clientes.

Duvidar é preciso

Fabricio Queiroz, amigo de Bolsonaro, assessor de seu filho Flávio, foi preso na casa de Atibaia de um advogado de Flávio. Não estava escondido, mas hospedado: não havia nenhuma ação legal contra ele. Mas o advogado, em várias entrevistas, disse não saber onde ele estava. Aliás, se é do Rio e se tratava de câncer em São Paulo (onde Veja o entrevistou, no Hospital Albert Einstein), por que foi morar em Atibaia, a 60 km de distância? O presidente Bolsonaro disse que é porque a casa do advogado ficava perto do hospital onde se tratava. Enganou-se: o Hospital Nova Atibaia, onde ele disse fazer o tratamento, negou a informação. E o Einstein fica longe: dá uns 80 km, com o trânsito paulistano no caminho. Outra dúvida: se Bolsonaro e Flávio não tinham contato com Queiroz, como o presidente sabia do hospital de Atibaia? E por que surgiriam a respeito dele tantas invenções? Questão de hábito?

O outro também

Boa parte da argumentação bolsonarista nas redes sociais se refere ao caso Queiroz como perseguição política. Havia 20 gabinetes parlamentares que, segundo o Coaf, tinham movimentação financeira atípica. Flávio Bolsonaro era o 19º da lista, com R$ 1,3 milhão (Queiroz era o operador). A lista era encabeçada pelo gabinete de um deputado petista, André Ceciliano, com 49,3 milhões. É natural que um assessor do filho do presidente eleito fosse mais citado que os demais. Mas o justo é que contra todos os envolvidos na lista haja um inquérito semelhante. Justiça é Justiça, sem perseguir ninguém.

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​A bala de prata e o lento moinho

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As afirmações de Sérgio Moro não foram a bala de prata que iria liquidar o Governo Bolsonaro. A grotesca reunião do Ministério em que se tratou de tudo, menos de administração e de combate à pandemia, também não foi o tiro decisivo. Bolsonaro buscou apoio nas Forças Armadas, lançou ameaças, disse várias vezes que sua paciência estava finda. Bem, há mais de cem anos o Leão da Metro ruge nas telas, e até hoje nunca feriu ninguém.

Empate? Não: a grande ameaça ao Governo Bolsonaro vem sendo forjada aos poucos. O moinho da Justiça mói lentamente, mas o que mói vira farinha. Bala de prata para que? O maior risco que Bolsonaro corre é ser corroído pelas beiradas, por inquéritos sobre apoiadores, financiadores e movimentos ilegais na campanha eleitoral. O general Luiz Eduardo Ramos, ministro-chefe da Secretaria de Governo, um dos primeiros a sentir a direção dos ventos, advertiu indiretamente o Tribunal Superior Eleitoral a “não esticar a corda”. 

O problema é que há mais de uma corda: o inquérito das fake news ameaça o Gabinete do Ódio, área de propaganda onde se movem com facilidade dois dos filhos do presidente; o inquérito no Rio sobre as rachadinhas, pelas quais um parlamentar se apropria de parte dos salários de assessores, é um risco para Queiroz – lembra-se dele? – que já disse que seu chefe Flávio Bolsonaro de nada sabia, mas que o dinheiro ilegal pagava mais  gente para auxiliá-lo. Talvez surja uma bala de prata, mas não é essencial.

Em nome do filho

Até agora, sabia-se que no fim do arco-íris dos inquéritos estavam os filhos 01, 02 e 03 do presidente da República – mas isso não era dito por ninguém. O silêncio terminou: o procurador Sérgio Pinel, do Ministério Público do Rio, citou “fortes indícios da prática do crime de lavagem de dinheiro” contra Flávio Bolsonaro. Segundo o jornal O Globo, desde 2003, quando assumiu seu primeiro mandato, Flávio comprou 19 imóveis.

O moinho mói

Há dois inquéritos em que o resultado das investigações é intercambiável: o do TSE, no qual corre o pedido de cassação da chapa Bolsonaro-Mourão, e o das fake news, do STF. Há quem conteste a legalidade do inquérito das fake news, por ter sido aberto no Supremo sem que alguém o acionasse. Mas, quando Sérgio Moro deixou escapar a gravação da conversa em que Dilma prometia a Lula que o “Bessias” lhe levaria a nomeação para o Ministério, evitando que os federais o incomodassem, estava na ilegalidade (a gravação foi feita fora do prazo permitido), tanto que pediu desculpas e foi advertido, mas Lula não virou ministro e o Governo Dilma acabou em impeachment. E quem julga a legalidade de um inquérito no Supremo? O próprio Supremo.

Virando farelo

A constatação de que Bolsonaro ocupou todo o espaço político, a ponto de fazer oposição a si mesmo, vale também para apoiadores e ministros. Sair disfarçado de Ku Klux Klan, grupo racista e criminoso dos EUA, jogar fogos de artifício no Supremo, desafiar um ministro do STF para uma briga de rua... nem se a oposição fosse competente desgastaria tanto o Governo. E aí vem o ministro Weintraub apoiar os desordeiros. Até Bolsonaro, sempre beligerante, disse que Weintraub se tornou um problema. Mas resolvê-lo é difícil. Os filhos do presidente e o escritor Olavo de Carvalho, a quem muito prezam, apoiam Weintraub. Há militares dentro do Governo que adorariam afastá-lo. Olavo ataca os militares, que não reagem publicamente. Curioso é que tanto os que querem manter Weintraub quanto os que querem afastá-lo não discutem seu desempenho na Educação (talvez porque não haja nada a discutir). Discute-se quem manda mais, quem são os favoritos de Bolsonaro.

Para as duas alas e para o ministro, Educação é apenas um detalhe.

Multa para poucos

Por decreto do governador Ibaneis Rocha, é proibido andar nas ruas de Brasília sem máscara facial. Bom, os vinte ou trinta ativistas comandados por Sara Winter montaram um acampamento em lugar proibido e ficaram lá por vários dias; quando desalojados, montaram tranquilamente as bases para o lançamento de fogos de artifício contra o edifício do Supremo. Nenhum jamais usou máscara, exceto quando se disfarçaram de Ku Klux Klan, com tochas e tudo, para manifestar-se contra o Supremo. O presidente Bolsonaro cansou de circular sem máscara pela cidade. Aliás, em um mês de vigência da obrigatoriedade da máscara, só três multas foram aplicadas. O terceiro dos multados foi Weintraub, quando se juntou a um grupo de manifestantes.

Por que só ele, e não os manifestantes também? Por que só ele, e não o presidente Bolsonaro, que deveria dar o exemplo? Parece perseguição. E é.

Sem fantasia

Cinco partidos (Cidadania, PSB, PDT, PV e Rede) apresentaram pedido de impeachment de Bolsonaro. Não é para valer. Rodrigo Maia vai deixá-lo em banho maria. Só anda se houver uma tremenda crise, além das atuais.

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​Sílvio Santos vem aí

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O número de ministérios seria reduzido à metade. Nenhum acordo com o Centrão, representante da Velha Política. Abaixo a esquerda. E chega de PT.

O número de ministérios não foi reduzido à metade, o Centrão virou símbolo da Nova Política e surge mais um ministério - Comunicações. O mais novo ministro, Fábio Faria, foi eleitor de Lula e Dilma. Foi também vice-líder do bloco de esquerda formado por PCdoB (comunistas linha chinesa), PDT (o partido de Leonel Brizola e de Ciro Gomes), PSB (socialistas), PMN e PRB. Fábio Faria está no PSD – partido cujo presidente, Gilberto Kassab, foi ministro de Dilma. Este é o perfil, digamos, ideológico, do novo ministro das Comunicações do governo que gosta se dizer de direita.

Mas o melhor vem agora. Todos garantem ter sido surpreendidos com a criação do Ministério das Comunicações e a escolha de Fábio Faria. Kassab, o mestre da negociação, um dos políticos mais bem informados do país, diz que não soube das negociações de Bolsonaro com Faria. Tem mais: Faria é genro de Sílvio Santos, casado com Patrícia Abravanel. Pois não é que Sílvio afirma que não sabia de nada? Pois é: todos dizem que as negociações foram mantidas em sigilo para que nada vazasse. E só quando o Diário Oficial da União já estava entrando no ar é que o informaram. Sílvio não ficou nem um pouco chateado – como se sabe, ele não se preocupa em saber tudo o que ocorre em seu redor, em detalhes. Mas ninguém ia mentir. Nós acreditamos.

Negócios da China

A intimidade de Fábio Faria com TV, por meio do sogro, e o bom contato com os chineses, via PCdoB, podem ajudá-lo numa das mais difíceis tarefas do Ministério das Comunicações: a escolha do 5G a ser implantado no Brasil. O 5G promete uma revolução não apenas nas comunicações mas, pela velocidade e estabilidade, na própria maneira de viver – será mais fácil, por exemplo, trabalhar em casa. Há duas empresas no duelo: a chinesa Huawei, que lidera a corrida, e a americana Qualcomm. O presidente Trump, que tem forte influência sobre Bolsonaro & Filhos, acha que a Huawei é um braço da espionagem chinesa. Outra tarefa será preparar os Correios para a privatização. E, ao mesmo tempo, passa a ser responsabilidade de Faria a propaganda do Governo. Agora ele é o chefe de Fábio Wajngarten; e é quem terá de lidar com Carluxo, o filho 02, líder extra-oficial de toda a propaganda.

Hora H

O momento é importante para a área de Comunicação. Bolsonaro está mal de popularidade. A pesquisa XP-Ipespe (a XP é uma corretora e as pesquisas ajudam escolha dos investimentos) é a melhor para ele: o índice dos que acham seu Governo mau ou péssimo caiu de 49 para 48%, os que o acham ótimo ou bom subiram de 26 para 28% - alterações dentro da margem de erro. A pesquisa DataPoder diz que 48% gostariam de afastar Bolsonaro e 46% preferem mantê-lo. A pequena diferença mostra a divisão no país.

As razões da má vontade

O leitor Edson Chiavegatto comenta a nota da coluna sobre a dificuldade de firmar acordos comerciais com outros países, atribuída em boa parte à má imagem que o Governo criou em áreas como preservação ambiental. Trecho da mensagem: “Reprovo algumas atitudes ou ações do Governo, mas a verdadeira razão para essas dificuldades é a forte influência do lobby do agronegócio daqueles países sobre seus governos. Há décadas é assim, independente do Governo e suas políticas, e assim seguirá sendo”. É verdade – mas o lobby anti-Brasil usa os argumentos que lhes fornecemos. Sem esse nosso discurso, ficaria mais difícil a eles impor o afastamento do Brasil.

Ameaças, não

Um cavalheiro enviou duas cartas de ameaças a este colunista (seu nome só será divulgado após termos a certeza de que não é alguém usando o nome de outra pessoa). Decidi lavrar boletim de ocorrência. Segue a carta como chegou (atenção: contém palavrões): ”O Sr. Não passa de um comunista vagabundo, sua coluna é uma merda, gosta de intriga, não gostada de Geraldo Alkimin, vivia caluniando, agora é a vez do Governo Federal, calúnias contra o presidente, fez intrigas entre Moro e o presidente, Moro se fodeu. Melhor você calar essa sua boca de esquerda comunistas, e não escrever mais porra nenhum a respeito da vida política do presidente, vem falar do STF?, quem são ele?, corte de merda,bandidos nomeados para proteger bandidos condenados. É melhor calar a boca, você faz parte da Imprensa marrom que juntos com os Governadores e Prefeitos,montaram uma organização de marginais para derrubar o presidente. Fabricam as quantidades de pessoas contaminadas e mortes pelo coronavírus, Hospitais no esquema, dando laudos forjados de mortes por coronavírus, para receberem uma bolada do dinheiro que vem sendo roubado, pelos Governadores e Prefeitos, isso você não divulga na sua coluna. Vou dar só mais um aviso, já falou demais, já encheu o saco.Amor Febril pelo Brasil.”

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​Chore as mortes. E proteja a carteira

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Existe gente que, diante da pandemia, vai com coragem à linha de frente para ajudar a enfrentá-la. Há gente que segue o conselho médico e se mantém isolada, protegida. Tem gente que, em busca de proveito político, chega a negar a doença que já matou quase 40 mil brasileiros. E o pior das gentes são aqueles que, enquanto tantos choram, tomam seus lenços e carteiras.

Não, não são aqueles egoístas que, com bons salários e excepcionalmente bons penduricalhos, não desistem de um só centavo para ajudar no combate à pandemia. São piores: aqueles que, tendo os maiores salários que o Tesouro pode legalmente pagar, dispondo de penduricalhos que multiplicam estes salários, aproveitam o momento para tentar pegar mais algum. Desta vez, ao menos por enquanto, se frustraram; mas nenhum precisará perguntar quanto custa o carro que quer comprar – aliás, o carro está entre suas mordomias, com chofer, combustível, manutenção e troca periódica pelo modelo novo.

A coisa aconteceu, mais uma vez, no Tribunal de Justiça da Bahia. Nesta segunda, o TJ decidiu antecipar o pagamento do abono e adicional das férias do primeiro e segundo períodos do ano que vem. Motivo? “A diminuição de renda familiar de alguns magistrados nesse momento de crise".

O corregedor nacional de Justiça, ministro Humberto Martins, foi rápido: mandou suspender o pagamento. E deu dez dias de prazo para que o tribunal baiano lhe envie as explicações de tamanha generosidade.

Sem fantasia

Não leve a sério a aceitação de denúncias contra Bolsonaro em Haia, na Corte Internacional de Justiça, nem na Comissão Interamericana de Direitos Humanos. Vão ficar por lá, numa gaveta. Mas não serão enviadas para a cesta seção: caso esteja fraco demais, politicamente, pode até ser que o julguem. Mas não é provável. O problema é outro – a erosão da imagem brasileira.

O pior da coisa

*A Comissão de Assuntos Tributários da Câmara dos Deputados americana se opôs ao plano de expandir os laços econômicos dos Estados Unidos com o Brasil. Motivo: o comportamento do Governo Bolsonaro na questão dos direitos humanos e do meio-ambiente. “O Governo Bolsonaro “desconsidera totalmente os direitos humanos básicos”, diz a Comissão.

*O Parlamento holandês veta acordos com o Brasil por problemas com o meio-ambiente.

*A Alemanha cortou o aporte que fazia ao Fundo Amazônico. A Noruega também, mas a Noruega não faz parte da União Europeia.

O principal trunfo econômico de Bolsonaro é o acordo entre o Mercosul e a União Europeia, que abre amplas portas às exportações brasileiras. Mas o acordo tem de ser aprovado pelo Parlamento de cada país envolvido, e também pelo Parlamento europeu. As restrições da Holanda e Alemanha dificultam essa aprovação. E há uma bancada no Parlamento da França que lembra os comentários sobre a aparência da mulher do presidente Macron.

Estes problemas foram criados pelo Brasil – e por que? Que é que o país ganhou falando mal dos índios, reduzindo o combate ao desmatamento ilegal da Amazônia, acusando os europeus de, há séculos, ter destruído florestas?

Eleições mais tarde

Tudo indica que, devido à pandemia, haverá adiamento por um ou dois meses das eleições municipais. O novo presidente do Tribunal Superior Eleitoral, ministro Luís Roberto Barroso, conversou com médicos de várias especialidades que enfrentam a pandemia e disse que há consenso para que as eleições municipais sejam adiadas, mas se realizem ainda neste ano, com tempo para que os novos eleitos assumam quando se encerrar o mandato dos atuais prefeitos e vereadores. A informação já foi transmitida aos presidentes da Câmara e do Senado, Rodrigo Maia e David Alcolumbre. As datas mais prováveis estão entre final de novembro e meados de dezembro. Em 20 de dezembro, no máximo, o nome de todos os eleitos deverá ser anunciado.

Coisa nova

Campanha no meio da pandemia é coisa nova, que exigirá novas atitudes e estratégias dos candidatos. Quem tiver melhor informática leva vantagem. Pesquisas, cruzamento de dados, propaganda – quem souber interpretar a situação tem tudo para ganhar. As notícias falsas (em bom Português, fake news) devem perder força, até porque as redes sociais estarão vigilantes.

O cansaço de todos

Em parte, as violentas manifestações americanas contra o racismo se relacionam com a tensão em que todos vivem, por causa da pandemia e da quarentena. Esse tipo de cansaço aparece aqui não só nas manifestações (os manifestantes arriscam a vida, aglomerados, sem máscaras) como nas pesquisas de opinião. Pesquisa Ibope, na cidade de São Paulo, mostra que Dória e Covas caíram bem, embora ainda tenham 51% de aprovação. Bolsonaro caiu de 26% para 21%. Todas as autoridades se desgastaram.

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A queda, a queda e a queda.

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O presidente Bolsonaro foi a Águas Lindas, em Goiás, para inaugurar um hospital de campanha que já estava pronto há 40 dias, o primeiro construído pelo Governo Federal para as vítimas da pandemia. Desceu do helicóptero, escorregou e caiu no chão de terra. Levantou-se em seguida, sem problemas.

No fim do ano passado, Bolsonaro já havia tido uma queda, escorregando no banheiro do Palácio da Alvorada e batendo a cabeça. Passou a noite em observação, no hospital. De manhã voltou ao palácio, sem problemas.

Mas piores são as quedas políticas: o presidente Donald Trump, seu ídolo, que antes dele já falava em cloroquina, disse que se os EUA tivessem lidado com a pandemia como o Brasil (e a Suécia), sem uma rígida quarentena, poderiam ter tido de um a dois milhões e meio de mortos, em vez de 105 mil. Justo Trump, que já chamou Bolsonaro de “Trump tropical”. E nosso vice, general Hamilton Mourão, abriu o jogo sobre como Bolsonaro vê o Governo: se o Ministério da Segurança Pública for separado do Ministério da Justiça, o objetivo será “acomodar aliados”, que “trariam um apoio maior para a base governamental dentro do Congresso”. O Centrão sabe seu valor.

Mourão falou também sobre o desempenho do Governo. Diz que deveria ter criado tratado de conter o desmatamento da Amazônia no ano passado, e que o Brasil “perdeu a narrativa do ponto de vista ambiental e é tratado como vilão”. Para quem cai nas pesquisas, perder Trump e ouvir Mourão é terrível.

 Firme

Nada disso significa que Bolsonaro esteja à beira da queda, embora seja difícil, com apoio reduzido, retomar os patamares de popularidade em que já esteve. Bolsonaro tem menos de um terço do eleitorado, dificultando, em termos políticos, uma tentativa de impeachment. Talvez metade desse terço seja seu núcleo duro, que não irá abandoná-lo. E a, digamos, conquista do Centrão impede a aprovação do impeachment no Congresso. Bolsonaro é do ramo, mas é difícil que mesmo ele crie uma crise em que perca o cargo.

 Olhando o exemplo

Só que, em política, as coisas podem mudar rapidamente. Donald Trump era favorito na luta pela reeleição. Mas a forma pela qual lidou com a pandemia – inicialmente negando-a, depois anunciando que a cloroquina era a solução (o caro leitor não se lembra de algo?) e, numa frase especialmente infeliz, sugerindo injeção de desinfetante para tratar coronavírus – minou sua popularidade. Ficou pouco abaixo do adversário Joe Biden. Veio então o episódio George Floyd, no qual Trump não teve a menor participação. Caiu mais e, nas últimas pesquisas, ficou com 41%, contra 51% de Joe Biden.

 Tumultos americanos

George Floyd era um segurança negro, grande e forte, detido por suspeita de tentar passar US$ 20 falsos. Tentou fugir, resistiu, acabou subjugado, com um policial pressionando-o no pescoço. Disse algumas vezes que não conseguia respirar e, após nove minutos de pressão, morreu. O policial, branco, está numa prisão de segurança máxima, acusado de homicídio. Não há qualquer evidência de que tenha morto Floyd de propósito, ou por ser negro. Mas, de qualquer maneira, exagerou. E, por algum motivo, o assassínio incendiou os Estados Unidos: o slogan “Vidas de negros importam” pegou fundo, e tudo virou um protesto violento contra o racismo – protesto em que manifestantes acabaram matando um policial negro. Trump ameaçou colocar o Exército na parada, o que é proibido pela Constituição (e os militares foram os primeiros a dizer isso). A Guarda Nacional atua, mas sob o comando dos governadores, não do presidente.

 Os números

Condenar o racismo é sempre válido. Mas saquear lojas e incendiá-las? E vejamos números oficiais americanos (fonte, FBI, relatório sobre 2013). Número de assassínios por milhão de habitantes: negros mortos por brancos, 0,77. Brancos mortos por negros, 9,83. Brancos mortos por brancos, 10,22; Negros mortos por negros, 53,94. Sim, há causas que levam a isso, que têm de ser corrigidas. Mas por que esta morte, justamente esta, inflamou o país?

 Terceiro do mundo

O Brasil tem a quinta população do mundo e é hoje o terceiro em mortos pelo coronavírus, atrás apenas de Estados Unidos e Grã-Bretanha. Chegou a esta posição 79 dias depois da morte da primeira vítima do Covid, em 17 de março. A “gripezinha” matou, até quinta-feira, 34.021 pessoas no Brasil. No mundo, já morreram 390 mil pessoas. Especialistas se dividem: há quem diga que a pandemia já reduziu a taxa de contaminação e logo isso irá se refletir em menos casos; há quem diga que vivemos o pico da doença, que logo mostrará sinais de queda; há quem diga que o pico da doença virá daqui para a frente e só começará a cair em agosto.

E há os que temem a volta da pandemia, a “segunda onda”, que atingiria até quem já teve Covid e pensa estar imunizado.

Nós, não especialistas, o que podemos fazer é rezar e torcer.

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