A música como válvula de escape

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Na década de 70 quando estávamos em plena ditadura, isso ecoava pelos lares de forma que os filhos tinham que obedecer aos pais sem questionarem o que estava certo ou errado, apenas deviam obediência.

Formou gerações que aprenderam a obedecer, mas tirou-lhes o poder de argumentação porque isso era condenado tanto em escolas como nas famílias.

A música entrou como válvula de escape. Tudo o que não se podia falar às claras, falava-se através das músicas e foram as músicas mais criativas e onde se usavam metáforas das mais inteligentes para expressar o que não se podia.

Hoje, as músicas são diretas , em compensação jogam palavrões, agressividades, todo tipo de revolta ecoando para todos ouvirem. O mundo atual é de pessoas que querem ser ouvidas o tempo todo . Existe no mercado uma vertente de músicas que expõe todas as mazelas do ser humano e aquilo fica ecoando, vibrando no planeta o som da tristeza, da agressividade, da insatisfação, da cólera. Só jogando detritos da pior espécie nos ouvidos das pessoas. A geração que acusa, aponta e se esquece de construir os sons da paz.

Não se obtém a paz disseminando a guerra.

Não se obtém alegria cantando a tristeza.

Não se obtém amor destilando ódio.

Hoje, infelizmente, o número de pessoas jogando pedras para todos os lados é muito maior do que os pedreiros que as recolhem e fazem construções para abrigar pessoas.

A música denuncia quem é a sociedade, quais são os valores, o que existe de mais íntimo no ser humano está ali expressado na música. Ela pode ser fictícia, com fatos inventados mas mostra onde está a imaginação do ser humano.

Outro dia estava ouvindo músicas do ‘ Balão Mágico’ e me chamou a atenção do quanto as músicas daquela época – década de 80 eram mais lentas, as crianças cantavam em grupos, mais lentamente, exalava uma certa pureza nas letras de criança pra criança. Hoje as músicas estão mais aceleradas, mostrando como está o ser humano.

Às vezes fico observando os comportamentos atuais e me vem uma única palavra em mente : os insaciáveis. Quanto mais facilidades tem, mais revoltados ficam, mais querem, mais reivindicam, mais caluniam, mais pedras jogam sem construírem coisa alguma.

Músicas que tem como objetivo ativar a sexualidade por exemplo. São apelativas para este fim. E me lembro do meu pai quando foi me levar ao carnaval em 1975, comprou uma mesa na parte de cima da AEC onde as pessoas se sentavam e ficavam observando o salão lá embaixo onde se dançava em círculos as marchinhas de carnaval.Meu pai fez uma brincadeira comigo e me disse : - tampe os ouvidos e fique olhando as pessoas pularem, o que lhe parece? Não parecem macacos? Veja aquelas pessoas da direita, olha como fazem... veja os outros... não é estranho?

 

Do jeito dele, tentava mostrar que algumas pessoas se comportavam como animais irracionais, queriam mostrar o corpo, fazer uma dança do acasalamento. Mas ele nunca falava diretamente, sempre nos pedia para observar.E contava que na época dele existia o lança perfume que era jogado no salão e ficava um cheirinho gostoso para todos mas ninguém usando indiscriminadamente. O mesmo com as bebidas que deixavam as pessoas alegres mas não a ponto de brigarem ou se indisporem .

O baile de carnaval era uma válvula de escape com controle, como tudo era controlado. Logicamente os excessos existiam mas ainda assim controlados.

Assim como há pudins, risotos, bifes, arroz com feijão, tortas, frutas e uma infinidade de alimentos para todos os gostos, há também a música.

Sempre brinco com meus alunos que a música clássica está fazendo sucesso há mais de 300 anos. Nunca parou de ser tocada, graças a Deus.

E esta música que veio para ficar, transformar, curar, embelezar, transcender, é a música que me salva de todos os graves problemas que a vida preparou como desafio.

É a música que enleva, acolhe, vai nas profundezas do ser onde ninguém consegue penetrar. Ela suavemente entra com seus sons arrebatadores ou suaves e transforma, mexe, remexe, transporta e cura!

Se não fosse o estudo de piano não sei o que eu faria quando meu pai faleceu bruscamente, eu com 18 anos, pronta para prestar vestibular para Psicologia, sair de Franca, no início do ano ele foi embora , tendo um aneurisma fatal. A música preencheu todo meu tempo, ou melhor: o estudo de piano. Estudava incansavelmente todos os dias, Revolucionário de Chopin, estudos diversos de Cramer, Bela Bartok, Haberbier, Bach, Nazareth, a Grande Fantasia Triunfal de Gottschalk e tudo o mais que me dessem eu me jogava no mundo das notinhas, decifrando partituras, e elas amenizavam minha dor, me tiravam daquele mundo cruel e me transportavam para um mundo sonoro abençoado.

Hoje , torço para termos cada vez mais crianças se jogando no mundo da descoberta da música, ocupando seu tempo , horas e horas se dedicando a este remédio para a alma, para o cérebro, para o corpo físico e emocional!

Ernesto Júlio de Nazareth foi um pianista e compositor brasileiro, considerado um dos grandes nomes do maxixe, considerado, desde os anos 1920, um subgênero do choro. É o patrono da cadeira de número 28 da Academia Brasileira de Música.

Louis Moreau Gottschalk foi um pianista e compositor norte-americano. Compôs, entre outras, a Grande Fantasia Triunfal Sobre o Hino Nacional Brasileiro, que dedicou a Son Altesse Impériale Madame la Comtesse d'Eu.

*Esta coluna é semanal e atualizada aos domingos.